Expressão Nacional discute trabalho desenvolvido pela Comissão da Verdade

09/04/2013 21:30

Expressão Nacional discute trabalho desenvolvido pela Comissão da Verdade

Confira a íntegra do debate Expressão Nacional, exibido dia 9 pela TV Câmara, com Claudio Fonteles (CNV), Luiza Erundina e Nilmário Miranda (deputados federais) e Veiga Cabral (Clube Naval).

Ao baixar e usar o vídeo, você automaticamente declara estar de acordo com o Termo de Uso.

Fonte:Expressão Nacional – TV Câmara

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/17/expressao-nacional-discute-trabalho-desenvolvido-pela-comissao-da-verdade/

Comissão Nacional da Verdade realiza missão na Argentina

Paulo Sérgio Pinheiro durante entrevista na sede da CNV em Brasília. Foto: Marcelo Oliveira / ASCOM - CNV

Paulo Sérgio Pinheiro durante entrevista na sede da CNV em Brasília. Foto: Marcelo Oliveira / ASCOM – CNV

Comissão Nacional da Verdade visitará arquivos e se reunirá com órgãos governamentais e representantes da sociedade civil do país vizinho

A Comissão Nacional da Verdade inicia nesta quarta-feira na Argentina uma missão de três dias em busca de documentos e informações sobre brasileiros desaparecidos no exterior durante o período da ditadura de 64. O coordenador Paulo Sérgio Pinheiro, acompanhado de dois pesquisadores da CNV, visitará os principais arquivos do país e se reunirá com entidades da sociedade civil e representantes de instituições de governo que trabalham com os temas Direitos Humanos e ditadura no país vizinho.

A viagem faz parte dos trabalhos do GT que estuda casos de violações de Direitos Humanos cometidas contra brasileiros no exterior e cometidas contra estrangeiros no Brasil no período da ditadura militar (64-85) e do GT Condor. Além de 11 casos de brasileiros desaparecidos na Argentina, a CNV também busca informações sobre seis argentinos que desapareceram no Brasil entre 1974 e 1980. Outros cinco casos de brasileiros desaparecidos no exterior também serão investigados nos acervos argentinos.

A CNV não só buscará informações sobre os militantes desaparecidos, mas também solicitará buscas a respeito de 37 organizações políticas sujeitas a repressão e 17 órgãos de repressão e inteligência brasileiros que atuaram entre 1946 e 1988. Acredita-se que documentos e registros produzidos pela ditadura brasileira possam estar espalhados em acervos fora do Brasil, como uma estratégia dos regimes autoritários para dificultar o acesso às informações.

Entre os dias 17 e 19 de abril, os integrantes da CNV serão recebidos pela coordenação do Arquivo Geral da Chancelaria, pela direção do Arquivo Nacional da Memória, pela Procuradora Geral da República Argentina, Alejandra Gils Garbó, pelo Secretário de Direitos Humanos da Nação, Martín Fresneda, e pelo chanceler argentino, Héctor Timerman.

“A experiência pioneira da Comissão Ernesto Sabato, a Conadep, a Comissão Nacional dos Mortos e Desaparecidos na Argentina, nos anos 1980, é uma referência para a CNV. Depois dela, o formidável trabalho de recuperação da memória, documental ou dos lugares da repressão, é fundamental para nosso trabalho. Além disso, há fontes documentais decisivas pra reconstituir as graves violações cometidas contra brasileiros nos periodos de ditadura nesse país. É admirável o apoio e a colaboração que estamos recebendo das instituições irmãs da CNV aqui em Buenos Aires”, afirmou Paulo Sérgio Pinheiro logo após chegar à capital portenha.

A CNV se reunirá também com ONGs de reconhecida atuação na busca e preservação da memória, como Abuelas de Plaza de Mayo, Madres de Plaza de Mayo, Asociación Permanente por los Derechos Humanos (APDH), Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS), Memoria Abierta e a Unidade de Direitos Humanos do Conselho da Magistratura.

A equipe da CNV também visitará a Embaixada do Brasil em Buenos Aires.

 

Fonte:

Comissão Nacional da Verdade
Assessoria de Comunicação

Mais informações à imprensa: Lívia Mota e Marcelo Oliveira
(61) 3313-7324 | comunicacao@cnv.presidencia.gov.br

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/17/comissao-nacional-da-verdade-realiza-missao-na-argentina/

Filme: O dia que durou 21 anos – apresentação dia 17/04/2013

Filme - dia 17/04/2013 -  não perca

Filme – dia 17/04/2013 – não perca

 

Convidamos para assistir o documentário O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares, a ser apresentado, dia 17/04/2013, às 19h10, no Espaço Itaú de Cinema – Shopping Crystal Plaza.

Os bastidores – desconhecidos pela maior parte da sociedade brasileira – da participação dos Estados Unidos na preparação e execução do golpe militar em 1964, por meio de documentos sigilosos que ficaram secretos durante anos. O documentário mostra ainda que os Estados Unidos estavam decididos a invadir o Brasil para que o golpe tivesse sucesso.

Trailer Oficial – O dia que durou 21 anos

http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=CfJAnKUD3K0

 

Nome original: O Dia Que Durou 21 Anos

Diretor: Camilo Tavares

Roteiro: Camilo Tavares

Estúdio: Pequi Filmes

Duração: 77 min.

Ano: 2012

Data da apresentação: 17/04/2013

Classificação: 14 anos

País: Brasil

Produção: Karla Ladeia

Cor: Colorido

Distribuidora: Pequi Filmes

 

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/16/filme-o-dia-que-durou-21-anos-apresentacao-dia-17042013/

Um agradecimento à companheira Nadine

A companheira Nadine Borges não é mais assessora da Comissão Nacional da Verdade. Devido às suas evidentes qualidades profissionais e políticas, foi convidada a integrar como comissária/membro a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.

O Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça sente-se no dever de externar um agradecimento sincero à companheira Nadine pelo apoio com que sempre nos brindou, primeiro como integrante da Secretaria Nacional de Direitos Humanos e depois como assessora da CNV.

nadineO Fórum deseja à companheira Nadine pleno sucesso em sua nova função. Somos sempre parceiros, para usar das palavras da própria Nadine, no “compromisso que assumimos em nome de um coletivo, nem sempre facilmente identificável, mas com o qual temos um dever histórico diante de uma dívida história que ainda persiste”.

 

Fonte- Fórum Verdade

 

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/16/um-agradecimento-a-companheira-nadine/

Comissão da Verdade pode ser prorrogada por seis meses

Os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade poderão ser prorrogados por seis meses após a data prevista para o seu encerramento. A afirmação foi feita ontem, em São Paulo, por uma das integrantes do grupo, Rosa Cardoso.

A comissão tomou posse em maio de 2012, com prazo de dois anos para apurar as violações aos direitos humanos ocorridos durante a ditadura militar (1964-1985).

O pedido de prorrogação deve ser feito em uma reunião que a comissão fará com a presidente Dilma Rousseff para discutir o balanço de seu primeiro ano de atuação, ainda sem data definida.

“É possível que a gente tenha aí mais seis meses de trabalho”, disse Cardoso, após a instalação de um grupo de trabalho que vai apurar a perseguição a sindicalistas na ditadura. Segundo ela, as comissões estaduais da verdade reivindicam maior prazo para apresentar o resultado de suas investigações, que depois precisariam ser analisadas pelo colegiado nacional.

A Folha publicou no último domingo que integrantes da própria comissão duvidam que o grupo consiga detalhar todas as violações cometidas durante o regime se tiver que encerrar os trabalhos em maio de 2014.

Embora a maioria do colegiado defenda que a comissão só apresente suas conclusões no relatório final, Rosa Cardoso afirmou que uma divulgação parcial de resultados será feita no mês que vem. A expectativa é atualizar o número de mortos e desaparecidos na ditadura.

A comissão pretende ouvir ex-agentes da repressão no segundo semestre. O grupo tem poder para convocar testemunhas e obrigá-las a depor, mas adotou a prática de convidar as pessoas e só transformar convites em convocações quando houver recusa. (DIÓGENES CAMPANHA/FOLHA DE S.PAULO))

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/16/comissao-da-verdade-pode-ser-prorrogada-por-seis-meses/

CDHMP entrega dossiê à Comissão Nacional da Verdade

O Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu entregou à Comissão Nacional da Verdade documento investigativo que revela detalhes do desaparecimento de seis pessoas no oeste do Paraná, em julho de 1974. O estudo aponta a ligação dos desaparecimentos com os agentes da ditadura militar. O relatório foi entreg

Aluizio Palmar entrega a Claudio Fontelles documento investigativo que revela detalhes do desaparecimento de seis pessoas no oeste do Paraná. Foto-Marcos Labanca

Aluizio Palmar entrega a Claudio Fontelles documento investigativo que revela detalhes do desaparecimento de seis pessoas no oeste do Paraná.
Foto-Marcos Labanca

ue por Aluizio Palmar, presidente da entidade, ao membro da comissão nacional, Cláudio Fonteles, em Foz do Iguaçu (PR), dia 10 de abril.
“Este documento elaborado pelo Centro de Direitos Humanos será muito importante para o desfecho de diversas investigações que estamos realizando. Ele poderá trazer novas informações de pessoas que desapareceram e, ainda, ajudar na contextualização de outros casos. As informações e as pistas destes documentos serão vitais para os esclarecimentos e, com certeza, nos auxiliará e muito na construção do relatório final”, revelou Fonteles, membro da comissão nacional.
Desdobramentos- O relatório final da comissão será publicado em maio deste ano com todas as recomendações necessárias. Segundo Fonteles,será um grande parecer nacional com a descrição detalhada e apuração minuciosa de diversos episódios ocorridos no período da ditadura militar. “Queremos levar tudo isto para o Ministério Público e, esperamos que ele, encaminheesta demanda para a Justiça”, comentou.
Para o processo avançar é preciso manter uma rede permanente de solidariedade e mobilização, afirma o militante Aluizio Palmar: “O desafio nosso é envolver os jovens que ouviram falar, leram, mas não viveram o terror da ditadura militar. Precisamos trazer eles para esta luta, que é de todos nós. Precisamos também envolver as pessoas que viveram neste período a ajudarem nas mobilizações, para que fatos como este não ocorram mais”, destacou.
Comissão- É formada por sete membros, são eles: Cláudio Fonteles, Gilson Dipp, José Carlos Dias, José Paulo Cavalcanti Filho, Maria Rita Kehl, Paulo Sérgio Pinheiro e Rosa Maria Cardoso da Cunha. Ela foi criada pela Lei 12528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012. O seu objetivo é apurar as violações aos Direitos Humanos ocorridas de setembro de 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988.
Dica de leitura
www.cnv.org.br

Fonte- Megafone/ Texto- Wemerson Augusto

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/15/cdhmp-entrega-dossie-a-comissao-nacional-da-verdade/

I Seminário Internacional Documentar a Ditadura

O “I Seminário Internacional Documentar a Ditadura – arquivos da repressão e da resistência” será realizado nos dias 4, 5 e 6 de junho de 2013, no auditório principal do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.

O Seminário reunirá pesquisadores e estudantes de diferentes nacionalidades, inseridos nos campos da história, das ciências sociais, da ciência política, do direito, do serviço social, da ciência da informação e a da arquivologia, entre outras áreas, interessados na temática dos acervos da ditadura militar no Brasil (1964-1985) e na América Latina, suas instituições e as formas de resistências da sociedade.

O ponto de convergência das diversas experiências apresentadas será marcado pelo debate em torno dos atos de documentar o regime ditatorial, isto é, sobre os documentos e arquivos criados pelas instituições militares e civis que serviam ao regime, bem como pelos movimentos sociais, grupos e indivíduos que resistiram naquele mesmo período.

As inscrições são gratuitas, mas as vagas são limitadas. Os interessados devem encaminhar o formulário de inscrição do evento, devidamente preenchido, para o e-mail pi@arquivonacional.gov.br e aguardar confirmação.

A abertura do evento ocorrerá no dia 4 de junho, 18:00 horas, com saudação do diretor-geral do Arquivo Nacional, Jaime Antunes da Silva. A conferência de abertura será proferida pelo ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles, membro da Comissão Nacional da Verdade.

No dia 6 de junho, serão feitas apresentações de comunicações científicas de pesquisadores graduados, pós-graduandos e pós-graduados. Os trabalhos devem ser submetidos para análise da comissão organizadora por intermédio do e-mail memoriasreveladas@arquivonacional.gov.br, de acordo as regras estabelecidas 1ª circular “Chamada de Trabalhados Seminário Documentar a Ditadura 2013”, que ficará disponível no endereço www.an.gov.br/documentaraditadura/

Serviço:
Seminário Internacional Documentar a Ditadura – arquivos da repressão e da resistência
Data: 4, 5 e 5 de junho de 2013
Abertura do evento: 18:00 horas, do dia 4 de junho de 2013
Local: Auditório principal do Arquivo Nacional, Praça da República, 173, Centro, Rio de Janeiro-RJ

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/15/i-seminario-internacional-documentar-a-ditadura/

O documentário e os gritos do coronel

Um grave acontecimento ocorreu no fechamento das expedições do Grupo de Trabalho Araguaia (GTA), que envolve os Ministérios da Defesa, Justiça e Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República: a tentativa de agressão de um oficial-militar, o coronel Cordeiro contra Gilles Gomes, assessor da Ministra Maria do Rosário e um dos principais coordenadores da missão que tem a responsabilidade apurar as circunstâncias das mortes, como, também, localizar e identificar os desaparecidos políticos na Guerrilha do Araguaia.

Tal expedição, a quinta e última de 2012, que localizou uma ossada humana, perfazendo um total de nove achados no ano, contou, ainda, com a presença da incansável Maria Rita Kehl, da Comissão Nacional da Verdade e coordenadora do Grupo de Trabalho sobre a violação dos direitos humanos dos camponeses e indígenas.

O estopim do contencioso ocorreu em função da exibição do documentário “Araguaia – Campo Sagrado”, de Evandro Medeiros, nas dependências do Hotel Itacaiúnas, em Marabá, local escolhido pelo GTA para realizar os relatórios das missões por ter um amplo auditório capaz de albergar os representantes ministeriais, geólogos, médicos legistas, arqueólogos, antropólogos, familiares de desaparecidos, militares, membros do Ministério Público Federal, representantes de universidades e instituições de pesquisa, além de ouvidores independentes e do PCdoB.

A película, cuja narrativa aborda os duros acontecimentos da invasão militar ao sul do Pará para sufocar o mais importante evento de resistência ao regime dos generais, a guerrilha do Araguaia, organizada na clandestinidade pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) entre 1972 a 1975, é contundente pelos depoimentos de camponeses, ex-mateiros e soldados que atuaram naquele episódio.

A insubmissão araguaiana é conhecida tanto pelo heroísmo dos guerrilheiros como, também, pela violência desmedida da repressão política contra brasileiros, sejam militantes políticos que lutavam pelo restabelecimento das liberdades públicas, seja contra indígenas e camponeses, vítimas quase sempre anônimas no enredo dos acontecimentos. Houve, seguramente, mais de 350 mortes até a debacle do movimento comunista. Tais números, mórbidos, excedem em muito a história contada até aqui.

O filme, de cinquenta minutos, promove o segundo encontro, agora imagético, das figuras do ex-mateiro Sinésio Martins, já falecido, e do guerrilheiro-camponês, Jonas. O primeiro encontro de ambos se deu nas matas fechadas e ali, em 24 de novembro de 1973, na região do Pau Preto, São Geraldo, é morto o guerrilheiro, o “Ari”. Ambos estavam lá, de armas nas mãos, em lados opostos e, cada um a sua forma, narram o fato que fora encerrado com o corte de cabeça daquele insurgente, ainda desaparecido.

Outro aspecto contundente do documentário é a denúncia do assassinato do ex-mateiro Raimundo Clarindo do Nascimento, o “Cacaúba”, em junho de 2011. Tal rastejador, um dos mais importantes na caçada militar no Araguaia, silenciou por mais de trinta anos e apenas em maio daquele ano é que começou a falar o que sabia. Em fins de junho apareceu morto depois da visita do Major Curió na Serra Pelada, onde morava. Excluído da reunião dos ex-guias com o antigo chefe, revelou saber que sua vida estava em risco. Na época denunciei o ocorrido num artigo, “Relatos de um homem morto”.

O inquérito aberto pela polícia civil paraense concluiu que o “Cacaúba” fora morto por latrocínio, roubo seguido de morte. Ocorre que aquele homem vivia em absoluta pobreza e ganhava os poucos tostões vendendo bananas num dos lugares mais miseráveis do país brasileiro.

Evandro Medeiros que, além de cineasta é professor do Campus de Marabá da Universidade Federal do Pará (UFPa) revela a descoberta de uma oração escrita de próprio punho por Osvaldo Orlando da Costa, o lendário “Osvaldão”, e que por muitíssimos anos foi guardada, em segredo, por uma camponesa em São Geraldo do Araguaia/PA. Através de seu filme podemos ver a letra do comandante negro das matas, verdadeiro herói de nossas liberdades públicas.

O filme, pulsante, recorta as tradições religiosas da festa do Divino Espírito Santo, na Serra dos Martírios/Andorinhas, que revela um Brasil culturalmente profundo com suas ladainhas e bandeiras e, através da narrativa de Euclides Pereira de Souza, o “Beca”, podemos compreender o suplício de milhares de homens e mulheres atingidos pelos golpistas que assaltaram o poder em 1964.

Mas o que deve ter incomodado mesmo o oficial-militar fora a fala de um ex-soldado, Raimundo Melo, da primeira geração de soldados recrutados na própria região do Tocantins-Araguaia pelo Exército brasileiro em 1974.

No artigo “Sobre lobos e meninos” de fins de fevereiro de 2011, assim os caracterizei: ” Passaram suas vidas com os lobos rondando seus telhados, humanidades e consciências. Um deles sente, por todos os malditos dias, o sangue de uma cabeça cortada percorrendo suas costas e seus caminhos e quer se libertar para resgatar toda uma vida que não foi e que nunca poderá ser se não disser o que sabe, o que viu, o que sente”.

O fato é que Cordeiro, o coronel, invisível até então, equilibrado até então, revelou uma prática e visão de mundo dos tempos de Garrastazú Médici, que está em contradição com as forças armadas na democracia. Será que ele acha mesmo que os ex-soldados, muitos dos quais bestializados pelos superiores terão suas almas agrilhoadas eternamente aos rigores da caserna?

Esbaforido e nervoso gritou, no meio da sessão de cinema, orientando grosseiramente que todos os seus subordinados se retirassem dali para a perplexidade geral do cineasta, de familiares, técnicos, militares e representantes do governo federal. Como se não fosse o bastante tão triste espetáculo de intolerância, ainda tentou agredir fisicamente o representante da SDH, Gilles Gomes. Só não logrou sucesso pela intervenção do representante do Ministério da Defesa que, enfim, impediu qualquer ação contra aquele servidor público.

Houve até a tentativa de suspender a exibição do filme, o que me fez lembrar de “Je vous salue marie”, de Jean Luc Godard, e que contava a história de um cristo contemporâneo, com dilemas plenamente humanos e atuais. Decididos, asseguramos a conclusão do documentário e, ao final, explodimos em aplausos.

Será que o coronel se sentiu desrespeitado pelo fato de que o filme narra o que verdadeiramente aconteceu no regime militar?

Quero crer que tal mentalidade, recalcitrante, seja minoritária entre nossos oficiais-militares e que o ato do coronel, de intimidação, seja exemplarmente punido e combatido dentro dos quartéis.

Tranquilo e pedagógico, o cineasta e professor Evandro Medeiros, ao final, conclamou, todos, a reflexão de que “a igreja católica é muito maior do que as inquisições da idade das trevas e o exército é muito maior do que os violentos da ditadura militar de 1964”.

Ali, a seu modo, com a serenidade que os tempos atuais exigem, deu uma lição aos brasileiros que lutam para desenvolver nossa dimensão democrática e revelar, de uma vez por todas, os acontecimentos dos anos-de-chumbo. Só assim estaremos avançando no progresso espiritual deste imenso povo dos trópicos.

É por isso que gosto de gente, de inteligência e de cinema de guerrilha.

Fonte- Por Paulo Fonteles Filho

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/15/o-documentario-e-os-gritos-do-coronel/

Marin foi ligado à ala radical da ditadura, dizem arquivos do regime

Paulo Maluf (ao centro) foi parceiro político de José Maria Marin (à direita)

Paulo Maluf (ao centro) foi parceiro político de José Maria Marin (à direita)

O início da carreira de Marin foi aos 31 anos, como vereador em janeiro de 1964, pouco antes do golpe militar. Elegeu-se pelo PRP (Partido de Representação Popular) com base política em Santo Amaro, bairro da zona sul de São Paulo. Em 1966, foi para a Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido do governo.

A partir daí, iniciou sua ascensão com a ajuda do núcleo do regime. A ficha de Marin no SNI conta que ele chegou à presidência da Câmara de Vereadores graças a manobras nos bastidores do Ministério da Justiça, cujo titular era Gama e Silva, e de militares. O jurista foi o redator do AI-5 (Ato Institucional-nº5), que cassou direitos políticos e instituiu o período mais negro da ditadura no fim de 1968.

“Na verdade, a eleição de Marin resultou de um esquema montado pelo Dr. Luis Roberto Alves da Costa, chefe do gabinete do ministro da Justiça, com o apoio de correntes militares”, relatou o SNI. Alves da Costa foi descrito como “truculento” e bem relacionado “nos meios políticos e policiais”.

Uma análise do SNI, anterior à votação na Câmara, descreveu Marin: “É considerado fraco por seus pares. Consta que sua candidatura tem apoio de círculos militares e de elementos ligados ao ministro da Justiça.” E, depois, o organismo analisou seu trabalho à frente da Câmara: “todos os atos de Marin (…) são “sugeridos” pelo esquema que o elegeu presidente da Casa”.

É importante lembrar que políticos alinhados com o regime militar também eram alvos dos órgãos de investigação do governo. Dados sobre eles são mais confiáveis porque não têm influência da leitura política. Caso os investigados tivessem tendências esquerdistas, poderiam ser cassados.

A ficha de Marin completa no SNI, que concentrava informações dos aparelhos de vigilância, foi feita em 1978 quando se tornou candidato a vice-governador.  O político era descrito como “integrado” com a “Revolução de 1964” e com posição ideológica “democrata” – era a denominação dada pelo regime para quem o apoiava. Tanto no SNI quando no Dops não houve registro de atitude “subversiva” dele (contra o governo).

Sua fidelidade foi essencial para a ascensão, mas ele trocou de corrente entre os governistas. O documento do SNI contou que ele traiu Luis Roberto Alves da Costa, que o levara à presidência da Câmara dos Vereadores, para se aliar ao prefeito biônico Paulo Maluf. Assim, Alves da Costa passou a trabalhar contra Marin e até sugeriu que ele poderia ser cassado, o que nunca ocorreu.

Até porque Gama e Silva saiu do ministério no final de 1969. E Marin se manteve próximo da cúpula militar. Foi à posse do general Emilio Garrastazu Médici, que depois virou presidente, no comando do III Exército. Na década de 70, como deputado estadual, houve novas conexões com órgãos de vigilância e repressão.

Na campanha à assembleia, no final de 1970, Teresa de Carvalho pediu proteção ao Dops por ter sido “prejudicada e ameaçada” por Marin. Motivo: fazer campanha para outro candidato, Agnaldo Carvalho. O Dops não registrou ter tomado medida para atendê-la.

Em maio de 74, o político da Arena fez loas ao delegado Rubens Liberatori por sua nomeação à chefia do DEIC (Departamento de Investigação sobre Crime Organizado). Com Liberatori no comando, o DEIC efetuou a chamada “Operação Camanducaia”.

Segundo o livro “Crianças e Adolescentes”, cerca de 90 menores foram detidos no centro de São Paulo e depois postos em um ônibus policiado para o interior. Na rodovia, perto de Camanducaia, a polícia os expulsou, os despiu e os agrediu. Liberatori foi responsabilizado pela operação por chefiar o departamento. Em sua defesa, alegou que os policiais tinham agido à sua revelia.

No discurso, Marin revelou ser próximo a ele e ter frequentado seu gabinete. “Ninguém em São Paulo desconhece o trabalho, a honradez, principalmente o grande idealismo do dr. Rubens Liberatori”, disse.

Foi também em 1975, em outubro, que o político fez dois discursos pedindo providências sobre a TV Cultura porque algumas reportagens não retratavam corretamente o governo. Dizia que os programas causavam “intranquilidade” nos lares de São Paulo. Pouco depois, o jornalista da emissora Vladimir Herzog, que era comunista, foi preso e assassinado pelo DOI-Codi, organismo de repressão.

No mês seguinte, o político do Arena pediu uma audiência no SNI, como informa relatório do próprio órgão. Não há nenhuma explicação nos documentos sobre o teor da reunião.

Um ano depois, em 1976, na assembleia, foi a vez de Marin elogiar o delegado Sergio Paranhos Fleury, um dos líderes do instrumento de repressão do Dops. “Não só honra à polícia de São Paulo, como também há muito é motivo de orgulho inclusive à população de São Paulo”, discursou.

Marin e a linha dura

Também se mantinha alinhado ao governo federal e contrário à abertura política rápida. Em 1975, rechaçava a criação de terceiro partido, além do MDB e o Arena , posição igual a do então presidente Ernesto Geisel, a quem fez elogios. Foi mais explícito na exaltação ao regime militar em discurso em 31 de março de 1977, aniversário de 13 anos do golpe.

“Há 13 anos ocorreu o grande movimento revolucionário, em que o povo teve participação ativa. Para salvar este país que se encontrava à beira do caos”, defendeu.

“Os períodos conturbados ficaram distantes para dar lugar a um período de paz e tranquilidade e permitir um maior progresso e desenvolvimento, tendo como base a segurança e a responsabilidade de todos os brasileiros”, discursou na assembleia. Para Marin, os benefícios do golpe eram “indiscutíveis”, não podendo restar dúvida sobre isso.

Tornou-se vice-governador pela Arena, em 1978, na chapa encabeçada por Paulo Maluf. Mas os indícios de sua ligação com aspectos mais truculentos do regime não cessaram como mostra um relatório do CISA (Inteligência da Aeronáutica), de 1980, sobre assalto ao jurista Dalmo de Abreu Dallari.

Defensor da democracia, Dallari foi espancado e acusou grupo paramilitar de direita. Ainda afirmou que o então vice-governador Marin tinha ligações com a agressão. O político negou e prometeu que o Dops, o órgão acusado de repressão na década de 1970, iria apurar o caso.

Já como governador, após a renúncia de Maluf, Marin passou a ser protegidos por policiais do Dops. O departamento de polícia registrou cada viagem ou participação do político em eventos públicos, como revelam os boletins do órgão. O objetivo era identificar se havia protestos contra o governador e contra o regime.

Questionado pelo UOL Esporte sobre os fatos relatados nos arquivos da ditadura, Marin se negou a falar sobre o assunto. Em texto à “Folha de S. Paulo”, afirmou que era do partido do governo, mas que era “sabido por todos (…) que os deputados não tinham o menor poder sobre os órgãos do Estado”. Completou:

“Ninguém deve negar a própria biografia. E a minha vida pública sempre foi (…) pautada pelos princípios republicanos que até hoje me guiam”, disse, afirmando ter aprendido que “liberdade e justiça” devem andar juntas.

Marin ainda ressaltou que, como governador, extinguiu o Dops de São Paulo. Isso foi uma ordem do então presidente João Figueiredo. Quando o departamento acabou, a abertura política estava próxima e aparelhos repressivos perdiam a força. Estava perto do fim o período de “paz e tranquilidade”, nas palavras do atual cartola da CBF.

Questionada sobre a atuação do presidente do COL, José Maria Marin, durante a ditadura, a Fifa afirmou que não tem nenhuma relação com essas questões e não vê problemas com o cartola. “A Fifa não está em posição de comentar sobre algo que é assunto interno do Brasil. Nós não estamos qualificados para ter uma opinião em um assunto político que não tem relação com as atividades da Fifa. A Fifa não tem questões com o presidente Marin”, disse o diretor de comunicação da entidade, Walter de Gregorio, por e.mail.

Fonte: UOL, 11/04/2013

Disponível em: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/04/11/marin-era-ligado-a-ala-radical-da-ditadura-segundo-arquivos-do-regime.htm

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/12/marin-foi-ligado-a-ala-radical-da-ditadura-dizem-arquivos-do-regime/

EUA fizeram lobby pró-censura durante governo militar

Em 1973 o governo do general Emílio Garra

Embaixada pediu a repórter da TV americana para ouvir Roberto Marinho e Nascimento Brito, diretor do Jornal do Brasil, vozes menos criticas à censura oficial.

Embaixada pediu a repórter da TV americana para ouvir Roberto Marinho e Nascimento Brito, diretor do Jornal do Brasil, vozes menos criticas à censura oficial.

stazu Médici entrava em seu quarto ano, consolidando a presença da chama “linha dura” militar no governo. A censura à imprensa se estruturou e se oficializou, abarcando todos os principais veículos de imprensa do país. Sob Médici, a maioria das redações recebiam bilhetinhos apócrifos ou ligações quase diárias de membros da Polícia Federal – a força encarregada de controlar a censura – com a relação de temas que não poderiam ser abordados: desde relatos de tortura e prisões políticas até reportagens sobre a precária situação dos trens, a pobreza no país ou escandalosos casos de corrupção. Outras, como Veja e o Pasquim, tinham que enviar seu conteúdo para a censura prévia. O Estado de S. Paulo convivia com um censor plantado dentro da redação, lendo todos os textos para decidir o que podia e o que não podia ser publicado.

Para os Estados Unidos, porém, país que propagandeava a democracia como resposta à “ameaça comunista”, nada disso importava. Pelo contrário: documentos constantes no PlusD, do WikiLeaks, mostram que a diplomacia americana chegou a defender a censura do regime militar brasileiro perante um jornalista da poderosa rede de TV americana CBS.

“O cônsul geral de São Paulo relata que o correspondente da CBS na América Latina, George Nathanson, está em São Paulo, fazendo um vídeo sobre a censura à imprensa brasileira. A ideia de realizar essa história foi incitada pelo artigo do New York Times de 21 de feveriro sobre esse assunto”, escreveu o então embaixador dos EUA no Brasil, William Rountree, que ficou no posto entre 1970 e 1973. O correspondente estava filmando na redação do Estado de São Paulo e, segundo ele, a reportagem corria muito bem.

Mas a embaixada tinha outra ideia de como a censura deveria ser retratada. “Durante um almoço com Nathanson na semana passado, o Oficial para Relações Públicas [da embaixada] sugeriu que Nathanson tentasse obter todos os lados da história da censura no Brasil”, descreve o documento de 9 de março de 1973, marcado “para uso oficial limitado”. “Além de apenas falar com fontes da mídia veementemente opostos e afetados pela censura presente, o oficial de relações públicas mencionou que seria útil a Nathanson falar com figuras como o conselheiro presidencial Coronel Otávio Costa [chefe da assessoria de Relações Públicas da Presidência] e outros oficiais do governo, bem como representantes da mídia como Roberto Marinho, do Globo, e Nascimento Brito, do jornal do Brasil, que veem a questão da censura de maneira diferente da família Mesquita, do Estado”. Em seguida o embaixador, satisfeito, afirma que o jornalista acatou a sugestão e “expressou interesse nesta abordagem para fazer uma cobertura balanceada”.

EXISTE COBERTURA BALANCEADA SOBRE CENSURA?

O aparato censório do regime militar foi construído sob as asas do Ato Institucional no. 5. Logo após sua decretação, em 13 de dezembro de 1969, o general Silvio Correia de Andrade, delegado da Policia Federal em São Paulo, declarou em entrevista coletiva: “Podem dizer que foi instaurado o arrocho à imprensa escrita, falada e televisada por parte do Contel, sob minha fiscalização direta. Os jornais estão sob censura no que diz respeito a greves, passeatas, comícios, agitação estudantil e qualquer tipo de ataque às autoridades”.

A PF seria responsável por calar a imprensa; no ano seguinte, dezenas de delegados destacados para esse fim receberam uma extensa lista de normas. Eles deviam vetar notícias “falsas” ou sensacionalistas, testemunhos em “off” (com fontes anônimas), comentários de pessoas atingidas pelos atos institucionais ou ligadas a entidades estudantis dissolvidas. Também eram proibidas notícias sobre todo tipo de repressão: cassações de mandatos, suspensão de direitos políticos, prisões, tortura.

Em 1971 o ministro da justiça Alfredo Buzaid aumentou a lista, proibindo também notícias “sensacionalistas” que prejudicassem a imagem do Brasil no exterior, notícias que colocassem em perigo a política econômica do governo, e até mesmo a “divulgação alarmista” de “movimentos subversivos” em países estrangeiros. Segundo levantamento do jornalista Élio Gaspari, entre 1972 e 1975 o Jornal do Brasil recebeu 270 ordens enviadas por telefone ou por escrito pelos policiais da PF. Apenas em 1973 – ano em que os diplomatas americanos queriam suavizar a cobertura da CBS sobre a censura brasileira – o pesquisador Paolo Marconi – consultando diversos veículos como Folha de S. Paulo, Rádio e TV Bandeirantes, em São Paulo, e Rádio e TV, em Salvador – contabilizou um total de 143 ordens enviadas pela PF. A maioria dos veículos praticava, então, a auto-censura, descartando os temas proibidos. É o caso da Globo de Roberto Marinho e do Jornal do Brasil de Nascimento Brito, apontados pelo embaixador como menos críticos à censura oficial.

Os veículos que mostravam alguma resistência tinham edições inteiras apreendidas ou eram submetidos à censura prévia – caso do Jornal da Tarde e da Revista Veja, então comandada por Mino Carta, que eram visitados por censores ou obrigados a mandar as edições antes de publicadas para a sede da PF em Brasília. Convivendo diariamente com um censor da PF, o Estado de S. Paulo teve 1136 reportagens censuradas entre março de 73 e janeiro de 75. Foram vetadas matérias sobre a Petrobrás, a questão indígena, a política de saúde pública, corrupção no ensino e até mesmo racismo no futebol.

Por sua vez, semanários pequenos e mais independentes como Opinião, baseado no Rio de Janeiro, e Movimento, de São Paulo, tiveram jornalistas presos, edições apreendidas e seus diretores interrogados inúmeras vezes. Daí o caráter “econômico” da censura, que foi responsável pelo desmantelamento, por asfixia financeira, de jornais de extrema qualidade e linhas editoriais progressistas – provocando um impacto que até hoje influencia o cenário da imprensa brasileira. Publicações independentes como Opinião, Ex, Movimento e Pasquim tiveram edições inteiras apreendidas, e tiveram que fechar as portas sob o peso da censura. Só o jornal Movimento teve 40% de todo o seu conteúdo censurado – mais de 3 mil artigos, mais de 4,5 milhões de palavras.

OS AMERICANOS SABIAM, CLARO

Nada disso era novidade para o Departamento de Estado chefiado por Henry Kissinger – o mesmo que criticou a lei de acesso à informação americana afirmando “antes da lei eu costumava dizer em reuniões, ‘o que é ilegal nós fazemos imediatamente; o que é inconstitucional leva mais tempo’, mas desde a lei eu tenho medo de dizer coisas assim”. Na verdade, os diplomatas americanos mantinham contato próximo com jornalistas brasileiros, acompanhando de perto as consequências da censura.

Assim, em 23 de março de 1973 – mesmo mês em que a embaixada defendia a censura junto ao correspondente da CBS – o cônsul de São Paulo, Frederick Chapin, relatou uma longa conversacom o dono do Estadão, Julio Mesquita, sobre a censura ao jornal. Embora o general Ernesto Geisel tivesse assumido com o compromisso de promover a “distensão política”, com a restauração dos direitos civis, nas duas semanas anteriores a tesoura da censura havia cortado seis matérias do Estadão, que as substituíra por cartas e receitas culinárias. Ao mesmo tempo, relata Chapin, Julio Mesquita enviara telegramas a todos os congressistas, e o Estadão publicou uma nota avisando que quem quisesse saber por que conteúdos desimportantes estavam aparecendo no jornal poderia ligar para a redação – receberam 167 ligações. “Julio Mesquita disse que a forte pressão que ele estava exercendo no governo para relaxar a censura estava fazendo efeito”, relatou Chapin, já que o Estadão chegara a publicar histórias – incluindo uma sobre censura – que não teriam passado. “Julio disse que pretendia continuar a pressionar o governo na questão da censura”.

Ainda assim, os censores só sairiam do Estadão dois anos depois.

Sob o embaixador John Crimmins, que assumiu o posto após Rountree, a embaixada dos EUA manteve uma “postura de não pôr as mãos” no tema da censura, segundo palavras do próprio. Mas continuava acompanhando de perto o despropósito da censura, conversando diretamente com editores e publishers. É o que mostra um documento do Rio de Janeiro, datado de 13 de maio de 1974, detalhando a situação do jornal Opinião. Em conversa com o então cônsul geral Clarence Boonstra, o empresário Fernando Gasparian, do Opinião, contava sobre os cortes mais recentes: uma entrevista com o então candidato a presidência francesa, François Mitterand, e com o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Nesse momento, a censura exigia novamente que o jornal fosse enviado a Brasília, antes de ser publicado, até quarta-feira de cada semana. “Gasparian estava ‘chocado e desanimado’ com os últimos acontecimentos”, relata Chapin, e decidiu ir a Brasília para investigar o motivo dos últimos cortes com o diretor-geral da PF, o coronel Moacyr Coelho. O coronel, que Gasparian descrevia como “deprimido e vacilante”, lhe disse que a censura havia sido decidida “em altas instâncias do Ministério da Justiça” e que havia outros jornais sob maior pressão, escreve Boonstra. “Ele voltou achando que ‘alguma coisa aconteceu dentro do alto escalão do governo para forçá-los a voltar às antigas restrições’. Gasparian disse que ouviu rumores em Brasília que os militares linha-dura não estavam felizes com os passos do regime em direção à liberalização e haviam demandado ‘apertar’ o controle da imprensa e de outras áreas”, diz o despacho diplomático.

A partir de 1975, a censura se tornou mais seletiva e a censura prévia foi sendo retirada aos poucos. Não foi um processo decisivo, tendo idas e vindas de acordo com as pressões do momento, como mostram as conversas constamente relatadas pelos diplomatas americanos. Em 4 de abril daquele ano, a embaixada em Brasília enviou a Washington um relato sobre a apreensão do jornal Pasquim, do Rio de Janeiro, pela PF, ocorrida logo depois do veículo ter tido a censura prévia encerrada, e a uma edição comemorativa especialmente robusta. Chamando-o de “tabloide satírico semanal de centro-esquerda” Crimmins relata que, durante 5 anos, o semanário fora obrigado a enviar para Brasília duas a três vezes mais material do que necessário – texto, charges e fotos – para ser cortado.

“De acordo com [Millôr] Fernandes e outras fontes bem informadas da imprensa, o alvo real da apreensão do Pasquim era um editorial forte de Fernandes detalhando os problemas do jornal com a censura. Esses problemas incluíam: uma queda brusca de leitores (Fernandes afirma que houve uma queda de 200 mil para 100 mil em circulação nos seis primeiros meses de censura; alguns observadores acreditam que o cálculo atual seja de 50 mil) e assédio da equipe do Pasquim quando a censura teve início (ex. interrogatório policial da maioria deles e prisão de dez editores por dois meses, seguida da sua libertação e o arquivamento subsequente do inquérito). Fernandes também argumentava [no editorial] que o fim da censura prévia não significa que a imprensa livre brasileira possa imprimir o que quer e lembrava aos leitores que muitos dos jornais brasileiros ainda estavam sujeitos à censura”. O comunicado encerrava dizendo que a apreensão “foi um enorme golpe em termos financeiros”, já que o Pasquim dependia de vendas em banca.

A Veja de Mino Carta

A diplomacia americana também acompanhou de perto o périplo da revista Veja, fundada e editada por Mino Carta durante a ditadura militar e submetida a dois tipos de censura prévia ao longo dos anos: no geral, o censor da PF ia até a redação, no prédio da editora Abril; mas em algumas ocasiões o material tinha que ser enviado a Brasília dias antes da publicação.

Em maio de 1974, foi a vez do consulado de São Paulo informar sobre a censura a Veja. O primeiro despacho, do dia 10, é assinado pelo cônsul-geral Frederick Chapin. “Uma empreitada de censura ameaça a continuação de Veja, respeitada revista semanal”, descreve o cônsul A nova ordem exigia que todo conteúdo da revista fosse enviado a Brasília na quarta-feira, inviabilizando a cobertura de fatos “quentes”. Mino Carta – a quem Chapin chama de “um dos jornalistas mais hábeis e mais conhecidos” do país – contava que a nova ordem era uma represália, em especial, por uma charge de Millôr Fernandes mostrando um homem sendo torturado, sobre a legenda “nada consta”.

“Essa semana, quando Mino soube do endurecimento, ele ligou para o general Golbery, que foi ‘evasivo e hipócrita’. O general Golbery mencionou especificamente alguma insatisfação sobre a charge de Millôr Fernandes”. Decepcionado, já que tanto Golbery quanto o ministro da justiça de Geisel, Armando Falcão, haviam se manifestado contra a censura, mas estariam cedendo aos militares “linha dura”, Mino Carta ameaçava deixar a Veja. “Carta disse que não quer ter mais nada a ver com Golbery e Falcão porque ‘seria como lidar com office boys’”, relata Chapin.

“Essas ordens, ele adicionou, vieram do ministro do Exército Dale Coutinho, um representante do ‘sistema’, ou como ele chama, ‘o capo máfia’ que ele [Mino Carta] acredita que controla o país’”, relata o despacho enviado a Washington.

“O cumprimento das novas regras vai efetivamente matar a Veja, segundo Carta”, escreve o cônsul, que finaliza o documento narrando que, para o jornalista, “o propósito do endurecimento não é destruir Veja, mas colocar a revista e a editora Abril ‘de joelhos”.

Roberto Civita, vice-presidente e filho do dono da editora Abril, viajaria para Brasília em busca de um acordo – que também foi acompanhado de perto pelos americanos. Em 28 de maio, outro despacho do consulado de São Paulo, relata que a ordem fora revertida. Como narrou Victor Civita ao americano, “[Dale] Coutinho se recusou a ver Roberto, que então ligou para Golbery e para o ministro Falcão”. A redação, portanto, voltaria a receber a visita de censores. O próprio Golbery e Falcão haviam servido como “fiadores” do acordo entre os censores e Veja. “Victor estava otimista sobre as relações futuras com a administração Geisel”, relatou Chapin. O dono da Abril afirmou: “eu só tenho três ou quatro amigos no governo agora, mas em um ano ou mais eu vou conhecer bem 10 ou 12 deles”.

No entanto, a paz não duraria muito, reflexo da queda de braço interna à administração Geisel. Em agosto de 1975, a ordem de enviar o material para Brasília voltou – e foi prontamente relatada o Departamento de Estado dos EUA. O estopim fora uma edição recente de um discurso de Geisel, que Veja via como um sinal de que a distensão estava morta. Hernani Donado, Relações Públicas da revista, conversou com os diplomatas. “Donato disse que a linha dura ficou irritada pelos elogios de Veja ao general Golbery (….) Golbery ligou pessoalmente para Mino Carta e pediu que ele parasse com as histórias: ‘toda palavra boa que você fala sobre mim é uma palavra ruim sobre os oponentes da distensão’”. Segundo o embaixador Crimmins, Hernani Donato também acreditava que censores de Brasília “não confiavam totalmente” nos seus subordinados de São Paulo, e sentiam “que eles podem ter se tornado muito próximos de jornalistas locais”. Em 27 de agosto, diplomatas da embaixada voltaram a almoçar com Victor Civita para discutir o assunto. “Ele contou que lhe foi dito para ser muito cuidadoso porque o governo tinha o poder de ‘colocá-lo de joelhos’ quando quisesse”.

Fonte- por Natália Viana, Agência Pública

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/04/10/eua-fizeram-lobby-pro-censura-durante-governo-militar/

Carregar mais