O bê-à-bá da repressão nos anos de chumbo

Logo que as organizações de esquerda intensificaram as ações armadas contra o regime, no fim dos anos 1960, os militares se apressaram em criar centros especializados e formar agentes destinados a combatê-las. Por essas escolas da repressão, ativascharge_ditadura_torturado enok até 1989, passaram nomes que, mais tarde, figurariam nas listas de torturadores. Nas aulas, eles aprenderam a conduzir interrogatórios, a disfarçar-se, a penetrar em residências sem deixar vestígios e a pensar e agir como guerrilheiros, razão pela qual estudaram textos proscritos no país, de autores como Che Guevara e Mao Tse Tung.

Um pedido com base na Lei de Acesso à Informação franqueou ao GLOBO os planos de aulas, as apostilas e a bibliografia dos cursos oferecidos pela Escola Nacional de Informações (EsNI), a formadora dos agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI) a partir de1972 e herdeira do curso de Informações do Exército, que funcionou até o ano anterior no Forte do Leme (RJ). Das oito caixas de documentos consultados, emerge a pedagogia da segurança interna, a paranoia dos militares com a ameaça comunista e a necessidade de uma guerra sem limites contra o inimigo.

Os cursos da EsNI eram divididos em quatro categorias: A, B, C1 e C2. As duas últimas, reservadas a oficiais e suboficiais de Operações (responsáveis por interrogatórios e missões de rua), tinham em média uma carga de 800 horas — o mesmo tempo de um ano letivo escolar fixado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

No curso C1, para oficiais, 300 horas eram dedicadas à disciplina “Operações de Informações”, que reservava 40 horas para aulas de “Interrogatório” e outras 38 horas para “Vigilância”. Já no curso C2, além do foco em Operações, os agentes (sargentos e civis do mesmo nível no SNI), eram especializados em utilização de meios cinefotográficos (uso de câmeras fotográficas e de imagem, além de gravadores de som). Com 43 horas, as aulas de interrogatório representavam a maior carga horária da disciplina.

Inspiração em Escola dos EUA

Criada pelo decreto 68.448, em 31 de março de 1971, a EsNI era inspirada na Escola das Américas, que funcionou de 1946 a 1984 no Forte Gullick, território americano no Canal do Panamá. Entre os 60 mil militares latinos treinados no forte, aparece o nome do brigadeiro João Paulo Burnier, ex-comandante da Base Aérea do Galeão em 1971 e acusado pelo desaparecimento do militante do MR-8 Stuart Angel Jones.

Em 17 anos de atividades (1972-1989) no SNI, em Brasília, a EsNI promoveu 83 cursos, a maior quantidade para as categorias B (analistas e coordenadores regionais de Informação) , C1 e C2 — a categoria A era destinada a oficiais de alta patente, diplomatas e outras autoridades. Os planos de aula continham 12 disciplinas semelhantes, variando apenas em carga horária e tópicos, e dividiam os estudos em dois ciclos: conhecimentos gerais e especializados. O primeiro incluía conteúdos relacionados à estrutura do governo, à filosofia, ao marxismo, à realidade brasileira, entre outros.

Ao ser fundada, a EsNI absorveu as demais escolas de Informação existentes no país, entre as quais a do Centro de Estudos de Pessoal (CEP), no Forte do Leme. Os cursos eram tão minuciosos que as aulas contemplavam noções de psicologia para entender a formação da personalidade e as influências familiares na adolescência. Eram obrigatórias as aulas de idiomas estrangeiros (com opção até para o chinês), tiro e lutas. No final, os formandos faziam uma viagem.

Os cursos tinham como público alvo militares e civis, agentes do SNI. O objetivo era formar quadros para diferentes níveis da rede de repressão.

O curso A, por exemplo, formava agentes para as funções de analista e chefia de informações. O curso B visava às funções de analista e planejador de nível regional e setorial. Os cursos C1 e C2 formavam as chefias de seções de operações e os agentes que iam a campo, respectivamente. Após a formação, os agentes atuavam em diferentes locais, entre outros nos conhecidos DOI e Codi (Destacamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna).

Ao folhear alguns planos de aulas da disciplina “Operações de Segurança Interna”, de 1975, por exemplo, foi possível notar entre os itens citados as experiências extraídas do combate às guerrilhas rurais brasileiras: “Primeiras tentativas — Caparaó — Registro”, “Tentativa do MR8 em Brotas de Macaúba” e “Tentativa Xambioá”.

Os livros depois de 1975 também já fazem referências às operações do Araguaia, e um deles chega a dizer que Maurício Grabois, um dirigente do PCdoB desaparecido, foi morto em combate.

O GLOBO pediu acesso aos nomes dos instrutores dos cursos, mas a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), herdeira do SNI, não forneceu, justificando que as informações estão sob sigilo por segurança da sociedade e do Estado. Já o Exército se negou a fornecer os dados da escola que funcionou no Leme.

Fonte- O Globo

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/o-be-ba-da-repressao-nos-anos-de-chumbo-8432169

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Cidade da Argentina recusa corpo de Videla

Ele era o “senhor da vida e da morte” quando governava a Argentina e definia o destino de civis sequestrados, torturados e assassinados durante o regime militar. Mas, depois de morto, Jorge Rafael Videla não consegue um lugar para ser enterrado. Em sua cidade natal, Mercedes, na Província de Buenos Aires, moradores se uniram para evitar que seus restos mortais fossem levados para o cemitério local.
videlamilitar
Em protesto contra um eventual funeral, a secretaria de direitos humanos do município colocou placas nos portões do cemitério com os nomes dos 22 desaparecidos da ditadura que eram da cidade.

O corpo do ex-ditador foi liberado ontem pelo Instituto Médico Legal de Buenos Aires. No fim de semana, um documento do serviço penitenciário revelou que Videla, morreu sentado no vaso sanitário de sua cela na manhã de sexta-feira.

Na véspera, havia sofrido uma queda enquanto tomava banho. O acidente, somado ao fato que de o ex-militar tomar um remédio anticoagulante, causou uma hemorragia interna que acabaria por provocar sua morte.

A família do ex-ditador informou às autoridades que o corpo não será cremado e contratou uma agência funerária de Mercedes, o que aumentou a possibilidade de o funeral ocorrer no cemitério local, onde estão enterrados seus pais.

Hoje, vários partidos políticos de Mercedes farão um protesto na praça principal para repudiar a ditadura.

A tradição fúnebre argentina, especialmente no interior do país, é a de enterrar os mortos no mausoléu familiar. Ou, como alternativa, em um túmulo próximo ao dos pais e parentes. Na Câmara de Vereadores, representantes dos partidos afirmam que não querem que o corpo de Videla altere a calma da cidade. José Luis Pisano, do Partido Socialista, disse que não deseja que Mercedes “transforme-se em um ponto de peregrinação da direita fascista e menos ainda que ele seja enterrado ao lado de companheiros que perderam a vida durante a ditadura”.

As autoridades admitem que, apesar de repudiar Videla, não podem proibir que a família o enterre na cidade. “A família possui um mausoléu e túmulos privados. Não está dentro de nosso alcance impedir esse enterro”, afirmou o secretário de direitos humanos de Mercedes, Marcelo Melo. Ativistas dos direitos humanos afirmam que Videla, ao esconder os corpos de desaparecidos, impediu que seus parentes chorassem seus mortos diante de seus túmulos. “Não podemos fazer a mesma coisa que ele fez com os 30 mil desaparecidos”, disse Diana Manos, da Comissão de Parentes de Presos e Desaparecidos de Mercedes.

Dois dos nomes nas placas diante do cemitério – Ignácio e Esteban Ojea Quintana – têm um vínculo especial com Videla: eram seus sobrinhos, detidos pela Marinha em 1977 por serem militantes da esquerda. O tio nada fez para salvá-los da morte. Seus corpos nunca foram localizados.

Outro nome nas placas é o de Carlos Agosti, sobrinho do brigadeiro Orlando Agosti, chefe da Aeronáutica e integrante da junta militar liderada por Videla. Carlos foi sequestrado e assassinado em dezembro de 1976. Seu corpo está enterrado a poucos metros do mausoléu da família Videla.

O ditador viveu rodeado pela morte. Ele foi batizado como “Jorge Rafael” em homenagem a dois irmãos gêmeos mais velhos – Jorge e Rafael – que morreram de sarampo em 1923. A poucos metros do mausoléu da família Videla estão enterrados três padres assassinados em 1976 por ordem da ditadura.

 

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“O Globo” e a anistia” por Roberto Elias Salomão

O jornal “O Globo”, em seu editorial de 3ª feira, 21 de maio, prestou-se mais uma vez ao papel de arauto dos setores que defendem, tal como na Argentina há alguns anos, um “ponto final” no processo de resgate da verdade, da memória e, principalmente, da justiça. O editorial tem como objetivo defender a imutabilidade da lei de anistia de 1979.

Editorial de O Globo celebra golpe militar de 1964.

No passado: editorial de O Globo celebrou golpe militar de 1964.

Com o título “Limites da Comissão da Verdade”, e começando daí, o editorial tenta enquadrar as investigações sobre violações de direitos humanos, para que elas não resultem naquilo que seria absolutamente natural: a responsabilização formal dos autores dessas violações.

Trata-se de uma posição em total desacordo com a tendência manifestada cada vez mais veementemente por organismos internacionais e defendida pela maioria dos juristas nacionais de renome. Em resumo: a lei de anistia precisa ser mudada, porque não se anistia torturador, porque a tortura, o sequestro, a ocultação de cadáver e o assassinato são crimes hediondos, inafiançáveis e imprescritíveis. A investigação e nomeação dos responsáveis por esses crimes sem o consequente julgamento e penalização só faria ressaltar a injustiça.

Evidentemente, “O Globo” está em seu papel. Ele não investe apenas contra a justiça, mas também contra a memória e a verdade. Segundo o editorial, “a anistia foi concedida no Brasil de forma recíproca, mediante ampla negociação entre o regime e a oposição, como parte do processo de redemocratização, realizado sem traumas, e que, por isso mesmo, resultou numa democracia estável”. Como “ampla negociação” se a maioria dos opositores do regime estava no exílio? Desde quando uma ditadura admite “ampla negociação”?

Não existe crime sem criminoso. Identificar os criminosos e exigir sua condenação é, simplesmente, um ato de justiça. O mais é “globice”.

*Roberto Elias Salomão é jornalista e um dos coordenadores do Fórum Paranaense pelo Resgate da Verdade, Memória e Justiça.

 

 

 

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Gravação de depoimentos com Narciso Pires e Aluízio Palmar

CONVITE – GRAVAÇÃO

Entrevista com Aluízio Palmar e Narciso Pires

A Comissão da Verdade da OAB-PR, em parceria com o Programa de Mestrado em Direitos Fundamentais e Democracia da UniBrasil e com o apoio do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça, CONVIDA: Audiência Pública para ouvida de depoimento a respeito da Ditadura Civil-Militar no Paraná, com a participação de ALUÍZIO PALMAR e de NARCISO PIRES.

Aluízio Ferreira Palmar nasceu em 1943, em São Fidélis, Estado do Rio de Janeiro. Em sua juventude estudou Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense e, devido à sua militância revolucionária, foi preso e banido do país. Dissidente doPCB fluminense, liderou a primeira tentativa de luta armada contra o regime no final dos anos 1960. Foi o organizador do MR-8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, assim chamado em

Narciso Pires e Aluizio Palmar gravam depoimentos.

Os ex-militantes Narciso Pires e Aluizio Palmar gravam depoimentos sobre a ditadura militar no Paraná.

homenagem a Che Guevara, assassinado nessa data em 1967, na Bolívia. Palmar foi um dos 70 presos políticos trocados pelo embaixador da Suíça, Giovanni Bucher, em janeiro de 1971. Com a anistia voltou ao Brasil e se radicou em Foz do Iguaçu, onde começou suas atividades como jornalista profissional trabalhando no semanário Hoje Foz. Em 1980 criou o semanário Nosso Tempo, conhecido por sua linha editorial rebelde e alternativa. Atuou ainda em outros meios de comunicação do Estado do Paraná e Curitiba e exerceu os cargos de secretário de Comunicação Social e de Meio Ambiente na Prefeitura de Foz do Iguaçu. Atualmente ocupa o cargo de chefe de Gabinete da Câmara Municipal de Foz do Iguaçu. Onde foi que vocês enterraram nossos mortos? é o seu primeiro livro.

Antonio Narciso Pires de Oliveira militou na luta contra a ditadura militar. Em 1970, integrante da diretoria do DARP – vice-presidente de comunicação – Diretório Acadêmico Rocha Pombo da UFPR, cursando jornalismo, foi para a clandestinidade, tendo sido preso no final deste ano. Na clandestinidade esteve em Ourinhos com nome de Valter Marcelo Faiçal. Em 1975 foi sequestrado, preso e condenado a dois anos de prisão. Em 1978 foi um dos fundadores do Comitê Brasileiro Pela Anistia de Curitiba, sendo eleito o seu presidente. Com a ditadura enfraquecida ainda foi preso mais quatro vezes por poucas horas cada, entre 1981 e 1982. Continuou a sua militância em Direitos Humanos tendo sido coordenador nacional do MNDH – Movimento Nacional de Direitos Humanos, a maior rede de ONGs de direitos humanos da América Latina. Umas de suas principais bandeiras de luta hoje é a responsabilização criminal dos torturadores e assassinos do regime militar e a abertura de todos os arquivos da repressão. Atualmente preside o Grupo Tortura Nunca Mais no Paraná.

 Serviço:

data: 23/05/2013

Horário: 14h00
Local: Estúdio de Gravação Radio e TV – UniBrasil – Bloco II – terceiro andar

Coordenação: Daniel Godoy (CV OAB-PR) e Carol Proner (UniBrasil)

Informações:Rafaela Abreu Matos | Mestrado
rafaelamatos@unibrasil.com.br | 41 3361.4200

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Balanço da CNV aponta que tortura da ditadura é anterior à luta armada

Parte da pesquisa – ainda parcial – sobre torturas na Comissão Nacional da Verdade (CNV) aponta a prática como instrumento de interrogatórios desde o primeiro ano do regime militar. A pesquisadora Heloísa Starling, que assessora o grupo, refuta a tese de que as torturas se iniciaram após o Ato Institucional 5, que endureceu o regime e a repressão, em 1968. “A tortura está na origem da ditadura, antes da luta armada”, afirmou a pesquisadora.

Segundo o levantamento da pesquisadora, ainda em fase de elaboração, a maior parte das torturas ocorria em quartéis das três Forças Armadas. Apesar de registros, os centros policiais eram palcos menos recorrentes.

O Estado com maior concentração de centros de torturas na década de 1960 era o Rio de Janeiro. A pesquisa identificou outros centros na Bahia, em Goiás, em Minas Gerais, em Pernambuco, no Rio Grande do Sul e em São Paulo.

Em relação a dados quantitativos, o ano do golpe militar de 1964 começa com um volume maior de torturados (148), seguido de uma redução – que revela uma continuidade na prática – e registra uma alta exponencial em 1969 (1.027).

A Comissão Nacional da Verdade identificou nove tipos de tortura recorrentes nos quartéis durante o período da ditadura militar (1964-1985), dentre elas o pau de arara (barra de ferro atravessada entre os punhos amarrados e a dobra dos joelhos, pelos quais o torturado é suspenso de cabeça para baixo), choques elétricos e o telefone (golpes simultâneos na região das orelhas, de modo a afetar os tímpanos do torturado).

Fonte- Terra    

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Comissão da Verdade acusa Marinha de ocultar da Presidência documentos de vítimas da ditadura

Criada para investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou nesta terça-feira documentos secretos e ultrassecretos que comprovam que o alto comando da Marinha produziu relatórios sobre a morte de guerrilheiros e de pessoas contrárias ao regime militar. Ao longo de cerca de 12.000 páginas, o Centro de Informações da Marinha (Cenimar) relatou em detalhes informações sobre as mortes de onze pessoas no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e na Guerrilha do Araguaia. De posse dos dados, sonegados ao longo dos anos pelas Forças Armadas, ganhou corpo dentro da comissão o entendimento de que a Lei da Anistia, editada em 1979, precisa ser revista.

Em dezembro de 2010

Marinha tinha conhecimento da morte do paranaense Antonio do Três Reis Oliveira.

Marinha tinha conhecimento da morte do paranaense Antonio do Três Reis Oliveira, acusa CVN.

, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou o governo brasileiro por não ter trabalhado pela localização dos restos mortais dos desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia e por não ter punido os responsáveis. A sentença de condenação, que também inclui a aplicação de multas, extrapola, porém, o caso do Araguaia. O colegiado também decidiu que a Lei da Anistia não poderia servir como argumento para impedir a investigação e a punição de responsáveis por violações aos direitos humanos. Hoje, a Corte monitora as providências tomadas pelo governo brasileiro. A instalação da CNV e a entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação, por exemplo, são consideradas apenas “instrumentos colaterais”.

“Os crimes de lesam a humanidade são imprescritíveis”, defendeu a coordenadora da comissão, Rosa Cardoso. “As auto-anistias, diante do direito internacional, não valem. Vamos ter, sim, de recomendar que esses casos sejam judicializados pelo direito interno”, completou.

O impasse na dis

cu

ssão sobre a possível revisão da Lei da Anistia no Brasil esbarra, porém, no fato de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter de

cidido em plenário, em abril de 2010, que não é possível rever a legislação que garantiu o perdão dado aos representantes do estado acusados de praticar atos de tortura durante o regime militar. Dois recursos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no entanto, ainda estão pendentes de votação no plenário do STF.

Marinha – No balanço do primeiro ano de trabalho da CNV, um levantamento parcial do colegiado aponta que a Marinha brasileira tinha conhecimento, no ano de 1972, da morte de onze desaparecidos políticos (Antonio Carlos Monteiro Teixeira,

Antonio dos Três Reis de Oliveira, Ciro Flávio Salazar de Oliveira, Ezequias Bezerra da Rocha, Felix Escobar, Helenira Rezende, Isis Dias de Oliveira, Joel Vasconcelos dos Santos, José Gomes Teixeira, Kleber Lemos da Silva e Rubens Paiva).

Ainda assim, em 1993, em ofício encaminhado ao então ministro da Justiça, Maurício Correa, a Marinha apresentou diversas versões sobre o destino dos desaparecidos, alegando ora que estavam foragidos, ora que estavam com o paradeiro desconhecido. “As Forças Armadas mancharam suas honras com essas práticas”, resumiu a psicanalista Maria Rita Kehl, que integra a comissão.

A reticência das Forças Armadas na divulgação de informações sobre o regime militar é recorrente. Após o episódio envolvendo o ex-ministro Maurício Correa, relatado nesta terça-feira pela Comissão da Verdade, o Ministério da Defesa, por exemplo, encaminhou formalmente ao colegiado, no ano passado, a informação, constatada inverídica pelos integrantes da comissão, de que Exército, Marinha e Aeronáutica não tinham mais documentos do período militar em seus acervos. Conforme o Aviso 195, encaminhado à Casa Civil em 2010 pelo então ministro Nelson Jobim, os arquivos das Forças Armadas já haviam sido destruídos.

“A Marinha ocultou deliberadamente informações e documentos do estado brasileiro. Ocultou da Presidência da República, do Ministério da Justiça e da Câmara dos Deputados”, informou Heloisa Starling, pesquisadora do departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e assessora da Comissão da Verdade.

“De todos os serviços secretos militares, o da Marinha é o mais fechado. A cultura do segredo é levada às ultimas consequências. O Cenimar foi um dos organismos mais ferozes no interior da estrutura de repressão da ditadura. Havia um prontuário de pessoas mortas que a Marinha brasileira sabia que estavam mortas”, completou Heloisa.

Tortura – De acordo com as conclusões da Comissão da Verdade, sessões de tortura no Brasil se tornaram uma prática corriqueira em interrogatórios. “A tortura é a base da matriz de repressão da ditadura. A tortura está na origem da ditadura, antes do início da luta armada”, disse Heloisa Starling. Até o momento, já foram identificados pela comissão mapas dos centros de detenção e tortura no Brasil entre 1964 e 1965 nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Goiás.

Conforme levantamento da comissão, os modos de tortura utilizada até o fim da ditadura foram essencialmente de nove tipos: pau de arara (barra de ferro atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, pelos quais o torturado é suspenso de ponta-cabeça e cerca de 30 centímetros do solo); afogamento, banho chinês (tipo de afogamento com introdução forçada da cabeça do torturado em um barril de água ou óleo), choque elétrico, churrasquinho (papel retorcido colocado no ânus do torturado), geladeira (o torturado permanece nu em uma sala pequena que os impede de ficar de pé, e a temperatura oscila entre o frio extremo e o calor insuportável), soro da verdade (injeção de drogas psicoativas que reduziam barreiras inibitórias e facilitava revelações em depoimentos), telefone (golpes simultâneos na lateral da cabeça para afetar os tímpanos) e torturas psicológicas.

 

Nome Documento de 1972 Documento de 1993
Antonio Carlos Monteiro Teixeira Morto Não mencionado
Antonio dos Três Reis de Oliveira Morto Desaparecido
Ciro Flávio Salazar de Oliveira Morto Não mencionado
Ezequias Bezerra Rocha Morto Desaparecido (cita o jornal O Globo)
Félix Escobar Morto Preso por atividades terroristas
Helenira Rezende de Souza Nazareth Morta Foragida
Isis Dias de Oliveira Morta Foragida
Joel Vasconcelos dos Santos Morto Preso e transferido para local ignorado
José Gomes Teixeira Morto Desaparecido
Kléber Lemos da Silva Morto Não mencionado
Rubens Paiva Morto Foragido

 

Fonte- Agências

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Comissão da Verdade divulga hoje balanço de um ano

A Comissão Nacional da Verdade divulgará nesta terça-feira (21), às 10h, durante evento aberto público e transmitido ao vivo (www.twitcasting.tv/CNV_Brasil), um balanço de atividades em razão de seu primeiro aniversário. A apresentação será feita no auditório Gepes, no CCBB, em Brasília, no mesmo prédio onde fica a sede da CNV.

No último dia 13, durante seminário realizado pela Comissão da Verdade em parceira com a ONU Brasil, alusivo ao primeiro ano da Comissão, o coordenador Paulo Sérgio Pinheiro fez uma apresentação sobre o período.

De acordo com dados revisados pela equipe da CNV, 268 depoimentos (de vítimas, testemunhas e agentes da repressão da ditadura civil-militar de 64-85) foram tomados pela CNV neste primeiro ano de atividades.

207 vítimas e testemunhas de graves violações de direitos humanos cometidas no período de análise da CNV (1946-1988) foram ouvidas por membros e assessores da Comissão. Desses depoimentos, 59 foram tomados em entrevistas reservadas earquivos_ditadura_cor 148 durante audiências públicas realizadas pela CNV nas cinco regiões do Brasil.

Até o momento a Comissão Nacional da Verdade já realizou 15 audiências públicas e uma tomada pública de depoimentos de agentes da repressão, onde foram ouvidos Marival Chaves e Carlos Brilhante Ustra. Outras 35 pessoas que estiveram diretamente envolvidas ou que conheceram as práticas usadas pelo regime para violar direitos humanos foram ouvidas em audiências privadas. Dessas, 13 depuseram sob convocação.

A participação da sociedade também tem sido importante para ajudar a impulsionar os trabalhos da CNV. Desde sua instalação, a Ouvidoria, principal canal de interação com a sociedade, contabilizou o recebimento de mais de 101 pedidos de investigação, 71 contribuições de material, e um total de 843 registros. A CNV também já firmou 18 acordos com instituições da sociedade civil e comissões estaduais da verdade.

 

SERVIÇO:

O quê: Balanço de um ano da CNV

Quando: 21/05/2013

Horário: 10h às 13h.

Onde: Auditório GEPES (O acesso do público será por ordem de chegada. Sujeito a lotação)

Endereço: Centro Cultural Banco do Brasil, Portaria 4, 1º andar, portão ao lado do Pavilhão de Vidro. SCES, Trecho 2, Lote 22 – Brasília – DF

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Audiência em Foz apurará crimes na Região Oeste

A Comissão Estadual da Verdade, com a articulação do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu, promoverá uma audiência pública em Foz do Iguaçu, no dia 26 de junho. O objetivo é investigar violações de direitos humanos na Região Oeste do Paraná, durante o período do regime militar.
Já estão na pauta da Comissão o chamado Massacre de Medianeira (o assassinato de seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária-VPR, em 1974, na Estrada do Colono), episódios relacionados à Operação Condor (colaboração entre as ditaduras sul-americanas para a perseguição e extermínio dos grupos de esquerda) e a repressão co

Escavação da Estrada do Colono para achar corpos de desaparecidos. Foto:Arquivo Aluízio Palmar.

Escavação da Estrada do Colono para achar corpos de desaparecidos. Foto:Arquivo Aluízio Palmar.

ntra a população indígena e os trabalhadores rurais na região.

Deverão participar da audiência representantes da Comissão Nacional da Verdade e das Comissões da Verdade da OAB-PR e da UFPR. A audiência está sendo organizada pelo Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu, do qual faz parte o militante Aluízio Palmar, autor da investigação sobre o Massacre de Medianeira.

Fonte- Fórum Verdade

 

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Construção civil: A primeira greve do Paraná depois do AI-5

A histórica greve dos trabalhadores da construção civil de Curitiba, em 1979, foi lembrada ontem em ato realizado na sede do sindicato da categoria. Dirigentes da greve, ainda na ativa, prestaram seus depoimentos, aos quais não faltou a lembrança de episódios tocantes ou engraçados.

Promovido pelo sindicato e pelo Fórum Paranaense

Ato pelos 34 anos da paralisação.

Ato pelos 34 anos da paralisação.

de Resgate da Verdade, Memória e Justiça e com apoio da CUT e da Nova Central, o evento faz parte do esforço de registro das lutas operárias, aspecto fundamental da recuperação da verdade e da memória históricas no Brasil.

David Pereira de Vasconcelos, Domingos Oliveira David (atual presidente do sindicato) e SalvinoAntunes contaram como se deu a greve, nos seus mais de 20 dias de duração, e que teve início quando um grupo de mulheres trabalhadoras, insatisfeitas com os salários e as condições de trabalho, resolveu cruzar os braços. Em pouco tempo, 17 mil trabalhadores estavam em greve.

De acordo com os dirigentes, o principal fruto da greve foi o desenvolvimento da consciência e da organização dos trabalhadores. A greve foi duramente reprimida e vários de seus dirigentes foram levados ao Dops.

A greve da construção civil gerou um amplo movimento de solidariedade, do qual participaram militantes de esquerda e dos movimentos sociais, intelectuais, advogados e estudantes. Narciso Pires e Carlos Molina, que tiveram papel destacado no movimento de apoio à greve, também fizeram seus relatos.

A iniciativa deve ter desdobramentos. Serão produzidos um livro e um vídeo. Além disso, o Centro Acadêmico de Sociologia da UFPR sugeriu que o debate seja realizado novamente, desta vez para os estudantes. Ao semelhante deverá ser feito com os bancários e outras categorias.

Fonte- Fórum Verdade

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Morre aos 87 anos o ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla

O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla morreu nesta sexta-feira (17) aos 87 anos, segundo a imprensa argentina, que cita fontes ligadas à família.O ex-general morreu de causas naturais, às 6h30.

Condenado a duas penas de prisão perpétua por crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura, ele estava encarcerado na prisão comum de Marcos Paz, na província de Buenos Aires.Os crimes foram cometidos durante avidelarts sangrenta ditaduta militar argentina, entre 1976 e 83.
Em entrevista recente ao jornalista Ceferino Reato, para o livro “Disposición Final” (Disposição Final), Videla disse que as atrocidades cometidas pelos militares eram “o preço a pagar” para ganhar o que chamou de “a guerra”.

Nos anos mais duros da ditadura, entre 1976 e 81, entre 10 mil e 30 mil adversários políticos do regime desapareceram, segundo entidades humanitárias.

O general reformado disse que, na avaliação dos militares, era necessário que a repressão ocorresse discretamente “para que a sociedade não se desse conta”.

“Por isso, para não provocar protestos dentro e fora do país sobre a campanha, se chegou à decisão de que essa gente tinha que desaparecer”, argumentou o ex-ditador.

Após a publicação do livro, Videla criticou que sua confissão havia sido mal interpretada, mas Reato, que não teve autorização para gravar as entrevistas, afirmou que as anotações foram lidas e aprovadas pelo entrevistado antes de sua publicação.

As sentenças contra ele revelaram a existência de um ‘plano sistemático de eliminação de opositores’, segundo a justiça argentina, como ativistas políticos, sindicalistas, estudantes, movimentos sociais, religiosos da Teologia da Libertação, artistas e intelectuais, milhares deles desaparecidos.

Desmantelados os grupos armados, isolados e sem apoio popular, a repressão continuou com militantes, amigos e suspeitos, parentes e familiares.

Foram vítimas da repressão as freiras francesas Alice Domon e Leonie Duquet, o bispo católico Enrique Angelelli, do movimento de sacerdotes do Terceiro Mundo, a estudante sueca Dagmar Hagelin, os comitês sindicais de companhias montadoras como Ford e Mercedes Benz e até diplomatas do próprio regime, como Elena Holmberg e Héctor Hidalgo Solá.

Diferente do que ocorreu com outros ditadores, como o paraguaio Alfredo Stroessner e o chileno Augusto Pinochet, Videla careceu de partidários, e nenhum partido político o apoia na Argentina atualmente, com exceção de minúsculos grupos de ex-militares ou seus familiares.

Em seu auge, Videla media 1,80 metro, sempre muito magro, de rosto fino, grandes olhos escuros, bigode espesso e cabelo engomado em estilo antiquado.

Ele lia os discursos com voz grave e estridente, mas um sorriso nervoso fazia latejar suas maçãs do rosto em público, enquanto costumava esfregar as mãos em gesto de desconforto ao ser confrontado com uma vida política de relações sociais fora da severa rotina de um quartel.

Videla comandou o golpe que derrubou a ex-presidente Isabelita Perón, em 1976, suspendeu a Constituição, proibiu os partidos políticos e instituiu a censura nas rádios e televisões.

O general governou aliado ao grupo civil chamado “Os Chicago Boys” e deu todo o poder administrativo a um economista de uma família da aristocracia “crioula” (espanhóis nascidos na América), José Martínez de Hoz, admirador do Prêmio Nobel Milton Friedman.

Por ordem sua e dos generais, automóveis sem patente e com comandos encapuzados sequestravam militantes e os levavam para torturá-los nos cerca de 500 centros clandestinos de detenção distribuídos em todo o país.

Fotografias e vídeos no YouTube o relembram em dois momentos chave: ao entregar em 1978 a taça da Copa do Mundo de futebol para a seleção argentina, em um torneio disputado no país, e quando deu um abraço forçado ao ditador chileno, Augusto Pinochet, após a mediação do Vaticano que impediu uma guerra fronteiriça naquele mesmo ano entre os dois países.

Videla ordenou ainda a queima de livros em um terreno baldio na localidade de Sarandí, na periferia ao sul da Argentina. Na ocasião, mais de 1,5 milhão de preciosas obras do Centro Editor da América Latina (CEAL) foram destruídas.

Em seu governo, a Argentina se alinhou aos Estados Unidos, mas teve atritos com o então presidente democrata James Carter, cujo governo criticou as violações aos direitos humanos, e também por ter ignorado o embargo de cereais contra a União Soviética em razão da pressão dos influentes exportadores agrícolas argentinos.

Sem carisma nem aspirações políticas, o ex-general interveio na Suprema Corte para nomear juízes submetidos ao seu capricho e instalou um plano econômico de altas taxas de câmbio que ficou conhecido na história como ‘la plata dulce’ (prata doce, em português) que permitia os argentinos viajar cheios de dólares a Miami e comprar inúmeros eletrodomésticos.

Em 1981, cedeu o poder a Roberto Viola para começar uma lenta transição à democracia, mas o general Leopoldo Galtieri deu um golpe palaciano e desencadeou a triste história da guerra das Ilhas Malvinas contra a Inglaterra, em 1982.

 

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