Câmara Municipal vai apoiar Fórum da Verdade por resgate da resistência

Memória da resistência à ditadura militar deve ser resgatada e divulgada na cidade. (Foto – Anderson Tozato)

Memória da resistência à ditadura militar deve ser resgatada e divulgada na cidade. (Foto – Anderson Tozato)

Representantes do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça estiveram na Câmara Municipal de Curitiba para pedir apoio ao movimento, que mobiliza a sociedade  em busca da verdade sobre violações de direitos humanos entre 1946 e 1988. Eles foram recebidos pelo presidente da Casa, vereador Paulo Salamuni (PV), o líder do prefeito, Pedro Paulo (PT), e o vereador Dirceu Moreira (PSL).
“A Câmara vai trabalhar junto com o Fórum. Nos interessa ao máximo o resgate desta história, primeiro pelo reconhecimento da resistência, segundo para que a ditadura nunca mais se repita. Parafraseando Ulysses Guimarães, temos horror e nojo da ditadura”, afirmou Salamuni.
Roberto Elias Salomão apresentou os projetos voltados ao resgate da história do enfrentamento à ditadura militar. Um deles é o Museu de Percurso. A ideia é instalar totens em pontos da cidade que foram palco da resistência democrática, como o prédio da Reitoria, a Igreja do Guadalupe, que abrigou reuniões clandestinas durante o período, a Boca Maldita, onde foi realizado o comício das Diretas Já. Segundo Salomão, os pontos já estavam definidos e o texto com as informações históricas que devem constar nos totens foram enviados no ano passado ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). Durante a reunião, Salamuni ligou para o presidente do Ippuc, Sérgio Pires, para pedir que o projeto seja retomado.
“A Câmara tem apoiado a questão de direitos humanos, mais especificamente junto à Comissão da Verdade. Teremos agora uma comissão permanente da Casa para acompanhar este assunto”, acrescentou Pedro Paulo, citando a Comissão de Segurança Pública e Defesa da Cidadania, que também vai encampar a bandeira dos direitos humanos. A alteração aconteceu na última revisão do Regimento Interno da Casa, aprovada no final de 2012 e que passa a valer este ano. O novo grupo será denominado Comissão de Direitos Humanos, Defesa da Cidadania e Segurança Pública.
Memorial da Resistência
O Fórum quer criar ainda o Memorial da Resistência, um espaço que disponibilize para a cidade um material completo, incluindo fotos, documentos, filmes e livros sobre o período da ditadura militar. “Pensamos no prédio da União Paranaense dos Estudantes (UPE), que é tombado pelo Patrimônio Histórico e  está sob os cuidados da prefeitura. É um lugar bacana, mas que está se deteriorando”, disse Milton Alves, também integrante do Fórum. O casarão, que fica no bairro São Francisco, teve suas portas lacradas nesta segunda-feira pela Secretaria Municipal de Obras, pois havia sido invadido por usuários de drogas. Os vereadores acham que a ideia resolveria a questão de manutenção do prédio. “Somos parceiros, pois isto solucionaria um problema para a cidade e para a UPE”, concordou Salamuni.
Toponímia Urbana
Outra proposta apresentada durante a reunião é a alteração de nomes de ruas e espaços públicos. O Fórum tem uma pesquisa de nomes de militantes da resistência à ditadura militar que  considera importantes para serem lembrados em logradouros públicos. “Deve também ser feito um levantamento das ruas da cidade para ver se tem algum nome ligado à repressão, para que seja mudado”, acrescentou Salomão. Ele avaliou a reunião na Câmara como rápida e objetiva e deve agilizar estas ações. “A gestão atual tem mais condições de entender o sentido desta luta e acho que agora vai sair o memorial e o Museu de Percurso”.

Fonte- Câmara Municipal de Curitiba

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Autores da morte de Rubens Paiva poderão ser identificados

O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Cláudio Fonteles, divulgará em fevereiro relatório que, segundo ele, ajudará a identificar os responsáveis pela morte do ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido há 42 anos pela ditadura militar.rubens paiva

Na semana passada, Fonteles já havia anunciado que o texto de sua autoria comprovará, com base em documentos do Arquivo Nacional, que Paiva foi morto por agentes da ditadura no DOI-Codi –um dos principais centros de repressão do regime–, no Rio de Janeiro.

Apesar de não identificar os autores do assassinato, o coordenador afirma que os novos documentos ajudarão a chegar até eles e que esse é o objetivo de suas pesquisas. “Pode se chegar sim [a essas pessoas], esses textos vêm para isso”, disse Fonteles.

Em novembro, foi descoberta a ficha de entrada de Rubens Paiva em uma unidade do DOI-Codi no Rio.

O documento estava na casa de Júlio Miguel Molinas Dias, um coronel da reserva que comandou o órgão nos anos 1980 e foi assassinado em Porto Alegre em 2012.

Até então, não havia prova documental da presença do ex-deputado na unidade militar, apenas testemunhos.

Agora, o coordenador da Comissão da Verdade afirma que novos documentos originários dos centros de informações das Forças Armadas e encontrados no Arquivo Nacional, em Brasília, desconstruirão a versão oficial para o desaparecimento de Paiva.
Jorge Araújo – 4.set.1986/Folhapress
Eunice Paiva, viúva do ex-deputado Rubens Paiva (à esq., em retrato de 1970), em sua casa em São Paulo
Eunice Paiva, viúva do ex-deputado Rubens Paiva (à esq., em retrato de 1970), em sua casa em São Paulo

Dos quatro documentos que ele analisa há quase dois meses, um será “novidade absoluta”, afirma.

Junto com os documentos sobre Paiva, Fonteles também divulgará um novo capítulo de seu estudo sobre a estrutura do Estado ditatorial militar, um texto sobre outra personalidade do período, entre outros relatórios.

DESAPARECIMENTO

Deputado federal eleito pelo PTB e crítico do regime militar, o engenheiro Rubens Paiva teve o mandato parlamentar cassado pelo AI-1 (Ato Institucional nº 1), em 1964, e os direitos políticos suspensos por dez anos.

Em 20 de janeiro de 1971, Paiva foi procurado por agentes da ditadura em sua casa e levado para prestar depoimento no DOI-Codi da Tijuca, zona norte do Rio. Tinha 41 anos. Desde então, nunca mais foi visto pela família.

A versão oficial sustentada pelo Exército é a de que o ex-deputado fugiu dos militares quando era levado para o reconhecimento de um local na cidade. Relatos de testemunhas, contudo, indicam que Paiva morreu sob tortura.

Esta também é a hipótese mais provável na opinião de familiares, como Vera Paiva, filha do ex-deputado.

Ela afirma que a forma que encontrou de homenagear a memória do pai é denunciar as violações aos direitos humanos que, segundo ela, ainda acontecem no país.

“As prisões e os desaparecimentos arbitrários continuam. Todo dia tem notícia desse tipo de ação”, disse.

A defesa pela garantia dos direitos fundamentais, afirma, foi o que motivou a morte do pai. “Meu pai não morreu por nada. Ele morreu porque defendia isso.”

Fonte- Folha de S.Paulo

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Leia trecho de ‘Seu Amigo Esteve Aqui’

“Seu Amigo Esteve Aqui” narra a história de Carlos Alberto Soares Freitas, militante político assassinado na Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), na década de 1970. Conhecido como Breno, ele era dirigente da VAR-Palmares –organização clandestina que lutava contra a ditadura militar da qual a atual presidente, Dilma Rousseff, fazia parte.

O livro mistura pesquisa de documentos fragmentados e memória de amigos, parentes e companheiros de militância. Abaixo, leia um trecho.
seuamigo

Prefácio

Vinte e sete anos depois que retornou à democracia, o Brasil ainda luta para desenterrar um doloroso legado perdido que, aos poucos e a duras penas, vem sendo reconstituído. Os espectros dos mortos e desaparecidos da ditadura continuam a nos assombrar e envergonhar, contrariando leis e tratados internacionais dos quais o país é signatário. Este livro é parte desse árduo trabalho de investigação e reconstituição de uma história de crimes, assassinatos e desaparecimentos que se passou nas sombras, muitas vezes sem testemunhas, nos porões do regime militar. A expectativa de que a trajetória política do mineiro de Belo Horizonte Carlos Alberto Soares de Freitas se tornasse livro impôs-se naturalmente. Uma vida muito breve, que termina com o seu desaparecimento, aos 31 anos, em fevereiro de 1971, numa manhã típica do verão carioca, na avenida Princesa Isabel, em Copacabana.

Ao trazer à tona um novo capítulo dessa saga, este livro se transforma num documento pioneiro, de especial interesse para a juventude, que deveria ser adotado nas escolas brasileiras. Aqui, o leitor descobrirá um dos personagens de nossa história recente. Um valente personagem que não necessita do título de herói, integrante que foi de uma geração de jovens que, inconformada com o golpe militar que depôs o presidente João Goulart, em 1964, resistiu e ousou lutar por seus sonhos e ideias socialistas.

“Seu amigo esteve aqui” soa como uma inocente frase de um diálogo amigável. Vejamos as circunstâncias, o cenário e os três personagens envolvidos nessa tragédia política. “Aqui” trata-se da Casa da Morte, localizada na rua Arthur Barbosa n.668, na serra de Petrópolis, um dos centros de tortura e extermínio clandestinos instalados pelos militares encarregados da repressão política. Somos levados então a penetrar um dos círculos do inferno. O autor da frase – um lacônico e frio comunicado de morte – é um agente do Estado, torturador, o ex-sargento Ubirajara Ribeiro de Souza, o Zezão, dirigindo-se com cinismo e ironia a uma de suas vítimas, Inês Etienne Romeu, ali torturada e seviciada, única sobrevivente e testemunha desses atos de infame selvageria. “Seu amigo” é o jovem sociólogo e dirigente da VAR-Palmares, uma das organizações de luta armada, Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, codinome Breno, cujo corpo é procurado até hoje.

Na Casa da Morte, uma sinistra sucursal do DOI-Codi – a nave central da tortura, situada dentro de um quartel do Exército, na rua Barão de Mesquita, Tijuca, Rio de Janeiro -, os facínoras tinham licença para matar. Antes, serviam-se sádica e covardemente de seus prisioneiros, vítimas de uma violência diária, banal, praticada com requintes de doentio prazer, com o objetivo de lhes tirar os últimos resquícios de humanidade porque sabiam que, ao final daquele ritual de horrores, eles seriam eliminados. Essa é uma das principais revelações deste livro, que realiza uma detalhada anatomia de um desaparecimento em busca da construção da verdade. Entre os oficiais militares do DOI-Codi no comando da casa de Petrópolis, todos com nome de guerra de doutores, estavam o coronel da extrema direita Freddie Perdigão Pereira, o dr. Nagib ou dr. Roberto; o tenente-coronel Orlando Rangel, o dr. Pepe, e o segundo-tenente Amílcar Lobo, o dr. Carneiro, este, médico com diploma, encarregado de medir o impacto do sofrimento e da dor no corpo do torturado e com poderes para autorizar o prosseguimento de seu massacre.

Num angustiado ensaio escrito em meio ao espanto e à indignação provocados pela revelação dos porões da guerra da Argélia, o filósofo Jean-Paul Sartre advertiu que “a tortura não é especificamente francesa, mas uma praga que infecta toda a nossa era”. Naquele momento, em 1957 e 1958, a opinião pública tomou conhecimento de que o Exército francês e as forças policiais da colônia empregaram sistematicamente a tortura no enfrentamento aos rebeldes argelinos, levando a uma comoção generalizada. Essa catarse o Brasil ainda não teve a coragem de fazer.

A impostura que encobre a situação dos nossos mortos, que de procurados ou presos passaram à condição de desaparecidos depois de assassinados, só será desmascarada com a abertura dos arquivos militares que encobrem seus autores e os crimes por eles praticados. Gestada nos centros clandestinos de operações da ditadura militar, a infecção da tortura constitui um de seus legados mais nocivos à sociedade brasileira.

Prática institucionalizada pelo regime ditatorial, a tortura tornou-se um poderoso instrumento da política repressora do Estado que se provou eficiente e eficaz. Naquele solitário e abjeto embate que se trava numa prolongada sessão de suplícios, o torturador não se contenta com a rendição do torturado, ele almeja apossar-se de sua alma, despojá-lo de seus valores, tornar-se dono de sua voz para transformá-lo num delator. O carrasco sevicia, humilha e administra a dor para arrancar uma informação, num sádico ritual que pode terminar com um cadáver em suas mãos. O que fazer com esse incômodo cadáver? Os covardes doutores da morte criaram essa monstruosidade jurídica chamada desaparecidos políticos.

Ao reconstituir a trajetória política e existencial de Beto, filho caçula de uma família de oito irmãos, “Seu amigo esteve aqui” saiu em busca de suas raízes, sua formação, seus amigos, suas paixões, sua militância. Encontrou uma geração nascida nos entornos da Segunda Guerra que chegou à juventude em meio aos sangrentos confrontos políticos e ideológicos da época, início da Guerra Fria. Uma geração que se politizou muito cedo, à custa de duas porradas marcantes que mudaram os rumos do Brasil: o golpe militar de 1964 e o AI-5, quatro anos depois, que calou todas as vozes e impôs um regime de trevas, o país do “ame-o ou deixe-o”, slogan de propaganda criado pelos militares.

Estudante de sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Beto encontrou aí a sua turma e iniciou sua militância na Política Operária, a Polop, consolidada por uma viagem a Cuba em 1962, onde se encantou com a vitoriosa revolução de Fidel e Che Guevara. Até sua prisão e morte, foram mais de dez anos de militância política, quatro dos quais na total clandestinidade, uma das mais longas da esquerda armada brasileira, vivendo encurralado em aparelhos com identidade falsa, entrando e saindo de reuniões e congressos, pulando de uma cidade para outra, com cartazes estampando sua foto espalhados em aeroportos e rodoviárias. Dotado de uma convicção inabalável, recusou os apelos para seguir a rota do exílio, que salvou muitas vidas.

Neste roteiro de filme traçado pelo livro, embrenhou-se pelo interior à procura da mítica Área Estratégica para a implantação da guerrilha rural, viajou de trem, navio e jipe pelos confins do país, passou por Rio, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife, Belém e outras cidades. Entre seus companheiros de viagem, Lamarca, Iara Iavelberg, Juarez Brito, Maria Auxiliadora, a Dodora, e tantos outros que tombaram pelo caminho. Ao final, tinha plena convicção de que se tornara um alvo especial – se fosse preso seria morto. Dilma Rousseff, sua amiga e companheira de militância desde a fase inicial em Belo Horizonte, também presa e torturada, sobreviveu e chegou à Presidência da República. Fato notável que isso tenha ocorrido no curso de uma geração militante aniquilada pela repressão do Estado ditatorial.

Beto e seus jovens companheiros viveram uma época de confrontos e utopias. Pressionados pela ditadura que instituiu a censura, fechou sindicatos e diretórios estudantis, prendeu e cassou mandatos de congressistas e opositores, acabaram tomando o caminho da luta armada, embalados por uma volúpia na ação e nas certezas de que ela conduziria à revolução social. István Szabó, cineasta húngaro que dirigiu Mephisto, a história de um ator que vende a alma ao nazismo, disse que gosta de contar histórias de pessoas que passaram por experiências difíceis, sobretudo diante de algum momento político em um dado contexto da História que influencia suas vidas e muda seus destinos particulares. “Gosto de contar histórias”, disse Szabó, “de pessoas expostas ao vento forte da História.” Ao contrário do personagem de Mephisto, que vendeu sua alma ao diabo nazista, o que este livro nos mostra é que Beto e seus companheiros de viagem, expostos ao vendaval da História, entregaram a vida a um projeto político revolucionário de transformação social.

No capítulo final de “Seu amigo esteve aqui”, Cristina Chacel oferece ao leitor uma espécie de making of do livro, com os bastidores da criação, um guia sobre o intenso, difícil e demorado trabalho para desvendar o mistério que cercava o desaparecimento de Carlos Alberto Soares de Freitas. Terminou indo muito além, escrevendo um capítulo novo da história da luta armada, com suas organizações, congressos, divergências, rachas e grandes ações, como o roubo do cofre do ex-governador de São PauloAdemar de Barros. E, sobretudo, deu dimensão humana a seu personagem principal, que pode ser visto em ação por inteiro, com seu rosto, gestos, hábitos e características pessoais.

Um homem alto, bonito, de olhos verdes, sedutor, que gostava de cinema e literatura, que sabia ouvir, não andava armado, que disputou e perdeu a bela Iara para Cid, o temível capitão Lamarca. Um cara divertido, que gostava de cantar, tinha prazer em ir para a cozinha preparar um bife acebolado, mas que também sabia impor-se, sério, um estudioso do marxismo-leninismo que ministrava cursos de formação política e intelectual para seus companheiros.

O livro é fruto de um trabalho de equipe, um afinado quarteto composto pela narradora, a jornalista Cristina Chacel; Sergio Campos, personagem e patrono da iniciativa, amigo e companheiro de Breno na VAR-Palmares, última pessoa a vê-lo antes de seu desaparecimento; Sergio Ferreira, primo de Beto e também personagem; e a jornalista Flavia Cavalcanti, ex-exilada e militante da mesma organização. Os quatro se embrenharam nessa empreitada tortuosa para qualquer biógrafo, a de desvendar uma vida clandestina. Foram dezenas de entrevistas, depoimentos, viagens, discussões e surpresas. Um incansável trabalho de campo, de fidelidade à verdade e precisão dos fatos, que resultou num texto digno do melhor jornalismo investigativo.

Como se fosse um romance de não ficção, intercalando investigação jornalística, autobiografia e crônica, na fronteira entre os fatos e o relato ficcional, o texto segue os passos do mito criado em torno de um militante desaparecido para devolvê-lo à história real. Eis então que temos de novo entre nós o “nosso amigo” guerreiro, o que pode não ser um consolo, mas oferece uma valiosa contribuição para a construção da Verdade, e é um soco na cara dos carrascos que o assassinaram.

Álvaro Caldas

Álvaro Caldas é jornalista, escritor e professor da PUC-Rio. Foi militante do PCBR e, nos anos 1970, passou dois anos e meio preso.

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UNE lançará sua própria Comissão da Verdade

O silêncio é alimentado pelo tempo, tem sede da própria velhice. Quanto mais demora, mais forte e poderoso se torna. A UNE e os estudantes brasileiros juntam forças para, a partir da próxima sexta (18), matar o silêncio de quase cinco décadas nubladas que paira socomissaoverdadebre os jovens perseguidos, torturados e mortos pela ditadura civil-militar no país.

Abrindo o seu Conselho Nacional de Entidades de Base (CONEB), a UNE lança, a partir das 18h na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a sua própria Comissão da Verdade, com o objetivo de investigar, apurar e esclarecer tais casos, entre eles os de pelo menos 46 dirigentes da entidade, como o seu ex-presidente Honestino Guimarães.

O coordenador da Comissão Nacional da Verdade Cláudio Fonteles, o ex-ministro dos Direitos Humanos Paulo Vanucchi e o presidente da Comissão de Anistia Paulo Abrão estão entre os convidados da abertura.

A COMISSÃO DA VERDADE ESTUDANTIL

A UNE foi decisiva na luta contra a ditadura militar brasileira e reconquista da democracia. Porém, durante esse período, centenas de estudantes foram vítimas de tortura, prisões e assassinatos, sendo muitos casos ainda não esclarecidos. Pelo menos 46 ex-diretores da UNE estão listados como mortos pelo regime ou desaparecidos.

Com a criação da Comissão da Verdade estudantil, a entidade pretende levantar informações sobre esses episódios, apurar detalhes junto a famílias, universidades e a partir do acesso a documentos oficiais e dos resultados da investigação da Comissão Nacional da Verdade, criada em maio de 2012 pelo governo federal.

FILMES SOBRE BACURI E HONESTINO

Além do lançamento da comissão, o ato terá a exibição de dois filmes que documentam a vida de dois jovens perseguidos e mortos pela ditadura no Brasil. “Repare Bem”, da diretora e atriz portuguesa Maria de Medeiros, traz revelações e relatos da família do militante Eduardo Leite, o Bacuri. Já “Arquivo Honestino Guimarães”, da diretora Paula Damasceno, apresenta a trajetória do estudante, que era estudante da Universidade de Brasília (UNB) e foi declarado desaparecido no início dos anos 1970.

O estudante brasiliense Mateus Guimarães, sobrinho do ex-presidente da UNE, receberá homenagens em nome do tio. Honestino tornou-se um símbolo da luta estudantil durante o regime, influenciando as gerações futuras e a resistência à ditadura.

GOVERNADOR E MINISTRO MERCADANTE PARTICIPAM NO DOMINGO

O ministro da Educação Aloizio Mercadante e o governador de Pernambuco Eduardo Campos estarão presentes no CONEB domingo, dia 20 de janeiro. Eles debaterão o tema da reforma universitária no Brasil, defendida pela UNE. Também estarão presentes a reitora da Universidade Nacional de Córdoba (Argentina) Silvia Carolina Scotto e o reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Anísio Brasileiro de Freitas Dourado.

SOBRE O CONEB

O Conselho Nacional de Entidades de Base da UNE é um dos principais encontros do movimento estudantil brasileiro e reúne os Diretórios Acadêmicos (DAs) e Centros Acadêmicos (CAs) das universidades brasileiras. Neste ano, a UNE teve a inscrição recorde de mais de 3.500 entidades de todas as regiões do país. Foram realizadas etapas preparatórias e eleitos delegados em todos os estados. O CONEB inclui debates, grupos de discussão sobre temas ligados à universidade e ao Brasil, além de decidir os rumos e posicionamentos da UNE para o próximo período.

Fonte- Site da Une

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Comissão da Verdade: Rubens Paiva foi morto pelo DOI-Codi

Documentos militares confidenciais encontrados no Arquivo Nacional, em Brasília, revelam que o ex-deputado Rubens Paiva, tido como desaparecido, na verdade foi executado por agentes do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação do Centro de Defesa Interna) do Primeiro Exército (Rio de Janeiro).

 

 

Rubens PaivaCláudio Fonteles, presidente da Comissão da Verdade, confirma que deputado foi de fato assassinado após cerca de dez dias de martírio

A informação foi dada pelo ex-procurador geral da República, Claudio Fonteles e coordenador da Comissão Nacional da Verdade em entrevista ao iG , concedida nesta quinta-feira (10). “Ele foi morto por agentes do Doi-Codi”, revela. Segundo Fonteles, a versão oficial contada até hoje é uma “fantasia absoluta”.

A revelação, baseada em documentos oficiais produzidos pelos órgãos de informação do regime militar (1964-1985), desmente duas versões difundidas nos últimos 40 anos: a de que Paiva teria desaparecido em uma suposta operação de resgate pela esquerda ou que tenha sido preso e morto por militares da Aeronáutica. O ex-deputado foi preso em casa, no dia 20 de janeiro de 1971, e levado direto para a sede do DOI-Codi, de onde nunca mais saiu com vida. Fonteles estima que o martírio do deputado durou dez dias.

Os informes e relatórios confirmam também que um dos responsáveis pela prisão, tortura e morte do ex-deputado é o coronel Julio Miguel Molinas Dias, assassinado no dia 1º de novembro do ano passado em Porto Alegre . Na residência do militar, que à época era chefe DOI-Codi do Primeiro Exército, a Polícia Civil gaúcha encontrou documentos indicando a passagem de Paiva pelo órgão.

O procurador Claudio Fonteles afirma que os novos documentos encontrados no Arquivo Nacional podem ajudar a esclarecer definitivamente o caso Rubens Paiva, um dos grandes segredos dos anos de chumbo. Ele vai divulgar um relatório detalhando as informações encontradas nos documentos e que ganham importância histórica por terem sido produzidos pelo próprio regime militar.

Fonteles também lança novas luzes sobre a participação do major Curió na Guerrilha do Araguaia . Curió é tido como o principal agente repressor do período. Mas documentos preliminares apontam que ele não foi o único responsável.

Ele avalia que nesses oito meses de Comissão da Verdade já é possível comprovar que o Estado montou uma estrutura que tinha como prioridade o chamado “paroxismo de segurança” e que o órgão deixará como legado uma cultura democrática, anti-golpista e de respeito aos direitos humanos.

Como ex-membro do Ministério Público Federal (MPF), Fonteles disse que não há qualquer impedimento para que inquéritos contra militares ou agentes repressores sejam abertos após os trabalhos da Comissão da Verdade e defendeu, como cidadão, que todos os crimes ocorridos na Ditatura Militar sejam julgados no futuro.

Fonte: iG

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Comissão Nacional da Verdade faz balanço positivo de 2012

Depois de sete meses de atividades, a Comissão Nacional da Verdade encerra 2012 com um balanço positivo de suas atividades. A avaliação é do coordenador da comissão, o ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles.
Instalada em maio deste ano, a comissão foi criada para apurar graves violações aos direitos humanos, praticadas por agentes públicos entre 1946 e 1988, com ênfase no período da ditadura militar (1964-1985), de modo a garantir o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional.
“Nos deslocamos a vários estados, debatemos com a sociedade civil, com governos municipais, estaduais, com o objetivo de criar uma grande rede permanente e de proteção da democracia, para que nunca mais tenhamos essa vivência ditatorial,” disse Fonteles.
Formada por sete integrantes, a comissão tem o poder legal de requisitar informações e documentos do Poder Público, com qualquer classificação de sigilo. Também tem a prerrogativa de convocar para entrevistas pessoas que eventualmente guardem alguma relação com os fatos e circunstâncias examinados e determinar perícias e diligências para coleta ou recuperação de informações, documentos e dados. Segundo Fonteles, o órgão ainda não encontrou resistência ao seu trabalho.
Durante os primeiros meses de atividade, a comissão promoveu 11 audiências públicas em nove estados para ouvir o depoimento de pessoas que foram perseguidas pela ditadura, dos advogados de presos políticos e dos agentes que estavam a serviço da ditadura. “Colhemos muitos depoimentos emocionantes e também tivemos a participação de muitas pessoas durante essas audiências,” disse.
A fim de facilitar o resgate histórico do período da ditadura, a Comissão tem estimulado a criação de comissões com o mesmo fim, no âmbito dos estados e da sociedade civil, que têm contribuído com informações e documentos sobre o período. “Enviamos correspondência a todos os governadores e às casas legislativas solicitando a criação de comissões nos estados,” disse Fonteles.
Até este mês, os estados de Alagoas, São Paulo, Pernambuco, do Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Maranhão criaram ou estão implantando as comissões da Verdade. O Rio de janeiro já aprovou a criação da sua. Fonteles acredita que Minas Gerais e a Bahia formem as suas comissões em breve. “Também estamos estimulando a criação de comissões no âmbito da sociedade civil, e temos recebido o apoio de organizações como a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e universidades,” completou.
De acordo com a assessoria da Comissão, mais de 40 comissões de instituições da sociedade civil têm auxiliado nas investigações, como a da OAB, da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalista) e de universidades como a UnB (Universaidade nacional de Brasília) e a USP (Universidade de São Paulo), ainda em processo de implantação.
Para Fonteles, três momentos servem para mostrar o resultado positivo do trabalho da comissão até o momento: a retificação no atestado de óbito do jornalista Vladimir Herzog, a entrega de documentos sobre o desaparecimento do deputado Rubens Paiva e sobre a participação de militares no atentado do Riocentro, em 1981, além da devolução simbólica dos mandatos dos deputados cassados durante a ditadura. “São momentos simbólicos que representam muito bem as arbitrariedades da ditadura”, lembrou o ex-procurador.
Entre os assuntos abordados pela comissão estão a busca de informações sobre torturados, mortos e desaparecidos no regime militar, a Guerrilha do Araguaia, a Operação Condor, as violações de direitos de indígenas e, no campo, o papel da igreja durante a ditadura e a perseguição a militares que se opuseram ao regime, entre outros.
Em novembro, a comissão divulgou na internet vários textos sobre esses e outros assuntos. “Os textos são uma primeira devolução da comissão à sociedade sobre o período da ditadura,” disse Fonteles.
A Comissão tem até o fim do primeiro semestre de 2014 para entregar um relatório circunstanciado – contendo todos os tipos de informações sobre a atuação do grupo – com os resultados das investigações. O ex-procurador avalia que o trabalho da comissão será um instrumento que ajudará o Brasil a se consolidar como Estado Democrático de Direito. “A grande missão [da comissão] é suscitar em todos os brasileiros a grande verdade que se encontra na vivência democrática. Portanto, ela reafirma o combate sistemático a um Estado ditatorial militar, para que nunca mais tenhamos essa experiência da tortura, de desaparecimento”, concluiu.
2013
Cláudio Fonteles, disse que, em 2013, será iniciada a elaboração do relatório circunstanciado. “A comissão vai começar a olhar para a feitura do relatório e [para] as recomendações. Acho que a gente deve apresentar à sociedade brasileira uma proposta de aperfeiçoamento do Estado, para que ele cada vez mais se comprometa com a democracia”
A comissão tem prazo de dois anos para entregar um relatório com o resultado das investigações sobre violações aos direitos humanos praticadas por agentes públicos entre 1946 e 1988, com ênfase no período da ditadura militar (1964-1985). A previsão é que o relatório seja entregue no fim do primeiro semestre de 2014.
Fonteles, que fez um balanço positivo do trabalho da comissão em 2012, lembrou que ainda existem temas que exigem maior investigação. “Ainda não temos um levantamento da quantidade de desaparecidos, creio que faremos isso mais para o final dos trabalhos,” observou.
Ele lembrou ainda que, apesar do pouco tempo, outros objetivos da comissão já começaram a ser atingidos, como a criação de espaços dedicados à memória. “Para que espaços que eram dedicados à tortura, sinais visíveis da repressão, se transformem em sinais da democracia. Onde haja espetáculos públicos, culturais e artísticos que ressaltem a presença da memória democrática,” reiterou.
Fonteles acredita que o grande resultado desse trabalho será a construção do que ele define como “redes da cidadania”, constituídas em “amplo diálogo com todos os setores, quer os oficiais – governos e prefeituras – quer os da sociedade civil” e voltadas para a defesa da democracia. “A ditadura é um mal que não pode ocorrer. Queremos solidificar um Estado democrático para que as nossas divergências sejam resolvidas [com] um diálogo efetivo e não pela violência”, disse.comissao_da_verdade_desarquivandobr_290145_341854186_n

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Conversas com Mr. DOPS

 

Por Marina Amaral do Blog A Pública (Agência de reportagem e jornalismo investigativo).
Originalmente publicada em 9/12/2012.

Nossa repórter passou mais de 15 horas entrevistando um ex-delegado da ditadura. Enfrentou resistência, informações desencontradas e até um suposto pacto de silêncio – um embate que antecipa os desafios da Comissão da Verdade

José Paulo Bonchristiano no sofá de seu apartamento no Brooklin, zona Sul de São Paulo (Foto: Julia Rodrigues)

José Paulo Bonchristiano no sofá de seu apartamento no Brooklin, zona Sul de São Paulo (Foto: Julia Rodrigues)

Aos 80 anos, José Paulo Bonchristiano conserva o porte imponente dos tempos em que era o “doutor Paulo”, delegado do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, “o melhor departamento de polícia da América Latina”, não se cansa de repetir.“O DOPS era um órgão de inteligência policial, fazíamos o levantamento de todo e qualquer cidadão que tivesse alguma coisa contra o governo, chegamos a ter fichas de 200 mil pessoas durante a revolução”, diz, referindo-se ao golpe militar de 1964, que deu origem aos 20 anos de ditadura no Brasil.Embora esteja aposentado há 27 anos, não há nada de senil em sua atitude ou aparência. Os olhos astutos de policial ainda dispensam os óculos para perscrutar o rosto do interlocutor, endurecendo quando o delegado acha que é hora de encerrar o assunto.

Bonchristiano gosta de dar entrevistas, mas não de responder a perguntas que lancem luz sobre os crimes cometidos pelo aparelho policial-militar da ditadura do qual participou entre 1964 e 1983: prisões ilegais, sequestros, torturas, lesões corporais, estupros e homicídios que, segundo estimativas da Procuradoria da República, vitimaram cerca de 30 mil cidadãos. Destes, 376 foram mortos, incluindo mais de 200 que continuam até hoje desaparecidos.

Os arquivos do DOPS se tornaram públicos em 1992, mas muitos documentos foram retirados pelos policiais quando estavam sob a guarda do então diretor da Polícia Federal e ex-diretor geral do DOPS, Romeu Tuma. Entre os remanescentes estão os laudos periciais falsos, produzidos no próprio DOPS, que transformavam homicídios cometidos pelos agentes do Estado em suicídios, atropelamentos, fugas. No caso dos desaparecidos, os corpos eram enterrados sob nomes falsos em valas de indigentes em cemitérios de periferia.

Globo, Folha, Bradesco – e Niles Bond

Bonchristiano é um dos poucos delegados ainda vivos que participaram desse período, mas ele evita falar sobre os crimes. Prefere soltar o vozeirão para contar casos do tempo em que os generais e empresários o tratavam pelo nome. Roberto Marinho, da Globo, diz, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”, e ele podia telefonar a Octávio Frias, da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”. Quando participou da montagem da Polícia Federal em São Paulo, conta, o fundador do Bradesco mobiliou a sede, em Higienópolis: “Nós do DOPS falamos com o Amador Aguiar ele mandou por tudo dentro da rua Piauí, até máquina de escrever”.

O “doutor Paulo” sorri enlevado ao lembrar dos momentos passados com o marechal Costa e Silva (o presidente que assinou o AI-5 em dezembro de 1968, suspendendo as garantias constitucionais da população). “O Costa e Silva, quando vinha a São Paulo, dizia: ‘Eu quero o doutor Paulo Bonchristiano’”, e imita a voz do marechal – ele adora representar os casos que conta.

“Eu fazia a escolta dele e ele me chamava para tomar um suco de laranja ou comer um sanduíche misto na padaria Miami, na rua Tutóia, vizinha ao quartel do II Exército. Todo mundo querendo saber onde estava o presidente da República, e eu ali”, delicia-se.

Gaba-se de ter sido enviado para “cursos de treinamento em Langley” nos Estados Unidos, pelo cônsul geral em São Paulo, Niles Bond, que admirava a “eficiência” da polícia política paulista. E o chamava de “Mr. Dops”.

Orgulha-se também de outro apelido – “Paulão, Cacete e Bala” – que diz ter saído da boca dos “tiras” quando “caçava bandidos” na RUDI (Rotas Unificadas da Delegacia de Investigação), no início da carreira, com um “tira valente” chamado Sérgio Fleury. Anos depois, os dois se reencontrariam na Rádio Patrulha, de onde saiu a turma do Esquadrão da Morte, levada para o DOPS em 1969, quando Fleury entrou no órgão.

“Polícia é polícia, bandido é bandido”, diz Bonchristiano. “Para vocês de fora é diferente, mas para nós, acabar com marginal é uma coisa positiva. O meu colega Fleury merecia um busto em praça pública”, afirma, sem corar.

O delegado Sérgio Fleury e sua turma de investigadores se celebrizaram por caçar, torturar e matar presos políticos no DOPS, enquanto continuavam a exterminar suspeitos de crimes comuns no Esquadrão da Morte.

Conversas gravadas

No decorrer de nove tardes passadas, entre junho de 2011 e janeiro deste ano, em seu apartamento no Brooklin, no 13º andar de um prédio de classe média alta, aprendi a escutar com paciência os “causos” que “doutor Paulo” narra com humor feroz, até extrair informações relevantes. Repetidas vezes eu as confrontava com livros e documentos e voltava a inquiri-lo; a proposta era que ele se responsabilizasse pelo que dizia.

O delegado Paulo Bonchristiano e o cantor Roberto Carlos; na época da Jovem Guarda, o DOPS fazia a segurança da TV Record (Foto: Julia Rodrigues)

O delegado Paulo Bonchristiano e o cantor Roberto Carlos; na época da Jovem Guarda, o DOPS fazia a segurança da TV Record (Foto: Julia Rodrigues)

De certo modo, meu embate com o “doutor Paulo” antecipava as dificuldades que serão enfrentadas pela Comissão da Verdade, a ser instalada em abril para apurar fatos e responsáveis – sem punição penal prevista – pelas violações de direitos humanos cometidas pelo Estado entre 1946 e 1988, abrangendo o período da ditadura militar. O objetivo da comissão é devolver aos cidadãos brasileiros um passado que ainda não se encerrou, como provam os desaparecidos, e impedir que funcionários públicos sigam mantendo segredo sobre atos praticados a mando do Estado.A fragilidade da lei em pontos cruciais, porém, provoca ceticismo nas organizações de direitos humanos, em especial ao permitir o sigilo de depoimentos – ferindo o direito à transparência pública –, e ao não prever punições aos responsáveis pelos crimes, nem mesmo medidas coercitivas para os que se recusarem a depor.

“Não vou depor. Acho bobagem”, diz Bonchristiano. “Nunca pratiquei irregularidades, mas não sou dedo duro e não vejo utilidade nessa comissão”, justifica o funcionário público, aposentado aos 53 anos, e que recebe hoje 11 mil reais por mês de pensão.

Minhas conversas com Mr. DOPS renderam 15 horas de gravação que revelam a mentalidade e as conexões políticas dos policiais que atuaram na repressão do governo militar. E provam que os detentores das informações estão por aí – embora continuem ocultando as circunstâncias exatas em que os crimes foram cometidos e os mandantes de cada um deles.

Torturadores e repressores

O nome de Bonchristiano – que significa “bom cristão” e veio de Salerno, Itália – não consta das principais listas de torturadores compiladas por organizações de direitos humanos.

O Projeto Brasil Nunca Mais, um extenso levantamento realizado clandestinamente entre 1979 e 1985 com base nos IPMs (inquéritos policiais militares), é até hoje a principal referência, embora muitas vezes liste apenas os “nomes de guerra” dos torturadores, já que os reais eram desconhecidos das vítimas.

No tomo II, volume 3, “Os funcionários”, Paulo Bonchristiano é citado oito vezes em operações de repressão. Mas seu nome também não consta da chamada Lista de Prestes, de 1978, liberada recentemente pela viúva do líder comunista, que traz vários nomes completos e os cargos de 233 torturadores denunciados por presos políticos – entre eles 58 policiais do DOPS de São Paulo, 21 deles delegados.

Aos 80 anos, o delegado se orgulha de seu passado no DOPS, hoje um ícone da ditadura militar (Foto: Julia Rodrigues)

Aos 80 anos, o delegado se orgulha de seu passado no DOPS, hoje um ícone da ditadura militar (Foto: Julia Rodrigues)

As lacunas dessa história, porém, não permitem descartar a revelação de novos nomes. Entre 1968 e 1976 – o período mais duro da ditadura –, as torturas faziam parte do cotidiano de todos os policiais e militares envolvidos na repressão. O DOPS era “manejado pelos militares como um órgão federal”, como observa o jornalista Percival de Souza no livro “Autópsia do Medo”, do qual o Paulo Bonchristiano participa como fonte e personagem, qualificado como “um dos delegados mais conhecidos do DOPS”.Nas entrevistas à Pública, o ex-delegado resistiu duas tardes inteiras antes de admitir que se torturava e matava no “melhor departamento de polícia da América Latina” – o que hoje qualquer cidadão pode constatar através dos depoimentos reunidos no “Memorial da Resistência”, museu que desde 2002 ocupa as antigas instalações do DOPS, no centro de São Paulo.

Nem mesmo o fato de Sérgio Fleury ter se celebrizado como torturador impediu Bonchristiano de tentar isentar o órgão: “O Fleury era do DOPS e não era do DOPS, era o homem de ligação do DOPS com os militares, era delegado das Forças Armadas, do Alto Comando. Não obedecia a ninguém, interrogava presos no DOPS, no DOI-CODI, em delegacias, sítios, no país inteiro. Todo o segundo andar do DOPS era dele, tinha que telefonar antes: ‘Fleury eu vou descer pra falar com você’. Se não, a gente não entrava. Ele tinha uma porta lá, todo misterioso”.

Bonchristiano ainda se lembra, e muito bem, das antigas desavenças com o ex-colega.

“O Fleury estava em todas, se metia em tudo, perdi muitos ‘tiras’ para ele porque lá eles ganhavam mais, tinha um ‘por fora’”, contou na segunda entrevista. “Uma vez prendi um cara em um aparelho no Tremembé, e quando estava chegando no DOPS, o Fleury pediu o preso emprestado, não lembro o nome dele. Depois de dois dias sem notícias do preso, fui perguntar para o Fleury, e ele me pediu desculpas, tinha matado o cara que eu nem ouvi”, relata, como se fosse um contratempo na repartição. “Chegou uma hora que só ele que dominava. Só se falava dele”.

“Graças a Deus só se fala no Fleury”, reagiu dona Vera, a elegante senhora com quem o ex-delegado é casado há 53 anos, que entrava na sala trazendo refrigerantes. E emendou: “Zé Paulo, essa entrevista já não está durando demais?”, frase que ela repetiria muitas vezes depois.

Na sala de aula da IPA, a academia da CIA em Washington, antigos alunos assistem ao curso destinado a oficiais de alta patente; os militares usam as fardas de seus países de origem (National Archives, EUA)

Na sala de aula da IPA, a academia da CIA em Washington, antigos alunos assistem ao curso destinado a oficiais de alta patente; os militares usam as fardas de seus países de origem (National Archives, EUA)

Foi na terceira entrevista – quando já acumulávamos seis horas de gravação – que o “doutor Paulo”, sem dona Vera na sala, finalmente confirmou que “sabia de tudo” o que acontecia no DOPS. E se “justificou”:  “Eu não podia fazer nada, isso era com o pessoal de lá de cima. Eu era delegado de segunda classe, respondia apenas ao diretor do DOPS, o resto era com eles”.Bonchristiano tornou-se delegado de 2ª classe em 1969 e foi promovido “por merecimento” a delegado de 1ª classe em 1971.

Naquele mesmo dia, admitiu que frequentava os outros centros de tortura montados em São Paulo a partir de 1969, como a OBAN (Operação Bandeirante)  e o DOI-CODI, comandados pelo Exército e compostos de policiais civis e militares instruídos a torturar. Só no período de 1970 a 1974, a Arquidiocese de São Paulo reuniu 502 denúncias de tortura no DOI-CODI paulista, apelidado jocosamente pelos policiais de “Casa da Vovó”.

Bonchristiano disse então que “alguns da diretoria do DOPS” participaram da montagem da OBAN – “os militares não entendiam nada de polícia, depois aprenderam” – e que cederam três delegados no início das operações, todos incluídos entre os torturadores na Lista de Prestes: Otávio Medeiros, ligado ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e à TFP (Tradição, Família e Propriedade), assassinado em 1973 por militantes da resistência armada; Renato d’Andrea, colega de Bonchristiano na Faculdade de Direito da PUC; e Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, ex-investigador subordinado a Bonchristiano e ligado ao CCC, que se tornaria delegado depois.

Levaram também os métodos da polícia, incluindo o pau-de-arara – na origem um cabo de vassoura apoiado em duas mesas, onde os policiais deixavam o preso pendurado por pulsos e tornozelos até que a dor insuportável os fizesse “confessar”.

“O pau-de-arara não é, assim, uma tortura, vai tensionando os músculos, se o cara falar logo não fica nem marca, mas se o cara for macho e segurar…”, explicou-me ele certa vez. Diante de minha expressão escandalizada, concedeu: “choques, sim, dependendo”. E completou: “Naquela época foi diferente, o governo estava tentando melhorar o país. Aí nós tivemos que fazer essa luta. Nunca considerei os comunistas bandidos, considerava ideologicamente inimigos. Tanto que eu sempre falei, não poderia haver mortes”.

Bonchristiano disse que frequentava a OBAN e o DOI-CODI para “buscar presos, não para levar”, buscando distanciar-se das mal afamadas equipes de captura da OBAN, que realizavam prisões ilegais. Alguns eram soltos sem que sua passagem nos órgãos policiais fosse sequer registrada; outros eram enviados para os cárceres do DOPS, onde assinavam as “confissões” e tinham a “prisão preventiva” decretada.“Maçã Dourada”, os paramilitares e o DOPS

Em seus primeiros anos no DOPS, Bonchristiano se especializou em infiltrações em movimentos sindicais, mas a partir de 1968 os estudantes se tornaram prioridade. “Quem faz revolução é estudante, operário faz revolução na Rússia”, costumava dizer.

Uma das operações das quais mais se orgulha, que o levou às páginas de revistas e jornais, foi o desmantelamento do Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, em 12 de outubro de 1968, comandado por ele. “Prendi 1263 estudantes sem disparar um tiro”, diz – embora os policiais do DOPS e da Força Pública de Sorocaba tenham comprovadamente anunciado sua chegada com rajadas de metralhadora para o ar. “Coloquei a garotada em 100 ônibus cedidos pela (viação) Cometa e levei todo mundo para o DOPS. Separei os líderes e liberei o resto para ir para casa. Não tínhamos vontade de matá-los, eram estudantes”, ironiza.

Entre os 11 líderes que Bonchristiano mandou para o Forte de Itaipu, em Santos, estão os ex-ministros Franklin Martins e José Dirceu, e o líder estudantil Luiz Travassos, já falecido.

“Eu sabia tudo o que o Dirceu fazia porque ele era metido a galã e eu coloquei uma agente nossa para seduzi-lo”, gaba-se o delegado. “Ela era muito bonita, a Maçã Dourada, e me contava todos os passos dele”, diz o delegado. A “estudante” Heloísa Helena Magalhães, uma das 40 moças contratadas pelo DOPS para esse tipo de serviço, segundo ele, chegou a ser secretária de Dirceu na UNE (na verdade, José Dirceu foi diretor da UEE).

Dias antes, havia acontecido o famoso embate entre estudantes de direita reunidos no Mackenzie e estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antonia, base de resistência contra a ditadura. Pelo lado da direita, os conflitos foram publicamente liderados por João Marcos Flaquer, fundador do CCC, organização paramilitar idealizada por Luís Antonio Gama e Silva, o jurista que redigiu o AI-5 após se afastar da reitoria da USP para assumir o Ministério da Justiça de Costa e Silva.

Flaquer não era do Mackenzie – estava no último ano de Direito na USP – e dividia o comando dos combates com Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, “tira” do DOPS, subordinado a Bonchristiano. Oficialmente, a polícia só entrou no campus no segundo dia de conflitos, depois que um tiro, atribuído a um membro do CCC, Ricardo Osni, atingiu um estudante secundarista. Mas, segundo Bonchristiano, havia outras forças por trás dos conflitos:

“Foi o João Marcos que fundou o CCC e salvou os estudantes de passarem todos para o comunismo, por isso os americanos também gostavam dele”, diz o ex-delegado. “Ele tinha uma capacidade fabulosa, era forte demais, um cara fora de série, muito meu amigo. Eu o conhecia desde o segundo ano da faculdade, ele queria ser delegado mas a família dele era muito rica e não o queria metido com polícia, então ele vinha para o DOPS comigo. Ele dirigia toda essa parte de estudantes, infiltrava gente entre os esquerdistas. Se tinha alguma coisa que interessava ao DOPS, ele fazia. Mas só com minha anuência”, gaba-se o ex-delegado, que diz participado do planejamento do conflito.

O CCC começou com cerca de 400 membros e chegou a reunir 5 mil homens – boa parte deles militares e policiais. Andavam armados, espancavam estudantes e artistas que se opunham à ditadura e seus atentados mataram pelo menos duas pessoas.

João Marcos Flaquer, Ricardo Osni, João Parisi Filho e José Parisi, “estudantes” do CCC, eram colaboradores do DOI-CODI e constam da lista de torturadores do Brasil Nunca Mais.

Os dois primeiros, bem como o mentor Gama e Silva, também participavam de encontros que reuniam policiais da CIA e do DOPS. “A especialidade da CIA era fomentar organizações paramilitares como o CCC. Acho bem possível que eles recebessem, além de apoio, dinheiro”, diz a socióloga Martha Huggins, da Tulane University, New Orleans, pesquisadora de programas de treinamento de policiais estrangeiros pela CIA.

Afinidades eletivas: o DOPS e a CIA

Bacharel de Direito pela PUC-SP, filho de uma farmacêutica e um bancário, José Paulo Bonchristiano não entrou na polícia política por acaso. Ele e a turma de amigos da faculdade – seis deles futuros delegados do DOPS – eram anticomunistas viscerais e católicos conservadores, e representavam a direita no centro acadêmico 22 de agosto.

Esse perfil agradava ao experiente delegado Benedito de Carvalho Veras, que os recrutou em 1957 quando cursavam o último ano de Direito e faziam estágio na polícia. Veras, que se tornaria secretário de segurança do governador Jânio Quadros no ano seguinte, estava à procura de quadros para modernizar a polícia, sob orientação do Programa do Ponto IV – idealizado  pelo presidente americano, Harry Truman, com o objetivo de prevenir a “infiltração comunista”. Isso se traduzia na combinação de ajuda econômica e treinamento das forças policiais dos países da região.

A intenção era “profissionalizar” a polícia brasileira – sobretudo os que lidavam com crimes políticos e sociais – para que barrassem o comunismo sob qualquer governo.

No mesmo ano em que Veras assumia a secretaria de segurança e nomeava Bonchristiano como delegado substituto de polícia, uma deputada (Conceição da Costa Neves, do PTB, que fazia oposição ao então governador Jânio Quadros) denunciava publicamente ter sido vítima de um grampo telefônico. “Foi o primeiro grampo que se tem notícia em São Paulo”, conta o ex-delegado, que conheceu de perto o autor da “inovação tecnológica”, o escrivão Armando Gomide, futuro agente do Serviço Nacional de Informações (SNI). Gomide havia aprendido o “grampo” com os instrutores do Ponto IV, que também forneceram equipamentos para melhorar a qualidade das gravações.

Em 1962, o programa passou a ser dirigido pelo OPS – Office of Public Safety – uma “célula da CIA incrustrada dentro da AID (Agency for International Development, no Brasil, mais conhecida como USAID)”, nas palavras da professora Martha Huggins.

Além de treinar 100 mil policiais no Brasil, a OPS-CIA selecionava policiais e oficiais militares para estudar em suas escolas no Panamá (1962-1964); e nos Estados Unidos, depois que a Academia Internacional de Polícia (IPA) foi inaugurada em 1963 em Washington, funcionando até 1975. No Brasil, o OPS ficou até 1972, quando o Congresso americano começou a investigar as denúncias de que o programa patrocinava aulas de tortura.

A IPA foi um das “escolas” nos Estados Unidos que recebeu Bonchristiano antes mesmo do golpe militar. Dois anos antes – logo depois de ser aprovado no concurso para delegado de 5ª classe, o início da carreira, ele já frequentava a casa do diretor DOPS Ribeiro de Andrade, no Jardim Lusitânia, em São Paulo. “Ele estava sempre de portas abertas para nós, ficávamos lá conspirando”, ironiza.

Foi ali que Bonchristiano conheceu o policial americano Peter Costello, que veio para o Brasil em 1962 como instrutor da OPS depois de treinar 2.500 homens em técnicas de controle de distúrbios na Coréia. “Era um sujeito austero, falava português e entendia de polícia, deu curso de algemas, tiro rápido e outros para os policiais do DOPS, conta, completando: “Alguns meninos do CCC também participaram”.

Antes de 1964 os delegados do DOPS já contavam com a ajuda dos americanos para identificar os “comunistas”, muitos deles presos logo depois do golpe. “A ordem que a gente tinha desde o começo era identificar e prender todos os comunistas. Queríamos acabar com o Partido Comunista”, diz Bonchristiano.

Para contribuir com essa missão, “o Ponto IV nos contemplou com fotografias dos frequentadores (brasileiros) dos cursos de guerrilha na China”, relatou Renato d’Andrea, um dos delegados que foram da turma de Bonchristiano na PUC, ao jornalista Percival de Souza.

Na primeira operação importante que Bonchristiano realizou no DOPS, em abril de 1964, foi a vez de retribuir, entregando aos americanos as 19 cadernetas apreendidas na casa do líder comunista Luiz Carlos Prestes. As cadernetas foram xerocadas nos Estados Unidos (aqui ainda não existia o xerox) e retornaram 15 dias depois para o Brasil, servindo de base para a prisão de diversos militantes comunistas.

Só sobraram as cópias das cadernetas de Prestes, hoje nos arquivos do DOPS – os originais, segundo o “doutor” Paulo, desapareceram. Por aqui as cadernetas serviram de base a um dos maiores IPMs da primeira fase da ditadura, e foram usadas como justificativa para a prisão de diversos militantes comunistas como Carlos Marighella, que o próprio Bonchristiano foi encarregado de conduzir a São Paulo, depois que ele havia sido preso e baleado em um cinema no Rio, em 1964. Solto em 1965, Marighella foi assassinado em uma emboscada de policiais do DOPS em 1969.

“É uma bobagem danada dizer que a CIA mandava no DOPS, que nós éramos agentes da CIA, não era nada disso, nós éramos delegados do DOPS”, resmunga o doutor Paulo. “A América do Sul sempre foi o quintal dos Estados Unidos, e eles olhavam muito para nós, tinham medo do Brasil se tornar comunista. E notaram que tinha um departamento de polícia em São Paulo que trabalhava firme nisso. Porque o DOPS de São Paulo fazia todos os levantamentos que conduzissem a algum elemento do Partido Comunista em todo o Brasil, na América Latina inteira”.

Mr. Dops e Mr. Bond

O jovem Bonchristiano vestido de George Washington, ao lado do colega Júlio Cesar Silvestre Neto, em uma comemoração do 4 de julho nos Estados Unidos (arquivo pessoal)

O jovem Bonchristiano vestido de George Washington, ao lado do colega Júlio Cesar Silvestre Neto, em uma comemoração do 4 de julho nos Estados Unidos (arquivo pessoal)

“Depois que o presidente Truman criou a CIA, era a CIA que acompanhava o movimento dos subversivos”, continua. “Então trabalhávamos juntos, viajávamos juntos em muitos casos, mas nossas reuniões eram fora do DOPS, na happy hour de bares de hotéis como o Jandaia e o Jaraguá, no centro de São Paulo. O Fleury também ia, o Flaquer, o Gama e Silva e até o Carlos Lacerda (ex-governador do Rio, que conspirou pelo golpe e acabou sendo cassado em 1968). O Niles Bond era chefe lá deles, sujeito bacana, conhecia bem o Brasil, e gostava muito de mim. Me chamava de Mr. Dops, porque eu sempre o atendia em tudo que precisava e era ele que me mandava para Langley”, frisa mais uma vez, mostrando uma foto sua com trajes de George Washington ao lado de um colega fantasiado de soldado federalista, tirada durante uma de suas estadas em Washington (FOTO).“Não lembro quando foi tirada porque estive oito vezes em cursos de treinamento nos Estados Unidos (entre 1963 e 1970)”, diz ele. “Fiz cursos técnicos, de polígrafo, técnicas de inteligência, infiltração. E sobre o comunismo também, eles tinham verdadeira obsessão. Saí de lá convencido de que eles, sim, são duros, fazem o que for preciso para garantir seus princípios”.

Entre 1959 e 1969, Niles W. Bond foi adido da embaixada no Rio e cônsul geral em São Paulo, segundo seu currículo na Association for Diplomatic Studies and Training, que também aponta a ligação com a CIA desde 1956, quando era assessor político da embaixada italiana.

Langley, frequentemente usado como sinônimo de CIA nos Estados Unidos, é o nome dos arredores da pequena cidade de McLean, na Virginia, onde desde o início da década de 1960 ficam os “headquarters” da agência de inteligência americana, a alguns quilômetros de Washington.

Com o tempo, descobri que quando o doutor Paulo se referia a Langley, significava que estava em treinamento em instalações na CIA, não apenas na sede, mas “em muitos outros lugares, até na Flórida”, como confirmou depois.

As informações sobre a CIA foram reveladas por doutor Paulo quando o inquiri sobre sua transferência, em 1ª de setembro de 1964, para o Ministério da Guerra, lotado no II Exército – informação que obtive checando todas as suas nomeações, transferências e promoções no Diário Oficial (seu currículo oficial omite essa significativa passagem).

Ele diz que foi transferido porque havia sido encarregado (com mais três delegados) de montar um plano de estruturação da Polícia Federal pelo general Riograndino Kruel, irmão do comandante do II Exército, Amaury Kruel (ambos também treinados nos Estados Unidos): “O Edgar Hoover (fundador do FBI) é um cara que admiro muito, e os americanos achavam muito importante montar uma polícia como essa no Brasil – o DOPS paulista já atuava como polícia federal, mas era subordinado à secretaria de segurança estadual, o que atrapalhava nossos movimentos”, explicou.

Até hoje a Polícia Federal registra seus agradecimentos à “revolução de 1964” no site oficial da entidade: “Somente em 1964, com a mudança operada no pensamento político da Nação, a idéia da criação de um Departamento Federal de Segurança Pública, com capacidade de atuação em todo o território, prosperou e veio a tornar-se realidade”.

O capitão americano e a guerrilheira

“Felizmente aqui no Brasil não fizemos como em outros países, matanças. Não houve isso. Houve só morte de quem quis enfrentar a polícia. Isso em qualquer lugar do mundo. Quando uma guerrilha deles lá, um aparelho, matou o nosso colega lá em Copacabana, o Moreira, o que nós tinhamos que fazer? Descobrir os caras e matar também”, ri. “Polícia é assim”, avalia o “doutor” Paulo.

Dulce de Souza Maia, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) sentiu na carne o peso dessa vingança, quando foi presa na madrugada do dia 25 de janeiro de 1969, enquanto dormia na casa da mãe.

Dois dias antes, vários líderes da VPR tinham sido presos e os repressores já sabiam que ela havia participado de um atentado a bomba no II Exército, que matou o sentinela Mario Kozel Filho. Também havia sido erroneamente apontada como uma das autoras do atentado que em 1968 matou o capitão do Exército americano, Charles Chandler, acusado pelos guerrilheiros de dar aulas de tortura no Brasil a serviço da CIA.

Dulce não sabe dizer se todos que a torturaram no quartel da Polícia do Exército eram militares, mas sua lembrança mais forte é a cara redonda do homem que a estuprou, depois de dar choques em sua vagina. “Eu aguentei 48 horas”, me disse, por telefone. “Depois acabei dando um endereço de um apartamento que eu conhecia porque tinho ido a uma feijoada, não era um aparelho”.

Foi então levada para o DOPS, metida em uma viatura com uma equipe de policiais dos quais não sabe o nome: “Nem lembro das caras, estava quase morta, sei que eles me levaram para a rua Fortunato e apontei o prédio que só reconheci porque tinha parado o meu carro na frente no dia da feijoada – eu não sabia que o João Leonardo, que inclusive era de outra organização (ALN), morava ali. Lembro só que o vi quando a porta abriu”, lamenta.

A versão do delegado Bonchristiano sobre o mesmo episódio omite detalhes significativos. “Nós estávamos atrás dos caras que mataram o Chandler, coitado, executado na porta da casa dele, no Sumaré. Em 36 horas, o Cara Feia, um tira excepcional que já morreu, sabia quem tinha feito. Aí, uma menina que nós prendemos, nos conta de uma reunião na Rua Fortunato, perto da Santa Casa da Misericórdia. Eu fui com a menina. Mandamos ela tocar a campainha. Peguei o professor que era o dono do apartamento, prendemos”, contou. “Voltamos para o DOPS, eu, Tiroteio, Cara Feia e a menina e deixei dois tiras, o Raul Careca e o Nicolino Caveira, para ver se acontecia mais alguma coisa. Telefone. ‘Doutor, o senhor tem que vir aqui, teve um problema’. ‘Muito problema?’ ‘Demais’, quando é demais é que houve morte. Quando cheguei lá, tinha sangue para todo lado. O Raul Careca, que era um ótimo atirador, tinha dado 18 tiros no Marquito (Marco Antonio Brás de Carvalho). Aí que eles me contaram o que tinha acontecido: esse que matou o Chandler tinha chegado e quando abriu a porta, falou assim: “Quem são vocês?” E os tiras: “Nós somos da família”. “Ah é?” E puxou a arma. Os tiras revidaram e ele morreu”.

Bonchristiano jamais mencionou que a “menina” estava quebrada pela tortura. Mas corrigiu a versão que consta do depoimento de Raul Careca em um processo movido pela família de Marquito. Ali ele dizia que foram dois os tiros disparados.

Mano nera

“O caso Chandler gerou consternação, mas, sobretudo preocupação entre o grupo de assessores policiais, pois estes poderiam tornar-se alvo também. Participaram das investigações e ajudaram a identificar as armas utilizadas, enviando o material para estudo em laboratórios de criminalística do FBI”, relata o professor Rodrigo Patto, da UFMG, que estuda a relação entre a USAID e a CIA.

Patto, porém, não sabe dizer se Chandler era de fato da CIA como acreditavam os militantes da ALN e da VPR que decidiram matá-lo. “Ele havia estado no Vietnã, e estava oficialmente em viagem de estudos no Brasil”, diz.

Em seguida ao assassinato de Chandler, um ex-instrutor americano de Bonchristiano, Peter Ellena, veio para o Brasil para acompanhar as investigações, o que melindrou o pessoal do DOPS. “Demos para ele a mano nera (símbolo da máfia), a mão negra ensaguentada”, diverte-se, contando que os policiais simularam um bilhete de ameaças dos guerrilheiros para assustar o “gringo”. “Ele ficou morrendo de medo”.

O jornalista Percival de Souza relata que o DOPS produzia relatórios confidenciais diários sobre o caso para o consulado americano, e que descobriram o fio da meada que os levaria a Marquito, “menos de um mês depois do fuzilamento”, registrando em seguida a versão que Bonchristiano continua a defender: um acidente ocorrido na BR-116 no dia 8 de novembro de 1968, na altura de Vassouras (RJ), teria matado Catarina e João Antonio Abi-Eçab que estava em um fusca.

Ao socorrer o casal, a polícia teria encontrado uma metralhadora INA calibre 35, como a que matou Chandler. O DOPS foi avisado, e Bonchristiano viajou imediatamente a Vassouras. Lá o delegado teria descoberto que o casal, militante da ALN, teria ido ao Rio de Janeiro para encontrar Marighella, e que a metralhadora era a mesma que matou Chandler. Tinha encontrado a arma do crime.

O “teatrinho”, como os policiais chamavam as versões criadas para encobrir seus crimes, foi desmontado a partir do relato de um ex-soldado do Exército ao jornalista Caco Barcellos, em 2001, em que reconheceu Catarina “como presa, torturada e morta em um sítio em São João do Meriti (município vizinho a Vassouras)” e afirmou que os órgãos de repressão, após a execução, teriam forjado o acidente.

Mais uma vez a “eficência” do DOPS veio da tortura. Bonchristiano, que insistiu até o fim na desmentida versão, diz que foi cumprimentado por Niles Bond pelo feito. “O Chandler era um dos nossos, frequentava nossas reuniões, o Bond sabia que eu ia resolver o caso”, gaba-se.

Esticadinha no chão

Em 1983, os ventos democratas extinguiram o DOPS e trouxeram um novo delegado geral, Maurício Henrique Pereira Guimarães, que despachou Bonchristiano para uma obscura seção da Secretaria de Justiça, encarregada das viúvas dos soldados mortos na II Guerra. “Preferi me aposentar, hoje não acredito mais em nada. Fiz o que o presidente queria, os militares queriam, e não ganhei nem aquelas medalhinhas que eles davam para todo mundo”, desdenha, referindo-se à Medalha do Pacificador, entregue pelos militares a torturadores famosos.

Mas o Mr. Dops não tem muito do que reclamar. Em seus primeiros oito anos de DOPS subiu da 5ª para a 1ª classe, como só acontecia aos que participavam da linha de frente da repressão. Ficou um tempo na “geladeira” quando um desafeto, o coronel Erasmo Dias, assumiu a secretaria de segurança (1974-1979). Mas conseguiu depois a promoção a delegado de classe especial e se aposentou no topo da carreira, em 1984.

A família, porém, ainda sofre com o passado do delegado. A filha, uma artista plástica, escolheu o prédio do antigo DOPS como cenário de uma performance acadêmica. No Facebook, comenta que o pai ficou “do lado dos algozes da ditadura”, enquanto uma de suas filhas – neta de Bonchristiano –  faz campanha pela Comissão da Verdade em seu perfil.

Dona Vera sente a distância dos netos e lembra com amargura do tempo em que o marido trabalhava no DOPS. Via-se sozinha dias a fio com três filhos pequenos: “Eu não podia falar com ele nem por telefone, ligava lá e me diziam ‘a senhora fica tranquila que ele está bem’”, conta. “E eu, apavorada com as ameaças que a gente recebia por telefone, meus filhos iam escoltados para a escola”, diz.

Ela traz ainda outra lembrança: “Uma vez, minha filha era pequenininha, e quando o Campão, que trabalhava para o Zé Paulo, veio buscá-la para escola, ela desatou a chorar ao ver aquele homão, parecia um índio, vestido de amarelo da cabeça aos pés”, diz.

“Era o meu motorista no DOPS, depois veio me pedir licença para trabalhar com o Fleury, ‘lá a gente ganha mais, né doutor?’ Já morreu, coitado”, interveio Bonchristiano.

José Campos Correia Filho, o Campão, era um conhecido torturador – dos mais cruéis – segundo Percival de Souza, e membro do Esquadrão da Morte. Além de motorista do “doutor”, ele conduzia cadáveres levados do DOPS na calada da noite para desová-los nos cemitérios de periferia, segundo o próprio Bonchristiano.

No final de novembro de 2011, o governador Geraldo Alckmin acatou o lobby da Associação de Delegados de São Paulo (cujo patrono é o falecido delegado Antonio Ribeiro de Andrade, o primeiro chefe de dr. Paulo no DOPS) e mandou para a Assembléia Legislativa um projeto de lei que equipara as carreiras de delegados de polícia, procuradores e promotores, sob o argumento de que a polícia civil é judiciária, e portanto deve ser ligada ao Poder Judiciário e não à Secretaria de Segurança Pública.

O projeto, que o “doutor” Paulo muitas vezes defendeu em nossas entrevistas, faria sua aposentadoria pular dos atuais 11 mil reais para cerca de 20 mil reais, de acordo com os cálculos que ele mesmo fez.

A partir do momento em que o acalentado projeto foi enviado para a Assembleia, o ex-delegado resolveu encerrar nossas conversas.

Retornei uma última vez a seu apartamento, em janeiro deste ano, para checar alguns dados e ele deixou escapar o trecho de uma conversa que tive com um dos meus filhos, por celular. Estava disposto a me assustar.

Dr Paulo Bonchristiano, ex-delegado do DOPS (Foto: Julia Rodrigues)

Dr Paulo Bonchristiano, ex-delegado do DOPS (Foto: Julia Rodrigues)

Na despedida, preveniu-me mais uma vez sobre o “perigo” que “nós dois” estaríamos correndo se eu levasse adiante qualquer investigação sobre a localização dos corpos desaparecidos, advertência que fez desde a primeira entrevista. Perdi a paciência: “Mas, doutor, quase todo mundo que o senhor conheceu naquela época já morreu! Nós vivemos em uma democracia, ninguém vai matar assim um jornalista ou um delegado aposentado”.“Isso é o que você pensa”, retrucou. “Os que hoje ocupam os cargos daqueles, antigos, também assumiram o compromisso de proteger o pacto”, afirmou. “Não tem isso de democracia, minha cara jornalista, eles fazem o que precisa ser feito. Se alguém é atropelado ou baleado no trânsito, é uma coisa que acontece, em São Paulo. Não quero ver você esticadinha no chão”.

Quando entrei no taxi para ir embora, refletindo sobre quem afinal estaria ameaçando quem, lembrei de uma ocasião em que nossas relações eram mais amistosas e pude lhe perguntar por que “eles” tinham enterrado os corpos, em vez de atirá-los ao mar ou incendiá-los para apagar definitivamente as provas.

De pé, na sala decorada com os estofados confortáveis, rodeados por mesinhas enfeitadas com fotos de família e bibelôs de inspiração religiosa, Bonchristiano reagiu: “Nós somos católicos, pô!”.

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UFPR 100 anos: palco da resistência contra a ditadura militar

A Universidade Federal do Paraná que completa hoje 100 anos  foi palco das mais significativas manifestações dos estudantes contra o ensino pago e contra a ditadura. Tem em seus quadros, alunos, docentes que resistiram e combateram o regime militar. Durante o ano de 1968, o campus da Reitoria da UFPR foi palco das mais significativas manifestações dos estudantes contra o ensino pago e contra a ditadura. Em protesto contra a cobrança das mensalidades, pelo acordo MEC-USAID os estudantes cercaram o prédio da reitoria e arrastaram o busto do reitor Flávio Suplicy de Lacerda, mentor do acordo, pelas ruas do centro de Curitiba.  O Diretório Central de Estudantes  foi o principal condutor dessas mobilizações. Com a intensificação da repressão, o campus foi cercado pela Polícia Militar.FOTO 01E-REITORIA

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Movimentos sociais repudiam intimação contra cineasta Silvio Tendler

Diversas entidades do movimento social estão convocando um ato público de solidariedade ao cineasta Silvio Tendler, a ser realizado nesta quarta-feira, dia 19, às 14h, na porta da 5ª Delegacia Policial, no Centro do Rio. O PT Regional também está chamando a militância partidária para comparecer ao ato, considerando que o que está em jogo é a garantia dos ideais democráticos do Brasil.tendler

Silvio Tendler foi intimado a depor nesta quarta-feira, na 5ª DP, a partir de denúncia apresentada pela diretoria do Clube Militar. Um grupo de militares da reserva prestou queixa contra o cineasta, alegando constrangimento ilegal qualificado a que teria sido submetido, no dia 29 de março passado, em manifestação pública na porta do Clube Militar, no Centro do Rio. Naquele dia, foi realizado um ato de comemoração da passagem do golpe militar de 64, nas dependências do clube. Do lado de fora, centenas de pessoas repudiaram a atitude dos militares. Tendler não compareceu à manifestação porque justamente no dia 29 de março estava em casa acamado,recuperando-se de uma cirurgia de descompressão da medula. Em carta ao delegado Alcides Alves Pereira, da 5ª DP, responsável pela investigação, Tendler afirma que “infelizmente (estava) impedido de participar de ato público contra uma reunião de sediciosos, os quais, contrariando a determinação da Exma. Sra. Presidenta da República, comemoravam o aniversário da tenebrosa ditadura, que torturou, matou, roubou e desapareceu com opositores do regime.

Entre os presentes estava o matador do Grande Herói da Pátria, Capitão Carlos Lamarca, e seu companheiro Zequinha – doentes, esquálidos, sem força, encostados numa árvore. Zequinha e Lamarca foram fuzilados sem dó, nem piedade, quando a lei e a honra determinam colocá-los numa maca e levá-los para um hospital para prestar os primeiros socorros. Essa gente estava lá, não eu. Eles é que devem ser investigados. Eu farei um filme enaltecendo o Capitão Lamarca e seu bravo companheiro Zequinha.Tenha certeza, Delegado, de que, enquanto eu tiver forças, me manifestarei contra o arbítrio e a violência das ditaduras e já que o Sr. está conduzindo o inquérito, procure apurar se o canalha que prendeu, torturou e humilhou minha mãe nas dependências do Doi-Codi participou do “festim diabólico”. Isso sim é Constrangimento Ilegal. E já que se trata de assunto de polícia, aproveite para pedir ao “constrangedor ilegal” que ficou com o relógio da minha mãe – ela entrou com o relógio no Doi-Codi e saiu sem ele –que o devolva. Processe-o por “apropriação indébita, seguida de roubo qualificado (foi à mão bem armada)”.

O cineasta lembra que “tudo o que fiz foi um chamamento pelo you tube convidando as pessoas a se manifestarem contra as comemorações do golpe de 64. Se este general entendesse ou respeitasse a lei, não teria promovido a festa e, tendo algo contra mim, deveria tentar me enquadrar por “delito de opinião”, mas aí, na fotografia, ele ficaria mais feio do que é, não é mesmo? Por fim, quero manifestar minha solidariedade aos que protestaram contra o “festim diabólico” e foram tratados de forma truculenta, à base de gás de efeito moral, spray de pimenta e choque elétrico – como nos velhos tempos”, revela Tendler, na carta endereçada ao delegado. A 5ª DP fica na Rua Gomes Freire, no Centro.

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Comissão da Verdade da UFPR faz primeira audiência pública

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Quadro do professor José Rodrigues Vieira Neto foi colocado à esquerda do Salão – Foto: Rodrigo Juste Duarte.

Comissão da Memória e Verdade da UFPR, criada por iniciativa do reitor Zaki Akel Sobrinho, realizou na última sexta-feira, 14, sua primeira audiência pública, marcada por uma homenagem ao professor José Rodrigues Vieira Neto, por ocasião do centenário de seu nascimento.
Vieira Neto, morto em 1973, professor de Direito da UFPR, teve uma destacada militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), de cuja seção paranaense foi secretário-geral. Eleito deputado estadual constituinte em 1946, perdeu o mandato um ano depois, quando o PCB foi posto na ilegalidade. Já como professor universitário, teve seus direitos políticos cassados pelo regime militar em 8 de junho de 1964. No mesmo ano, em 22 de setembro, foi aposentado compulsoriamente pela UFPR.

Prestaram depoimentos sobre Vieira Neto sua filha, a antropóloga Cecília Maria Vieira Helm; os advogados René Ariel Dotti, Antonio Acir Breda, Eduardo Rocha Virmond.
Cecília Helm contou os percalços que a família passou quando Vieira Neto foi perseguido pelos militares e aposentando compulsoriamente na UFPR.  “Foi tempos de penúria para a nossa família. Lembro-me também que a Cúria Metropolitana queria que Vieira Neto fosse reprovado e suas notas rebaixadas no curso de Direito. Meu pai também não participou da cerimônia de formatura em 1964”.

Rocha Virmond, advogado que trabalhou no escritório de Vieira Neto lembra que na UPFR professores evitavam conversas com ele pela proximidade que tinha com  o catedrático. “Tinha professor que andava rápido para não falar comigo. Também no Dops muita coisa se falou, mas nada foi provado”.

O jurista Antônio Acir Breda detalhou uma  ficha no Dops de Vieira Neto Onde constava como  suas armas um estilingue e dois pacotes de bolas de gude. “São verdadeiro absurdos. Temos que contar a história desta época terrível.

A Comissão da Memória e Verdade tem o objetivo de investigar os casos de violações de direitos humanos que atingiram professores, servidores e estudantes da UFPR, durante o regime militar (1964-1985). O reitor Zaki Akel Sobrinho destacou a importância da Comissão: “Lançar a luz da verdade é nosso principal objetivo, para que possamos reescrever a história baseada em memórias corretas sobre fatos que foram distorcidos”. Na mesma direção falou o diretor do Setor de Ciências Jurídicas, professor Ricardo Marcelo Fonseca.

A audiência foi iniciada com uma manifestação da professora Vera Karam de Chueiri, integrante da Comissão da Memória e Verdade da UFPR. A Comissão tem ainda como membros os professores   Pedro Bodê de Moraes, Nizan Pereira, Eduardo Salamuni, Adriano Codato, Maria Odette de Pauli Bettega e José Antonio Peres Gediel.

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