Historiador e militante comunista Jacob Gorender morre em São Paulo

jacobProtagonista de uma das trajetórias mais singulares da história recente, o intelectual autodidata, dirigente comunista, preso político e veterano da 2ª Guerra Mundial Jacob Gorender morreu nesta terça-feira (11) aos 90 anos, em São Paulo.

Foi autor de “O Escravismo Colonial”, de 1978 e de “Combate nas Trevas”, de 1987, sua obra mais conhecida, um clássico sobre a história da esquerda durante da ditadura militar.

“Gorender descreveu e questionou práticas problemáticas das organizações da luta armada, como o justiçamento de militantes. Ao abrir esse debate, provocou uma consideração mais complexa sobre as esquerdas”, disse o brasilianista James Green, da Universidade Brown.

A presidente Dilma Rousseff, em nota, lamentou a morte “do amigo e companheiro Jacob Gorender”, “um pensador do Brasil”. A presidente disse ter recebido com “tristeza” a notícia e deixou condolências a seus amigos.

“Nós nos conhecemos presos no Dops, em São Paulo. Ele estava convalescente de torturas e foi conselheiro importante num momento crucial na minha vida”, afirmou.

“Gorender tem importância tanto pela trajetória, que acompanha o Brasil desde os anos 1940, quanto por morrer falando, sem medo de uma posição crítica”, diz a professora de história da USP Maria Aparecida de Aquino.

FUNDADOR DO PCBR

Gorender nasceu em Salvador em 20 de janeiro de 1923, filho de imigrantes judeus russos. Em 1941 entrou para a Faculdade de Direito de Salvador, época em que se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Ele interrompeu os estudos em 1943 quando, aos 20 anos, se alistou na Força Expedicionária Brasileira. Lutou na Europa em batalhas como a de Monte Castelo, na Itália.

Finda a guerra, mudou-se para o Rio, onde trabalhou em jornais de esquerda e, em 1953, para São Paulo. Dois anos depois, embarcou para Moscou, onde permaneceu até meados dessa década.

O Golpe de 64 pegou o PCB de surpresa e rachou o partido. Gorender foi expulso em 1967. No ano seguinte criou o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), junto com Apolônio de Carvalho e Mário Alves.

“Há um debate no PCB com três correntes. A do [Luís Carlos] Prestes, de resistência na legalidade; a do [Carlos] Marighella, luta armada estilo foco guerrilheiro; e a de Gorender, Carvalho e Alves, que era a combinação de organização de partido, trabalho de massas e luta armada”, disse o sociólogo Emir Sader.

Gorender acabou preso em São Paulo, em 1970. Por não ter participado de nenhuma ação armada, foi condenado a dois anos, mas não se livrou de ser torturado várias vezes.

Companheiro de cela, o jornalista Alípio Freire disse que, uma vez por semana, dava aulas sobre escravidão. Os livros de história eram trazidos pela mulher, Idealina, já morta, com quem Gorender teve uma filha, Ethel. Libertado, trabalhou como tradutor e passou a escrever.

“Foi um grande dirigente político e um grande intelectual ao mesmo tempo”, afirmou Sader.

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Comissão da Verdade do Rio convoca general do DOI-CODI

O presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, Wadih Damous informou na terça-feira,11,

José-Antônio-Nogueira-Belham, diretor do DOI-CODI do Rio de Janeiro.

José-Antônio-Nogueira-Belham, diretor do DOI-CODI do Rio de Janeiro.

que o general da reserva José Antônio Nogueira Belham será convidador para depor. O militar comandou o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do Rio de Janeiro na época em que o ex-deputado federal Rubens Paiva foi assassinado, em 1971, depois de ter sido preso e levado para o órgão de repressão do governo na ditadura militar.

O corpo do parlamentar nunca apareceu mas documentos em poder da Comissão Nacional da Verdade atestam que o militar da reserva recebeu dois cadernos de anotação que pertenciam a Paiva. ” O general da reserva vai ser convocado, sim, porque ele chefiou o DOI-CODI aqui no Rio de Janeiro. Estamos preparando os depoimentos para este mês e o início de julho”. Damous está em Brasília onde participa da reunião mensal do Conselho Federal da OAB.

No último final de semana o jornal Correio Braziliense revelou que o general da reserva é pai do atual número 2 da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Ronaldo Martins Belham, que tem acesso privilegiado a informações sobre o período militar brasileiro. Damous pediu o afastamento imediato de Belhan do cargo de direção da Abin. “. “Eu defendo que não podemos estigmatizar o filho dele, mas é evidente que existe uma suspeição nesse caso. Existe, no mínimo, uma inconveniência”, ressaltou.

A mesma posição de Damous tem a coordenadora da Comissão da Memória, Verdade e Justiça da Câmara, deputada Luiza Erundina (PSB-SP). Ela classificou de “inadmissível” e “incompreensível” a permanência de Ronaldo Martins Belham em uma posição de destaque na Abin. “Pela natureza do cargo que ocupa, não consigo compreender como ele pode exercer essa função, mesmo que não tenha nenhuma relação com os atos cometidos”.

Acrescentou Erundina que no lugar do diretor da Abin ela se sentiria desautorizada. “Existe muita verdade a ser revelada ainda. Há muitas fontes que não chegaram nem ao conhecimento da Abin. Que liberdade esse homem tem se ele receber, pelo cargo que ocupa, informações que ajudem a compreender o caso Rubens Paiva? Ele terá autonomia para avaliar os dados? Não pode. Temos que ser intransigentes em relação a isso”, afirmou Erundina.

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Exclusivo: reportagem detalha uso de crianças em torturas na ditadura militar

Exclusivo: reportagem detalha uso de crianças em torturas na ditadura militar

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Exclusivo: ex-militar revela ameaças por não participar de torturas na ditadura

Exclusivo: ex-militar revela ameaças por não participar de torturas na ditadura

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Presidente da Comissão da Verdade propõe campanha para rever Lei da Anistia

A atual coordenadora da Comissão Nacional da Verdade, a advogada rosacardoso, voltou a defender nesta segunda-feira (10) a revisão da interpretação da Lei da Anistia em vigor no País. Ela se manifestou durante audiência pública realizada pela Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, durante a qual foi lançada uma moção por uma campanha nacional pela reinterpretação da lei.

Ressalvando que falava em seu nome, e não da comissão, Rosa Maria disse que o Brasil deve cumprir a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que se manifestou sobre o tema ao julgar uma ação movida por familiares de participantes da Guerrilha do Araguaia.

Divulgada em dezembro de 2010, a sentença diz que a anistia dada pelo Brasil aos policiais e militares que, durante a ditadura, cometeram crimes contra os direitos humanos, tais como tortura, sequestro e ocultação de cadáver, viola Convenção Americana – para a qual esses crimes são imprescritíveis. A Lei da Anistia foi, na concepção dos integrantes da corte internacional, uma auto-anistia, o que também viola convenções das quais o Brasil é signatário.

Na abertura do encontro desta segunda, Rosa Maria qualificou como contraditória a posição do Brasil, que, após ter decidido fazer parte de um organismo internacional, se recusa a cumprir suas determinações. “É uma contradição não aceitar essa cogência que foi buscada o quando o Estado se associou a uma ordem internacional”, disse. “São organismos internacionais na área do direito que têm que estabelecer um paradigma de comportamento para os governos dos Estados.”

A coordenadora da comissão disse que a Comissão da Verdade não tem uma posição definida sobre a questão da anistia e que o tema deve ser discutido apenas na parte final dos trabalhos, quando o grupo passar a discutir as recomendações ao Estado brasileiro. Entre os seis integrantes da comissão, lembrou a coordenadora, quatro já se manifestaram pela revisão da interpretação em vigor. Os outros dois apoiam a decisão do Supremo Tribunal Federal que, em abril de 2010, ratificou a interpretação de que os agentes de Estado acusados de violarem direitos humanos também foram anistiados.

Também participaram da audiência pública o jurista Fábio Konder Comparato, o advogado e ex-secretário estadual de Justiça Belisário dos Santos Júnior, o procurador federal Marlon Weichert e o professor de direito José Carlos Moreira da Silva Filhos. Todos defenderam a necessidade de se rever a interpretação da lei.

Ao final das exposições, a ex-presa política Amelinha Telles, que assessora a Comissão Estadual, anunciou o lançamento da moção com críticas à lei. O texto, que deverá ter a assinatura de entidades de direitos humanos, é o primeiro passo para uma campanha nacional em defesa da reinterpretação daquela decisão, adotada em 1979, ainda durante a vigência da ditadura.

Fonte-Agência Brasil

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Paulo Vannuchi é eleito para comissão da OEA

O ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) Paulo Vannuchi foi eleito quinta-feira (6) para compor a Comissão Interampaulo vannucchiericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA) – também foram eleitos os candidatos dos Estados Unidos, James Cavallaro, e o do México, José de Jesús Orozco Henríquez. Vannuchi participou do debate de 15 anos de Caros Amigos em 2012; confira a palestra dele no vídeo abaixo.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é formada por sete membros e é uma das entidades do Sistema Interamericano de Proteção e Promoção dos Direitos Humanos nas Américas. Três vagas foram renovadas no processo eleitoral, que começou há três dias. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, a eleição de Vannuchi à CIDH fortalece o compromisso do Brasil com o Sistema Interamericano de Direitos Humanos.

SDH

Paulo Vannuchi comandou a SDH entre 2005 e 2011, durante o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Formado em jornalismo e com mestrado em ciência política, Paulo de Tarso Vannuchi, de 63 anos, sempre atuou na defesa e preservação dos direitos humanos. Paulista de São Joaquim da Barra, ele foi preso político durante o governo militar.

O ex-ministro foi o principal responsável pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. Em 2010, Vannuchi defendeu que Lei de Anistia não se aplica aos torturadores. Atualmente é diretor do Instituto Lula e responsável pelo projeto do Memorial da Democracia. É também analista político da TVT e da Rádio Brasil Atual.

Dossiê

Vannuchi participou da elaboração do livro Brasil Nunca Mais, coordenado por dom Paulo Evaristo Arns. Em 1975, foi um dos responsáveis pelo dossiê entregue à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) sobre a tortura praticada pela ditadura militar e os assassinatos cometidos, mencionando 233 nomes de torturadores e detalhando os métodos usados, inclusive citando unidades onde as torturas ocorriam. O documento é considerado um dos mais completos desde 1964.

De 1977 a 1985, Vannuchi trabalhou com a Comissão Pastoral da Terra, a Pastoral Operária e as Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, promovendo cursos de formação e assessoria política para lideranças, religiosos e bispos.

Vannuchi foi deputado federal na Assembleia Nacional Constituinte, em 1986, e secretário executivo da Coordenação Nacional da campanha de Lula, em 1994.

Fonte-Caros Amigos

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UOL – Estudantes tentam provar que militante ‘suicida’ foi assassinado durante a ditadura em Porto Alegre

Silva foi encontrado morto em cela do Presídio Central, em Porto Alegre; tinha 26 anos

Silva foi encontrado morto em cela do Presídio Central, em Porto Alegre; tinha 26 anos

do UOL

Lucas Azevedo
Fonte: UOL, em Porto Alegre

  • Divulgação/ TJ-RS
    Silva foi encontrado morto em cela do Presídio Central, em Porto Alegre; tinha 26 anos

Uma série de 13 fotografias pode revelar mais um crime ocorrido no período da ditadura militar brasileira (1964-1985). Imagens e documentos encontrados em 2011 no arquivo do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul por dois estagiários de história podem recontar o que os registros oficiais apontam como suicídio. Em 22 de abril de 1970, o motorista de táxi e militante de esquerda Ângelo Cardoso da Silva foi encontrado morto, aos 26 anos de idade, em uma cela do Presídio Central, em Porto Alegre.

O achado é dos alunos da Faculdade de História da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) David dos Santos e Graziane Righi. As fotos do corpo de Silva de joelhos, com um lençol envolto no pescoço e amarrado a uma janela basculante a 1,30 metro de altura, chamaram a atenção dos dois durante um trabalho de garimpo de documentos.

Guiados por uma lista de indenizados políticos, os jovens pesquisadores encontraram o processo de Silva. “Estava dentro de uma caixa com vários inquéritos de suicídio. Quando vimos as fotos, ficou evidente para nós que não parecia se tratar de suicídio”, disse a estudante.


Documentos do Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) de São Paulo, órgão subordinado ao Dops (Departamento de Ordem Política Social), principal órgão de inteligência e repressão durante a ditadura militar, divulgados em 1º de abril, mostram que regimes autoritários ficharam figuras públicas como o ex-jogador Pelé, o cantor Roberto Carlos, os apresentadores Silvio Santos e Hebe Camargo e o escritor Monteiro Lobato. As fichas e prontuários podem ser consultadas no site “Memória Política e Resistência”, vinculado ao Arquivo do Estado. Configura algumas personalidade fichadas pela ditaduraLeia mais Arte/UOL

As fotos viraram objeto de pesquisa e artigo na universidade. Os autos de necropsia feitos na época foram entregues ao legista Helio Antonio de Castro, que, reavaliando os exames cadavéricos feitos em 1970, chegou à conclusão de que há sinais evidentes no corpo de Silva que extinguem a possibilidade de suicídio.

Entre eles estão a ausência de um nó de amarra no lençol que marcasse seu pescoço; a improvável cena de enforcamento, já que o preso estava a uma baixa altura com os joelhos dobrados; e a impossibilidade de uma esganadura realizada pelo próprio preso.

Segundo Castro, as evidências levam a crer que duas pessoas torceram o lençol no pesçoco de Silva, em uma espécie de garrote, o asfixiando. Outras questões presentes no inquérito que também levantam dúvidas são os depoimentos das duas testemunhas do caso, dois agentes penitenciários que encontraram o corpo do taxista. Seus depoimentos foram colhidos três anos depois do episódio.


Comissão da Verdade investiga violações cometidas na ditadura35 fotos
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10.mai.2013 – O coronel reformado e ex-comandante do DOI-CODI em São Paulo Carlos Alberto Brilhante Ustra presta depoimento à Comissão da Verdade, em Brasília Sérgio Lima/FolhaPress

Em março deste ano, os arquivos de Silva foram apresentados à CNV (Comissão Nacional da Verdade), que deve iniciar uma investigação própria. Para Graziane, a importância de levantar a verdade deste caso tem a ver com a dúvida que paira em outras dezenas de mortes classifidas como suicídio.

“É importante que haja uma retratação pública e que se investiguem os outros 44 casos de suicídio entre os mortos e desaparecidos políticos em todo o país durante a ditadura militar no Brasil”, diz a estudante.

Quem foi

Ângelo Cardoso da Silva nasceu em 27 de outubro de 1943, na cidade gaúcha de Santo Antônio da Patrulha. Com 24 anos, iniciou os estudos e ingressou no movimento de luta armada M3G (referência a Marx, Mao, Marighella e Guevara).

Em 1969, Gustavo Germano (à esq.) e seus três irmãos posaram para este retrato de família na Argentina. Vários anos depois, eles acabariam sendo vítimas da chamada “”Guerra Suja”” do país, na qual cerca de 30 mil pessoas foram sequestradas, torturadas ou mortas pelos governantes militares do país, que tomaram o poder em um golpe em 1976. Muitos dos que foram capturados passaram a ser conhecidos como “”desaparecidos”” e seus restos mortais nunca foram encontrados 

Motorista de táxi, auxiliou na fuga em ao menos quatro ações de “expropriação bancária” no Rio Grande do Sul. As suspeitas sobre sua morte já haviam sido levantadas por outros ex-presos políticos, mas só agora as fotos do corpo vieram à tona.  Os pesquisadores encontraram apenas um irmão do taxista vivo, que autorizou a divulgação de seus documentos.

Há na história dos chamados “anos de chumbo” ao menos outros quatro casos de supostos suicídios e que, com o passar dos anos, foram se revelando uma farsa. Os mais famosos e emblemáticos são o do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e o do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, ambos no Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo.

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BBC Brasil: Livro sobre desaparecida política revela ao mundo Brasil ‘desconhecido’

Detalhe da ilustração da capa do livro K

Detalhe da ilustração da capa do livro K

Mônica Vasconcelos

Atualizado em  7 de junho, 2013 – 09:23 (Brasília) 12:23 GMT

Um livro que narra a busca de um pai por sua filha desaparecida política durante a ditadura militar no Brasil está surpreendendo editores estrangeiros ao revelar um capítulo pouco conhecido da História brasileira – ao menos no exterior.

Publicado no Brasil em 2011, o livro K, do escritor e cientista político paulistano Bernardo Kucinski, já ganhou traduções em inglês, espanhol e catalão, e será publicado também em alemão e hebraico.

Obra de ficção, o livro é baseado nas histórias reais do pai do autor, Majer Kucinski – o personagem K -, um judeu polonês que fugiu do nazismo e foi viver no Brasil, e da irmã do escritor, Ana Rosa Kucinski Silva.

Militante política e professora de química da Universidade de São Paulo (USP), Ana Rosa foi sequestrada e morta por agentes a serviço do governo militar. Seu corpo jamais foi encontrado.

O ex-delegado do Dops Cláudio Guerra confirmou, em entrevista ao jornalista Alberto Dines, exibida em 2012 pelo programa de TV Observatório da Imprensa, que recebeu o corpo de Ana Rosa, que teria sido morta em sessão de tortura, para ser incinerado.

Em entrevistas à BBC Brasil, intelectuais e pessoas envolvidas na publicação de K no exterior disseram que o livro chama a atenção ao revelar para o mundo, em um relato comovente e envolvente, o drama humano por trás da realidade violenta da ditadura militar no Brasil.

Em um momento em que a Comissão da Verdade se esforça para recuperar a história desse período, o lançamento internacional também contribuiria para aumentar a pressão externa sobre o governo brasileiro para que tome providências e puna os culpados, disseram.

Bem x Mal

A versão alemã de K será lançada pela editora berlinense Transit durante a Feira do Livro de Frankfurt, que neste ano estará homenageando o Brasil.

Segundo o editor, Reiner Nitsche, o foco em temas brasileiros fez com que ele recebesse muitas ofertas de obras do país para publicação. Mas nenhuma chamou tanto sua atenção como K.

“Nunca associamos histórias de sequestros e desaparecimentos ao Brasil. Pensávamos que essas coisas só tinham acontecido na Argentina e no Chile”.

“Outro ponto importante é a conexão com a história alemã. K nasceu na Polônia na década de 30 e era ativo politicamente, combatendo o antissemitismo. Por isso, foi preso e mais tarde teve de fugir para o Brasil. Anos depois, sua irmã foi morta pelos nazistas.”

Para Nitsche, no entanto, a principal justificativa para a decisão de publicar a obra na Alemanha é a forma como o livro aborda a temática política.

Em K, a comovente busca do personagem central por sua filha é narrada de vários pontos de vista. O leitor habita a mente do pai desesperado, do informante, da amante do torturador, da faxineira que limpa a casa onde os prisioneiros são torturados e mortos, dos ex-colegas da desaparecida na universidade e dos militantes clandestinos que lutam contra a ditadura, entre outros.

“O tipo de verdade que você tem nessa história política é muito raro de encontrar”.

“Isso é muito novo e interessante para nós, porque você percebe que a ditadura é cruel mas os militantes também podem ser cruéis, seus métodos são similares”.

Nitsche faz referência a um capítulo em que um militante político critica seu próprio líder por não ter permitido que os integrantes do grupo questionassem suas ações.

“O que os militantes estavam fazendo era suicida e alguns perceberam isso, mas não tiveram permissão de questionar ou de abandonar a luta”, disse.

“Se você quiser mudar a cabeça das pessoas, tem de publicar livros como esse, não histórias de bonzinhos e malvados”, acrescentou o editor. “O livro mostra a crueldade terrível da ditadura militar. Mas no decorrer da história, K se dá conta de quantas pessoas estão colaborando com a ditadura. O padeiro, a imprensa, a comunidade judaica em São Paulo”.

Nitsche disse que já recebeu comentários positivos da imprensa alemã sobre K e espera que o livro cause algum impacto no período do lançamento, no final de agosto.

Instrumento Político

A visão cheia de nuances que o livro de Kucinski oferece também mereceu elogios de uma especialista em Justiça de Transição da Oxford University, a professora Leigh Payne.

Comentando o lançamento, em março último, da tradução inglesa na Grã-Bretanha, a especialista disse ter gostado muito da conexão entre a vida do pai, seu passado de luta contra a opressão, e a vida secreta da filha.

“Ele não sabia que a filha estava levando adiante a luta dele”.

K é muito bom ao tentar mostrar que as vítimas da violência não eram necessariamente inocentes, mas também não eram uma ameaça”.

Para Payne, não há dúvida de que os militantes brasileiros não iam conseguir derrubar o regime. “Ainda assim, lutavam por igualdade e democracia e tinham uma visão patriótica do que o Brasil deveria ser”.

Segundo a especialista, um resultado positivo do lançamento internacional do livro é que ele pode funcionar como um instrumento de pressão por mudanças.

“A violência durante o governo militar no Brasil recebeu muito menos atenção internacional do que a ocorrida na Argentina ou no Chile e essa falta de interesse persiste hoje”.

A publicação de K fora do Brasil “é importante porque aumenta a consciência, no exterior, das violações aos direitos humanos ocorridas no Brasil durante a ditadura militar e faz crescer a pressão sobre o governo brasileiro para que faça algo a respeito”.

Payne lembrou que o governo brasileiro ainda não acatou a sentença, pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos, em 2010, exigindo que o Brasil investigue e puna os responsáveis pelas mortes de militantes no Araguaia.

Dois Desaparecimentos

A versão de K em hebraico deve chegar às lojas israelenses no início do próximo ano pela editora Carmel.

O contato com a editora foi intermediado pelo historiador israelense Avraham Milgram, que vive em Israel e conheceu o pai de Bernardo Kucinski.

“Uma das razões do sucesso desse livro é que pessoas de diversas culturas, países e regimes se identificam com o drama desse pai, é um tema universal”.

Mas K tem para os judeus uma dimensão que talvez escape ao público europeu e brasileiro, explicou.

O pai da desaparecida, Majer Kucinski, escritor e poeta com livros publicados no Brasil e em Israel, era um típico judeu da Europa Oriental, onde floresceu a cultura iídiche. A maioria dos judeus mortos pelos nazistas pertencia a essa cultura.

“Em sua devoção a essa cultura perdida, que existiu durante 800 anos na Polônia e foi erradicada, Majer se alienou dos filhos”, disse o historiador. “Isso talvez tenha facilitado a escolha de Ana Rosa pelo caminho que seguiu”.

Filme

Cientistas políticos no Brasil se perguntam as razões do desinteresse dos brasileiros em relação à história da ditadura militar no país.

K quase que chegou cedo demais”, disse Leigh Payne. Depois de anos estudando as políticas dos direitos humanos no Brasil e América Latina, ela acha que, para comover o público brasileiro, um livro como esse tem de vir junto com outras coisas:

Um trabalho sério e aprofundado da Comissão da Verdade, o resgate da imagem “negativa” das vítimas, mudanças no conceito de direitos humanos na sociedade brasileira e, quem sabe, algum sucesso nas tentativas de julgar os responsáveis pelos crimes.

Depois disso, “talvez, se alguém fizer um filme sobre o livro, com atores famosos nos papéis principais, os brasileiros irão ao cinema assisti-lo – e aí vão se comover e gostar muito”, concluiu a professora da Oxford University.

Bernardo Kucinski trabalhou na BBC Brasil (antigo Serviço Brasileiro da BBC) entre 1970 e 1974, período em que viveu em Londres.

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Reunião de Trabalho da Comissão Estadual da Verdade

Reunião aconteceu na sala de gestão do Palácio Iguaçu.

Reunião aconteceu na sala de gestão do Palácio Iguaçu.

A Comissão Estadual da Verdade realizou reunião de trabalho nesta quinta-feira,6, na sala de gestão do Palácio Iguaçu. Na pauta, discussão sobre os grupos de trabalho, planilha de oitivas, audiência pública em Foz do Iguaçu que acontecerá em julho,repositório digital da UFPR que irá condensar documentos históricos da época da ditadura, entre outros assuntos.

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Como estudantes ajudaram a reescrever a história de militante gaúcho morto na ditadura

Papéis localizados no arquivo do Tribunal de Justiça indicam que ex-taxista e militante de esquerda, cuja morte havia sido tratada como suicídio, pode ter sido assassinado em um caso semelhante ao do jornalista

Inquérito sobre a morte do ex-taxista e militante de esquerda Ângelo Cardoso da Silva, em 22 de abril de 1970, reúne 11 fotografias de seu suposto suicídio. Foto: Carlos Macedo/Especial

Inquérito sobre a morte do ex-taxista e militante de esquerda Ângelo Cardoso da Silva, em 22 de abril de 1970, reúne 11 fotografias de seu suposto suicídio.
Foto: Carlos Macedo/Especial

Sob o número 174/73, o inquérito de capa verde com letras batidas à máquina poderia ser apenas mais um entre os mais de 13 milhões de processos acumulados no Arquivo Judicial do Estado.

Não é. Esquecido desde a década de 1970 nas prateleiras do acervo, o documento localizado por dois estudantes de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) trouxe à tona indícios de mais um “falso suicídio” cometido durante a ditadura militar — à semelhança do que ocorreu com o jornalista Vladimir Herzog, que, na história contada pela ditadura, teria se enforcado.

O caso — publicado em reportagem do jornal O Globo — ocorreu em 22 de abril de 1970, portanto, antes da morte de Herzog, quando o ex-taxista e militante do grupo M3G (Marx, Mao, Marighella e Guevara) Ângelo Cardoso da Silva, então com 26 anos, foi encontrado morto na cela número 38 do Presídio Central de Porto Alegre. Ele teria, segundo a versão oficial, atentado contra a própria vida, ao se enforcar com a ajuda de um lençol. Não mereceu mais do que notas nos principais jornais da época.

A versão do suicídio agora é alvo da Comissão da Verdade. Passou a ser contestada com maior propriedade desde outubro de 2011, quando o estudante Davi dos Santos, 24 anos, encontrou o inquérito em meio a milhares de papéis guardados pelo Tribunal de Justiça.

À época, Santos era estagiário da equipe responsável por analisar o acervo — que vem sendo reestruturado — e determinar quais documentos deveriam ser preservados e quais poderiam ser descartados. Em uma de suas pesquisas, localizou a pasta com a identificação de Ângelo. Ao deparar com 11 fotos do suposto suicídio, percebeu que tinha algo valioso em mãos.

— Primeiro, tive um ataque de riso, porque eu sabia que era uma descoberta importante do ponto de vista histórico. Depois, comecei a chorar. Era só olhar para perceber que havia algo errado ali — conta o aluno da UFRGS.

Naquela mesma tarde, Santos procurou a colega Graziane Ortiz Righi, 28 anos, que também integrava o grupo, para dividir o achado. As imagens evidenciavam o fato de que o corpo de Ângelo estava ajoelhado.
Também indicavam que a janela da cela, onde havia sido amarrado o lençol, não ficava a mais de 1,30 metro do solo.
Análise de legista aponta falhas

Deteriorado pela ação do tempo, o inquérito foi restaurado pela historiadora Nelda Pereira de Oliveira, 68 anos, chefe do Núcleo de Arquivo Permanente do acervo judiciário, e guardado com cuidado. Dias depois, passou pelo crivo do professor Enrique Serra Padrós, da UFRGS, e chegou ao conhecimento de Suzana Lisboa, então integrante da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Foi Suzana quem ajudou os pesquisadores no

contato com familiares da vítima. Quando recebeu autorização para levar o caso adiante, Graziane procurou o legista Hélio Antonio Rossi de Castro para uma avaliação. O médico confirmou que o ex-taxista morreu por asfixia, mas ressaltou que dificilmente ele teria se matado. Não havia altura suficiente para a suspensão do corpo.

Em seu laudo, Castro destacou outro detalhe que colocaria em dúvida a tese do suicídio. Segundo ele, o estômago da vítima continha “alimentos em fase inicial de digestão”. O especialista então se questiona: por que alguém prestes a cometer um suicídio se alime

ntaria? Habitualmente, segundo ele, “há um estado depressivo tão importante antecedendo a decisão e o ato de se matar, que há perda do apetite alimentar”.

Em abril deste ano, Graziane apresentou a história de Ângelo, até então pouco conhecida, na 2ª Jornada de Estudos sobre Ditaduras e Direitos Humanos. Escolheu como título uma definição sugestiva: Herzog gaúcho. A Comissão Nacional da Verdade até ontem não tinha analisado o material.

Militante atuou em ação contra banco

Março de 1970. No ano em que a conquista do tricampeonato mundial pela Seleção brasileira encabeçava a propaganda do regime, Ângelo Cardoso da Silva fincava estacas na luta armada contra a ditadura. Cerca de um mês antes de ser preso, ele participou da e

xecução do plano de”expropriação” de uma agência do Banco do Brasil, em Viamão.

Considerado um membro periférico do M3G, Ângelo era do grupo de apoio do líder Edmur Péricles de Camargo. Dias antes do ato, ele e os companheiros se reuniram clandestinamente em uma chácara na Lomba do Pinheiro para planejar a ação armada. Motorista de táxi, foi escalado para ajudar na fuga.

O trabalho dele era deixar dois veículos à espera dos aliados em uma estrada secundária que ligava Viamão a Porto Alegre.

— O Ângelo participou da segunda etapa da fuga. Quando saímos do banco, partimos em dois carros. Depois, em outro ponto, mais distante, troca

mos. Embarcamos em outros carros que o Ângelo havia deixado para nós — recorda Ignez Maria Serpa Ramminger, codinome Martinha, que participou do ataque.

Ignez, integrante do grupo de resistência VAR-Palmares, explica que a expropriação foi feita em aliança com o M3G, liderado por Edmur e integrado por Ângelo.

— Esse caso do Banco do Brasil foi uma ação conjunta da VAR-Palmares com o M3G. No Rio Grande do Sul, nunca tínhamos feito uma ação armada. E o Edmur havia feito várias. Ele veio nos ensinar — recordou.

No dia do assalto, os guerrilheiros fugiram do Banco do Brasil e, quando chegaram ao local combinado, depararam com os dois veículos deixados por Ângelo: um Fusca e um Corcel.

— Todos nós (cerca de oito pessoas) fomos presos mais ou menos um mês depois da ação de Viamão. O Ângelo foi preso uma semana antes de mim. Sempre achamos que ele havia sido morto na tortura. Essa era a minha opinião e a de outros companheiros da época. Agora, encontraram essa foto para comprovar — afirma Ignez.
Em 24 de agosto de 1998, a Comissão Especial de Indenização do Rio Grande do Sul emitiu sentença sobre o caso de Ângelo. Os documentos anexos

ao processo relatam que ele foi preso em 6 de abril de 1970. Logo começou a ser torturado. A morte, ainda atribuída ao suicídio, foi registrada em 22 de abril de 1970. Como reparação simbólica, o irmão do “motorista”, Bento Cardoso da Silva, recebeu a indenização de R$ 30 mil na condição de sucessor legal.

— O importante era o reconhecimento. O familiar recebia um documento em que o Estado reconhecia os atos praticados contra determinadas pessoas, que eram os presos políticos da época — diz João Carlos Bona Garcia, que também estava detido no Presídio Central nos dias da morte de Ângelo e, anos depois, presidiu a Comissão Especial de Indenização.

Bento, hoje com 91 anos e morador de Q

uintão, contou ontem a ZH que a família desconhecia o envolvimento do irmão com organizações de esquerda:

— Não sabíamos de nada, foi uma surpresa para nós. Começou pelo táxi. Ele fazia corridas para o pessoal da esquerda. Eles andaram se envolvendo em um assalto a banco.

Daí, foram para cima dele. Filha de Bento, Beatriz da Silva Bonetto, 63 anos, recorda que o seu tio estava na casa da mãe, dormindo, quando os agentes da repressão chegaram para fazer a sua captura.
— Minha avó sempre dizia:”Tiraram meu filho vivo e trouxeram morto”. Ela sofreu muito — recorda Beatriz.

Índio Vargas: “Tudo foi apresentado como se fosse suicídio”

O jornalista Índio Vargas integrou a resistência à ditadura militar. Detido pelo regime, foi confinado no Presídio Central em uma cela contígua à de Ângelo Cardoso da Silva.

ZH — O senhor conheceu Ângelo?
Índio — Estava na cela ao lado da dele no Presídio Central. Nos conhecemos na cadeia. Quando nós vimos, a coisa toda foi muito tumultuada. Havia uma pessoa morta ao lado. Os militares queriam saber se eu tinha ouvido algum barulho.

ZH — O senhor ouviu ou viu algo estranho naquela ocasião?

Índio — Eu não ouvi.Se o sujeito vai se suicidar, ele não faz barulho. Não vi nada. Isso foi à noite. Quando acordamos, percebemos que ele não havia pego o café. A gente pegava ali mesmo, na parte da frente da cela.

ZH — Como souberam da morte?

Índio — Como ele não saiu para o café, chamamos o guarda. A porta foi aberta e ele estava lá, morto.

ZH — O senhor acreditou na hipótese do suicídio?

Índio — Ficaram dúvidas. O controle era rigoroso, foram muito duros conosco. Também havia paranoia de todas as partes. Às vezes nos tiravam de lá, depois voltávamos. Não se viu ele saindo aquela noite. Tudo foi apresentado como se fosse suicídio. Tinha um lençol lá. Ele estava enforcado, mas os pés estavam no chão.
Fonte- Zero Hora

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