Mostra “Cinema pela Verdade” chega a Curitiba

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Três filmes fundamentais fazem parte da mostra “Cinema pela Verdade”, realizada pelo Instituto Cultura em Movimento em parc
eria com a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.  Com apoio do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça, os três filmes serão exibidos em Curitiba.

No dia 16 de julho, terça-feira, será a vez de “No”, produção chilena dirigida por Pablo Larraín, sobre o plebiscito convocado pelo ditador Augusto Pinochet. O filme será exibido no Anfi-100 (Universidade Federal do Paraná, rua General Carneiro, Ed. Dom Pedro I, primeiro andar), às 19 horas.

No dia 23, “Eu me lembro”, de Luiz Fernando Lobo, documentário sobre cinco anos das Caravanas da Anistia, com depoimentos de ex-presos políticos. Também no Anfi-100, às 19 horas.

“Marighella”, de Isa Grinspum Ferraz, retrata a trajetória daquele que foi considerado pelos generais ditadores o “inimigo público número um”. O filme ganhou o prêmio de melhor longa metragem da Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, em 2012. O filme será exibido no dia 01 de agosto, quinta-feira, às 19 horas, no auditório da Reitoria da UFPR.

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Fonte- Fórum Verdade

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OAB cobra do governo providências sobre condenação da OEA no Araguaia

 Marcus Vinicius enviou ofício ao ministro da Justiça indagando sobre providências quanto à sentença (Foto: Eugenio Novaes)

Marcus Vinicius enviou ofício ao ministro da Justiça indagando sobre providências quanto à sentença
(Foto: Eugenio Novaes)

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) quer saber que providências foram adotadas pelo governo brasileiro para cumprir a sentença proferida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) em dezembro de 2010, condenando o Brasil por não ter punido os responsáveis por mortes e desaparecimentos na Guerrilha do Araguaia. O questionamento da entidade foi feito nesta quarta-feira pelo presidente nacional da OAB, Marcus Vinicius Furtado, em ofício ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

“Passados quase três anos da divulgação da sentença que condenou o Estado Brasileiro, a sociedade e, especialmente, as vítimas e familiares, esperam a adoção de providências para seu integral cumprimento, conforme artigo 68 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, a qual aderiu o Estado Brasileiro”, afirma o presidente nacional da OAB no documento enviado ao ministro da Justiça.

Na sentença, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA considerou as disposições da Lei de Anistia brasileira não podem impedir a investigação e a sanção aos responsáveis pelas graves violações de direitos humanos. O Tribunal concluiu que o Estado Brasileiro é responsável pelo desaparecimento de 62 pessoas, ocorrido entre 1972 e 1974, na Guerrilha do Araguaia.

No ofício ao ministro José Eduardo Cardozo, Marcus Vinicius Furtado afirma que, como o Brasil figurou como réu no processo (Gomes Lund e outros v. Brasil – Caso Guerrilha do Araguaia) e foi condenado após o devido processo legal, o país “deve, portanto, cumprir integralmente a mencionada decisão, razão pela qual solicito informações acerca das providências adotadas nesse sentido”.

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Brasília sedia reunião técnica sobre a exumação de Jango

A Comissão Nacional da Verdade (CNV), a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) e o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul (MPF-RS) se reúnem nesta terça-feira (9), em Brasília, com peritos nacionais e estrangeiros, com a família Goulart e com a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro. No encontro serão tratados aspectos técnicos da exumação dos restos mortais do ex-presidente Joã

Caixão com o corpo de João Goulart é carregado pelas ruas de São Borja, em 1976. Corpo nunca foi autopsiado. Foto: Arquivo/ O Globo

Caixão com o corpo de João Goulart é carregado pelas ruas de São Borja, em 1976. Corpo nunca foi autopsiado. Foto: Arquivo/ O Globo

o Goulart, morto na Argentina em 1976 e sepultado em São Borja, Rio Grande do Sul.

A CNV, a SDH e o MPF entendem que a exumação é um dos meios de prova necessários para tentar desvendar se a morte de João Goulart ocorreu por meio da troca de medicamentos que o ex-presidente tomava para problemas no coração, conforme relata o ex-agente secreto uruguaio, Mario Barreiro Neira, preso no Brasil.

A exumação foi solicitada publicamente pela família Goulart durante audiência pública realizada pela Comissão Nacional da Verdade em 18 de março de 2013 em Porto Alegre.

A versão de Barreiro é corroborada por documentos que sugerem a existência de um plano internacional para eliminar líderes de

oposição às ditaduras latino-americanas do cone-sul. Estes documentos e planos são mostrados, por exemplo, no documentário Dossiê Jango, do cineasta Paulo Henrique Fontenelle.

Além disso, o corpo de Jango foi sepultado sem passar por autópsia. Documentos comprovam, ainda, que ex-presidente foi amplamente monitorado em seu exílio, especialmente após articular a Frente Ampla, com o ex-presidente Juscelino Kubitscheck e um ex-ferrenho opositor de ambos, Carlos Lacerda. Os três morreram no intervalo de um ano: JK, em agosto de 76, Jango, em dezembro de 76, e Lacerda, em maio de 1977. O caso de JK tambémé investigado pela CNV.

Da reunião em Brasília participarão os peritos do Instituto Nacional da Criminalística da Polícia Federal, peritos estrangeiros convidados para participarem dos trabalhos, e integrantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que cumprirá o papel de observador independente e tem experiência em casos do gênero, tendo participado da exumação de Salvador Allende, no Chile.

Esta será a segunda reunião oficial sobre o caso: a primeira ocorreu em Porto Alegre, em 29 de maio.O laudo resultante do trabalho pericial deverá integrar o relatório da Comissão Nacional da Verdade a respeito do caso e poderá servir como prova nas investigações judiciais existentes na Argentina e no Brasil a respeito do caso.
Fonte – Comissão Nacional da Verdade

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Simpatizante do regime militar e ativistas ‘disputam’ praça no RS

Ativistas dos direitos humanos e simpatizantes do regime militar travam uma disputa no terreno onde funcionava uma unidade do Exército em Porto Alegre. A ONG Movimento de Justiça e Direitos Humanos, com o apoio da prefeitura da capital gaúcha, vai instalar nas próximas semanas no local, na região central da cidade, uma placa informando que ali existiu um quartel onde foram praticadas torturas e prisões ilegais.

Placa será instalada na região central da Porto Alegre,informando que ali existiu um quartel onde foram praticadas torturas.

Placa será instalada na região central da Porto Alegre,informando que ali existiu um quartel onde foram praticadas torturas.

A iniciativa faz parte do projeto “Marcas da Memória”, que prevê a indicação pública de lugares usados pela ditadura para cometer crimes.

Curiosamente, na semana passada o vereador João Carlos Nedel (PP), conhecido por defender o regime militar, inaugurou em solenidade um novo nome para o trecho de rua que passa em frente ao local: General Zenóbio da Costa, em homenagem ao fundador da polícia do Exército, morto em 1962.

Nedel foi o autor de um projeto instituindo o nome. A inauguração contou ainda com a presença de militares da reserva e da ativa.

O prédio onde funcionava o quartel já não existe mais. Na placa que conta o histórico do local, os ativistas pretendem informar que ali Carlos Lamarca, um dos mais famosos opositores do regime, permitiu a fuga de um oficial que havia sido detido.

No ano passado, manifestantes que pedem a punição de crimes da ditadura fizeram um protesto na praça e colaram adesivos com referências às torturas ocorridas no quartel.

O ativista Jair Krischke, do Movimento de Justiça, diz que a iniciativa do vereador de batizar a via em frente é uma “reação” ao plano de sinalizar locais usados pela repressão na cidade.

Também critica a homenagem a um militar em um lugar que ficou conhecido por crimes do regime.

Procurado pela reportagem, Nedel, 71, diz que desconhece o “Marcas da Memória” e que nem sabia da inauguração do monumento pela ONG. “Aquela rua não tinha nome e foi uma forma de homenagear o Exército. Os militares ficaram muito satisfeitos”, diz.

Para ele, o país “perde tempo” com investigações sobre aquele período. Em 2011, Nedel ajudou a barrar iniciativa de vereadores do PSOL que propunha tirar de uma grande avenida de Porto Alegre o nome do primeiro presidente do regime, Castello Branco.

Fonte – Correio do Estado

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Filme “Dossiê Jango” estreia nos cinemas

A sombra da suspeita ainda paira sobre a morte de João Goulart (1919 –1976). Vivendo exilado na Argentina, Jango sofreu um ataque cardíaco fatal no dia 6 de dezembro de 1976 – mas as circunstâncias políticas e históricas em torno do desaparecimento do ex-presidente sempre levantaram dúvidas quanto à versão oficial. Documentário que investiga a tese de atentado contra o político gaúcho, Dossiê Jango (2012) estreia às vésperas da exujango2mação que pode esclarecer esse mistério.

O longa-metragem que entra em cartaz hoje é uma produção do Canal Brasil e tem direção de Paulo Henrique Fontelle, realizador de Loki – Arnaldo Baptista (2008), cinebiografia do músico fundador dos Mutantes. Com argumento de Paulo Mendonça e Roberto Farias, Dossiê Jango surgiu a partir do projeto ainda em andamento de Farias de dirigir um filme de ficção sobre o suposto assassinato de João Goulart. O material coletado – entrevistas feitas em três países com políticos, jornalistas e historiadores, documentos inéditos do serviço de inteligência uruguaio e do Dops – acabou rendendo antes o documentário de Fontenelle.

– Foi um trabalho árduo de três anos. A feitura do filme foi uma investigação detetivesca: a gente pegava uma entrevista de alguém que citava uma pessoa no Uruguai, ia até lá, e essa pessoa indicava outra que estava na Argentina e tinha um determinado documento. Quando a gente viu, tínhamos mais de 200 horas de entrevistas. Foi difícil organizar isso tudo para fazer um painel o mais amplo possível sobre esse caso ainda inexplicado – disse o diretor e montador, que esteve na Capital no sábado passado, acompanhando a exibição de Dossiê Jango no projeto Cineclube ZH.

Entre os reveladores depoimentos do filme, destaca-se o de Mario Neira Barreiro, ex-agente do serviço de inteligência do Uruguai, que cumpre pena na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas desde 2003. Ele é um dos que afirmam que João Goulart foi assassinado pela polícia brasileira, com a colaboração dos uruguaios, em um complô do qual diz ter feito parte. Segundo Barreiro, Sérgio Fleury, delegado do Dops de São Paulo, deu a ordem para a execução de Jango, com autorização do então presidente brasileiro Ernesto Geisel. O araponga assegura ainda que foram colocados comprimidos com uma substância química letal entre os remédios de uso regular do ex-presidente, a fim de provocar um infarto fulminante.

Dossiê Jango relembra também a figura do líder trabalhista são-borjense no conturbado cenário político nacional dos anos 1960 – desde que assumiu a presidência em 1961 com a renúncia de Jânio Quadros até o exílio no Uruguai e na Argentina depois do Golpe de 1964. Premiada no Festival do Rio de 2012 e na Mostra Tiradentes deste ano, a produção de Fontenelle chega aos cinemas na esteira de outro premiado documentário sobre o golpe militar: O Dia que Durou 21 Anos (2012), de Camilo Tavares.

– É uma dívida que se tem com o povo brasileiro: um presidente que morre no exílio em circunstâncias muito suspeitas. Temos que investigar! – sustenta Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Diretos Humanos e um dos entrevistados do filme, acrescentando acreditar que a exumação dos restos mortais de Jango seja feita até o final do ano.

Fonte- Zeho Hora

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Carta de Teresa Urban para Ismael

O servente de pedreiro Ismael da Conceição: tortura 40 anos depois.

O servente de pedreiro Ismael da Conceição: tortura 40 anos depois.

Teresa Urban, a jornalista, foi presa e torturada durante o regime militar por suas posições ideológicas. Ela mandou uma carta para o garoto Ismael, de 19 anos, torturado pela PM no Uberaba em março de 2012.

Veja abaixo.

Caro Ismael,

Somos moradores da mesma cidade mas não nos conhecemos. Posso ter passado por você, ou você por mim, numa rua qualquer, mas nem nos olhamos, como é costume por aqui. Ou, então, vi você passar de bicicleta e mais uma vez pensei na vontade que tenho de fazer o mesmo, andar de bicicleta pela cidade, mas sempre deixo para depois. Mesmo assim, conheço bem seu olhar na foto publicada na Gazeta do Povo de terça-feira, dia 6. Já vi esse olhar antes, muitas vezes, mistura de perplexidade, humilhação, medo, dor e raiva (a raiva bem escondida para ninguém perceber) em quem foi agredido, espancado ou torturado. Eu mesma já tive esse olhar um dia.

Por essas coisas todas – e porque você tem a idade de meu neto – quero te contar uma história (coisa que as avós adoram fazer).

Em 1972, fui presa e levada para a Delegacia de Vigilância e Captura (não sei se ainda existe). Ficava na Rua Barão do Rio Branco, onde depois foi instalado o Museu da Imagem e do Som e durante muito tempo imaginei se os sons e as imagens guardadas nesse museu eram os das celas que ficavam na parte de trás do prédio.

Fui colocada na cela com umas 20 mulheres. Todas nuas, amontoadas. Havia também uma garota muito jovem. O que elas tinham feito? Vadiagem e atentado ao pudor, me explicaram. Eram prostitutas que, dia sim, dia não, eram detidas durante a madrugada e soltas no final da tarde. De tempos em tempos, os policiais jogavam água dentro da cela, segundo eles, para esfriar os ânimos.

A mangueira era grande como as usadas pelos bombeiros, e o jato feria a pele. Quanto mais as mulheres gritavam, mais forte era o jato. Quando a situação ficava insuportável, elas ofereciam a menina aos policiais, garantindo que era virgem. Mesmo com todo aguaceiro, o calor era insuportável e quando pediam água, os policiais traziam um balde e um caneco. Antes de entregá-lo às mulheres, urinavam dentro.

No final do dia, as mulheres eram liberadas. Pegavam as roupas guardadas num vão no alto da cela, se vestiam e saiam, levando junto a menina. Já era rotina. Em alguns dias, tudo isso voltaria a acontecer e ninguém, lá fora, saberia. Elas não contariam, é claro, e mesmo que contassem, quem iria ouvir?

Já tinha visto e sofrido maus tratos – afinal, eu era presa política – mas foi ali que compreendi que a tortura praticada nos quartéis durante a ditadura militar era só um prolongamento do que acontecia diariamente nas delegacias deste país. É verdade que o regime militar facilitou as coisas porque, se os homens fortes do pais permitiam a tortura, a morte e faziam desaparecer quem ousava levantar a voz, então “liberou geral”. Por isso, ninguém temia ser censurado ou punido por isso.

Gostaria de terminar a história assim: voltou a democracia, houve uma rigorosa investigação sobre os crimes cometidos durante a ditadura e todos os responsáveis foram punidos. Aí, acabaria o “liberou geral” e ninguém, em nenhuma delegacia, ia ter coragem de colocar a mão num preso porque saberia do risco. Aí, os policiais pensariam duas vezes antes de bater num menino de rua ou num garoto tatuado ou num jovem trabalhador negro numa bicicleta porque a tortura – qualquer tipo, em qualquer grau – foi banida do pais. Afinal a Constituição que conquistamos com tanto esforço em 1988 diz que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.

Isso não aconteceu, Ismael, e 40 anos depois do começo de minha história, os velhos hábitos herdados da Inquisição portuguesa e praticados por séculos contra o africanos escravizados aparecem no seu olhar e na história contada nas páginas do jornal.

Mas então, por que estou escrevendo? Só para aumentar sua inquietação? Não, Ismael, escrevo para dizer que isso pode e precisa mudar. Exige coragem – que você e sua família tiveram – e exigem um compromisso da sociedade. O silêncio foi rompido pela imprensa e pela OAB. Agora, é preciso ir adiante. É preciso localizar os quartos dos horrores, onde é possível espancar uma pessoa, dar choques, sufocar com um saco plástico e ninguém mais, além dos algozes, fica sabendo. São estúdios especiais à prova de som, onde o terror reina? Existem máquinas de choque (talvez herdadas dos quartéis) ou usa-se a instalação elétrica comum, com fios descascados? Ninguém mais sabe ou ninguém se importa?

Sem responder a essas questões e punir que fez, quem viu, quem permitiu, quem se calou, não há política de segurança possível. Precisamos construir uma nova história. Para “congelar o crime” é preciso saber quem são os criminosos e a primeira lição básica está na própria Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

Paz e bem, Ismael, para você e seus familiares.

 

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Há 50 anos, eles já protestavam. Hoje, comemoram a volta às ruas

Eles participaram das principais manifestações contra a Ditadura Militar, em Vitória e em outros Estados, viveram na pele a tortura e a repressão da polícia, e hoje comemoram a volta da população às ruas. Líderes estudantis nas décadas de 60 e 70, Iran Caetano, 67 anos, Jussara Martins Albernaz, 66, e Francisco Celso Calmon, 65, analisam a potência que voltou a brotar das ruas. “Não era essa a juventude que diziam que só ficava no Facebook?”, provoca Jussara, que f

Jussara Martins foi vice- presidente da Une na época da ditadura.

Jussara Martins foi vice- presidente da Une na época da ditadura.

oi vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Impressionados com o que têm acompanhado ao longo das últimas semanas, eles se reconhecem nos jovens de hoje, que saem de casa com seus cartazes para dizer o que está entalado na garganta, e dizem que as ações da polícia são uma herança da repressão que viveram.

O momento político é outro, claro, mas até mesmo algumas bandeiras são iguais às do passado, como explica Chico Celso – como é mais conhecido o atual dirigente estadual do PT e coordenador do Fórum Direito à Memória e à Verdade.
Passe livre
“Naquela época, pouco antes do Golpe de 64, já reivindicávamos o passe livre para os ônibus e bondes de Vitória. A questão do transporte público sempre mobilizou os estudantes, porque sempre houve superlotação e tarifas altas”, diz.

Chico foi membro do grêmio estudantil do Colégio Estadual e também atuou na União Estadual dos Estudantes Secundaristas. Conta que, na época, também lutou para que o colégio tivesse uma banda de fanfarra. “Assim como hoje, tinhamos as bandeiras de luta gerais e as mais específicas”, explica.

Repressão
Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 17 anos, um ano após o golpe militar, e lá conheceu a repressão violenta. Foi preso em 1969 e ficou em cárcere privado por um ano. Sofreu torturas físicas e psicológicas até ser solto para tratar-se de uma hepatite.

Para ele, as ações de repressão da Polícia Militar de agora mostram claramente que ela não está preparada para respeitar os direitos do cidadão. “A PM é um

a das piores heranças da Ditadura Militar. Foi estruturada para a guerra e não para respeitar o estado democrático. Reage e provoca reações de guerra nas ruas”.

Chico conta que sofreu muito, mas que nunca abandonou a utopia de viver em um mundo igualitário, justo e solidário. “Quando vejo as manifestações de hoje, penso que tudo o que passei valeu a pena. As pessoas estão cansadas desse sistema político esclerosado e querem mais mecanismos de participação direta. O povo quer falar e está se fazendo ouvir. É um desejo de lutar que não deixa de ser uma herança do nosso tempo”, diz.

Hoje professora do programa de pós-graduação em Educação da Ufes, Jussara Martins conta que foi perseguida pela polícia e que chegou a sair do país para proteger-se do regime militar. Ela participou do histórico Congresso da UNE em Ibiúna (Minas Gerais), em outubro de 1968, onde foi presa com centenas de outros estudantes de todo o país.

“Essa foi só uma das várias vezes em que fui presa naquele período. Fui torturada e tive que me mudar diversas vezes. Nem mesmo andar na rua tranquilamente era possível”, diz.
No último dia 20, quando ocorreu a primeira manifestação em Vitória, ela foi à Ufes
acompanhar a movimentação das pessoas na concentração. “Fiquei impressionada de ver os jovens fazendo seus cartazes com tanta seriedade. Vejo muita contradição nas bandeiras do movimento, mas acho que, no fim, o que todo mundo dese

ja é que seus impostos sejam revertidos em qualidade de serviços. Agora, precisamos observar como tudo isso vai se traduzir nas próximas eleições”, diz.

Membro da direção estadual do PC do B, o médico Iran Caetano acredita que o movimento de agora não está prestes a acabar. “Há muitos proble

mas crônicos que precisam de solução no país, e talvez isso explique a falta de bandeiras orientadoras. Mas acredito que esse movimento vai amadurecer e render muitos outros frutos”.

Iran foi membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Ufes no final da década de 60 e perdeu as contas de quantas vezes foi preso durante o regime militar. “Fui obrigado a fugir por cinco anos. Morei em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Belém do Pará e na floresta amazônica”, lembra.

Diz que esperava há muitos anos ver surgir o movimento de agora e que acredita na potência dele para promover a reforma política e melhorias na saúde e no transporte público. “Não coloco nossos problemas na conta de um ou outro presidente. Há muitas questões adormecidas há décadas, e essa é a hora de mudá-las”.

Fonte- Gazeta Online

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À Teresa Urban, por Ivete Caribé da Rocha

À Teresa Urban:

Teresa não era só a companheira de lutas e amiga amorosa de qualquer hora. Era sobretudo, a referência ética, política e a força para seguir nossas lutas.

Guardo uma lembrança marcante de sua personalidade. Teresa era doce e meiga com os jovens e as crianças, os humildes e injustiçados e sabia ser muito dura com os arrogantes. Isso ficou bem claro naquela carta pública que escreveu a um jovem morador do bairro Uberaba, torturado por engano pela Policia Militar, que me permito citar alguns trechos:

“….

Por essas coisas todas – e porque você tem a idade de meu neto – quero te contar uma história (coisa que as avós adoram fazer).
Em 1972, fui presa e levada para a Delegacia de Vigilância e Captura (não sei se ainda existe). Ficava na Rua Barão do Rio Branco, onde depois foi instalado o Museu da Imagem e do Som e durante muito tempo imaginei se os sons e as imagens guardadas nesse museu eram os das celas que ficavam na parte de trás do prédio.

Fui colocada na cela com umas 20 mulheres. Todas nuas, amontoadas. Havia também uma garota muito jovem. O que elas tinham feito? Vadiagem e atentado ao pudor, me explicaram. Eram prostitutas que, dia sim, dia não, eram detidas durante a madrugada e soltas no final da tarde. De tempos em tempos, os policiais jogavam água dentro da cela, segundo eles, para esfriar os ânimos.

A mangueira era grande como as usadas pelos bombeiros, e o jato feria a pele. Quanto mais as mulheres gritavam, mais forte era o jato. Quando a situação ficava insuportável, elas ofereciam a menina aos policiais, garantindo que era virgem. Mesmo com todo aguaceiro, o calor era insuportável e quando pediam água, os policiais traziam um balde e um caneco. Antes de entregá-lo às mulheres, urinavam dentro.

Já tinha visto e sofrido maus tratos – afinal, eu era presa política – mas foi ali que compreendi que a tortura praticada nos quartéis durante a ditadura militar era só um prolongamento do que acontecia diariamente nas delegacias deste país. É verdade que o regime militar facilitou as coisas porque, se os homens fortes do pais permitiam a tortura, a morte e faziam desaparecer quem ousava levantar a voz, então “liberou geral”. Por isso, ninguém temia ser censurado ou punido por isso.

Sem responder a essas questões e punir quem fez, quem viu, quem permitiu, quem se calou, não há política de segurança possível. Precisamos construir uma nova história. Para “congelar o crime” é preciso saber quem são os criminosos e a primeira lição básica está na própria Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

 

Acho que não preciso dizer mais nada, a não ser que você querida Teresa, está presente no mais profundo de meus ideais e nos meus pensamentos diários.

Até um dia querida Teresa.

Ivete Caribé da  Rocha

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Manifestantes em Foz do Iguaçu promoveram escracho contra o torturador Mario Espedito Ostrovski

Dezenas de militantes fizeram um escracho na frente do prédio onde trabalha o advogado Mario Espedito Ostrovski, nesta sexta-feira, 28, em Foz do Iguaçu. Escracho é uma denúncia e revelação do local de moradia e trabalho onde os torturadores que continuam soltos e sem julgamento de suas ações durante a ditadura militar.

O ex-agente da repressão,o advogado Mario Espedito Ostrovski, teria deixado a cidade Mario Espedito Ostrovsky

O ex-agente da repressão, advogado Mario Espedito Ostrovski, teria deixado a cidade.

Os jovens fizeram o manifesto, organizado com apoio do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP), em frente ao Edifício Metrópole, onde Ostrovski possui escritório de advocacia. Eles colaram uma faixa gigante e vários cartazes na fachada do prédio, localizado na Travessa Cristiano Weirich, no centro. Verdade, memória e justiça foram as principais palavras de ordem.
O presidente do CDHMP, Aluízio Palmar, contou o motivo do escracho público. Durante audiência da Comissão da Verdade realizada aqui na cidade, duas pessoas denunciaram o Mario Espedito Ostrovski como torturador, entre elas a professora Isabel Fávero.
“Fizemos então essa denúncia em forma de protestos para expor para todas as pessoas que essa pessoa, membro da Ordem dos Advogados do Brasil, hoje uma pessoa ‘doce’, na verdade é um torturador que cometeu crimes no 34º Batalhão de Infantaria do Exército. E como todo criminoso deve ser julgado”, relatou.
Eis algumas das mensagens levadas para as ruas: “O Brasil é o único país da América Latina que não julgou criminalmente quem torturou e matou durante a ditadura”, “pela abertura dos arquivos da ditadura”, “tortura nunca mais”, “para que não se esqueçam, para que nunca mais aconteça”, “por nossos mortos um minuto de silêncio e uma vida inteira de combate”.
Depoimento Isabel – Isabel foi presa e torturada. À Comissão da Verdade disse que recebeu choque elétrico nos mamilos, genitálias, e extremidades do corpo. Estava grávida de 2 meses e, dada violência sofrida, sofreu um abordo. Além das violências físicas, sofreu violência verbal e psicológica. Não recebeu nenhum tipo de assistência.

Sangrou durante dias, sem a possibilidade de fazer qualquer tipo de higiene. A situação além de dores, provocou mal cheiro, o que irritava os militares, que motivados pela irritação agrediam mais Isabel. Era chamada de vagabunda, vadia, nojenta, e culpada pelo que o marido estava sofrendo.

Seu marido André também foi preso e torturado. Ameaçado de morte (terror), espancado. Os dois ficavam separados o que aumentava o desespero de ambos, pois apenas tinham acesso aos gritos e gemidos um do outro. Isabel relata que Lacaito carregava uma corrente com uma caveira pendurada na ponta, onde os nós delas representavam a morte de comunistas. Parte dos soldados não aprovavam o que estava acontecendo. Contudo, estavam coagidos pelo poder instituído.
Análise – O reitor da Unila (Universidade Federal da Integração Latino Americana), cientista social, Helgio Trindade, também estava presente na manifestação. Ele classificou o protesto como uma repulsa às torturas e um estímulo à memóriaa. Na opinião dele, o problema tem origem na anistia política em 1979 no Brasil, que no fundo um pacto entre “vencidos e vencedores”.

“A tendência é que muitos fatos políticos importantes sejam esquecidos no Brasil. Em outros países, como Uruguai, Chile e Argentina, o julgamento de torturadores, inclusive com prisão reavivo mais, geraram museus, memorais. Atos simbólicos para tortura nunca mais voltar”, analisou.
Agressão – O estudante Allan Camargo fez outra denúncia contra o advogado, envolvendo uma agressão física ocorrida na manhã desta sexta-feira, 28, na Avenida Brasil. A queixa foi registrada num boletim de ocorrência na 6ª Subdivisão Policial (SDP).
“Enquanto colávamos um cartaz na Avenida Brasil, uma senhora chegou e perguntou o que era. Eu expliquei que se tratava de uma denúncia contra torturadores. Então ela arrancou o cartaz da minha mão e me agrediu com um soco no rosto. Nisso um senhor me segurou pelo braço e roubou os cartazes. Posteriormente fiquei se tratava da filha do Espedito e do próprio Espedito”, narrou.

Fonte- Megafone

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Ex-soldado relata a Comissão da Verdade tortura durante ditadura

Uma vítima de tortura apresentou-se na sexta-feira (28) espontaneamente para prestar declarações à Comissão Nacional da Verdade, em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná. Jorge Borges, 69 anos, era soldado e diz ter sido perseguido, preso e torturado no Batalhão do Exército por manter amizade com militantes camponeses do Grupo dos 11 – uma organização de esquerda. Ele prestou depoimento a membros da comissão que estavam acompanhados protestofozpor sete testemunhas. O relato ocorreu na tarde desta sexta após o encerramento da audiência pública na cidade.

Além de Borges, a comissão também ouviu, em depoimento reservado após a audiência, Otávio Rainolfo da Silva, ex-agente da repressão. Em relatos anteriores, Rainolfo admitiu ter dirigido o veículo que levou seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) ao interior do Parque Nacional do Iguaçu, local onde cinco deles foram mortos, em 1974. Ele nega ter atirado no grupo formado pelos irmãos Daniel e Joel Carvalho, Víctor Ramos, José Lavéchia e o estudante argentino Enrique Ruggia.

Conhecido como ‘Chacina do Parque Nacional do Iguaçu’ o caso é um dos que mais marcaram o período da ditadura na tríplice fronteira. Também fazia parte do grupo o ex-tenente do Exército Onofre Pinto, assassinado no Batalhão do Exército em Foz do Iguaçu após ter se negado a colaborar com o regime.

Dos quatro ex-agentes da repressão convocados pela comissão, apenas Rainolfo foi ouvido. Outro ex-agente acusado, o advogado Mario Espedito Ostrovski, teria deixado a cidade. Ele é apontado como autor de torturas praticadas contra a professora Izabel Fávero, e seu cunhado, Alberto Fávero, no Batalhão do Exército em Foz.

Protesto

Na manhã desta sexta, o escritório de Ostrovski foi alvo de um protesto conduzido por militantes do Centro de Direitos Humanos e estudantes. Um dos estudantes, Alan Camargo, diz ter sido agredido por parentes do advogado quando colava cartazes na frente do edifício onde Ostrovski trabalha e registrou boletim de ocorrência da Polícia Civil. A reportagem da Gazeta do Povo tentou entrar em contato com Ostrovksi, mas não conseguiu.

A Justiça Federal negou pedido da Comissão Nacional da Verdade, interposto pelo Ministério Público Federal, para determinar a condução coercitiva dos ex-agentes que não compareceram à audiência. No entanto, eles ainda podem ser responsabilizados por crime de desobediência.

Na avaliação do professor e presidente estadual da Comissão da Verdade, Pedro Bodê, a audiência foi um sucesso e atingiu boa parte dos objetivos que se pretendia. “Marcou simbolicamente o papel de Foz do Iguaçu e foram reveladas pessoas que não haviam falado”, diz.

No total foram ouvidas 10 testemunhas.
Bodê diz que a comissão vai continuar a colher depoimentos e montar um arquivo com vistas ao relatório final que será entregue em março do próximo ano. A próxima audiência, ainda sem data definida, deve ocorrer no município de Apucarana.

Fonte- Gazeta do Povo

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