Governo cria clínicas para vítimas da ditadura militar

O governo vai instalar clínicas de apoio psicológico e oferecer tratamento a vítimas da ditadura para que superem traumas gerados pelas violações ocorridas naquele período. A intenção é também dar suporte emocional para que possam prestar depoimento na Comissão da Verdade. O atendimento tem como público-alvo ex-perseguidos políticos, seus familiares e de desaparecidos pelo regime militar. O projeto “Clínicas do Testemunho” é uma iniciativa da Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça.

“Sem esse suporte psicológico pode ser traumatizante essa volta ao passado. É um retorno doloroso e que pode desestabilizar. É uma angústia permanente para quem não encontrou até hoje seus entes desaparecidos. Assim como para aquele que passou por torturas. Ficaram marcas muito profundas e não é fácil falar sobre isso”, explicou a psicóloga Vera Vital Brasil, que há vinte anos atende familiares e ex-presos políticos.

O governo lançará o edital esta semana e será aberto para psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e entidades não governamentais que atuem em programas que oferecem esse tipo de atendimento. As clínicas e os serviços deverão funcionar a partir de 2013 e têm um orçamento de R$ 3 milhões. Cada projeto apresentado poderá apresentar custo que varia de R$ 50 mil até R$ 600 mil.

“É uma lacuna no nosso programa de reparação integral dessa pessoa. Já asseguramos a reparação moral, com o pedido de desculpa do Estado no momento da anistia, e a reparação econômica. Mas faltava esse terceiro eixo, que é a reparação psicológica”, afirmou Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia e organizador do programa.

O grupo Tortura Nunca Mais do Rio é precursor nesse tipo de projeto no Brasil. Desde 1991 dispõe do serviço e atende hoje 93 pessoas, sendo que 80% das pessoas são ex-perseguidos ou familiares. O projeto atende também vítimas de hoje da violência do Estado. A psicóloga e ex-presa política Cecilia Coimbra coordena o trabalho.

Cecilia conta que no início do projeto atendia mais a familiares do que os próprios perseguidos pela ditadura, que tinham, e ainda têm, dificuldade de falar desse assunto. “O familiar tem muita necessidade de falar. A tortura produz o silenciamento, produz o esquecimento. E o processo de transformação se dá por meio da fala. É uma dor que está no corpo das pessoas, ainda que invisível. É preciso trabalhar isso e evitar que caiam num processo de vitimização de ser um pobre coitado. O trabalho é mostrar que não somos vítimas, mas sobreviventes”, disse Cecilia, que elogiou a iniciativa do governo.

Fonte- O Globo

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/07/12/governo-cria-clinicas-para-vitimas-da-ditadura-militar/

Convite para Plenária Estadual do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça no dia 14 de julho 2012.

Plenária estadual

O Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça fará uma Plenária Estadual, no dia 14 de julho, para debater a ampliação do movimento. Estão em pauta a criação da Comissão Estadual da Verdade, a interiorização das iniciativas, o Observatório de Direitos Humanos e um roteiro de mobilizações.

A Plenária será realizada na sede da APP-Sindicato (avenida Iguaçu, 880), em Curitiba, das 9 horas às 17 horas. Deverá estar presente representante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.
Espera-se também o comparecimento de militantes de várias cidades do Paraná, a começar por Maringá, que está lançando o Núcleo Maringaense do Fórum.

Para participar inscreva-se clicando em inscrição.

 

Discutir a plenária no espaço Fórum de Discussão 

 

 Mapa de localização da APP-Sindicato


Exibir mapa ampliado

 

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/07/12/convite-para-plenaria-estadual-do-forum-paranaense-de-resgate-da-verdade-memoria-e-justica-no-dia-14-de-julho-2012/

A segunda morte de Vlado

            A divulgação pelo Arquivo Nacional de 5 mil fotos do período ditatorial, antes inacessíveis, mostra que a Lei de Acesso à Informação está em plena vigência, mesmo com as inevitáveis resistências à sua implementação. Juntamente com a Comissão Nacional da Verdade, a Lei de Acesso à Informação inaugura um novo período na relação entre o poder público e os cidadãos. Não há mais segredos, e quem tentar mantê-los estará cometendo um crime.

            Entre as fotos divulgadas, estão algumas de Vladimir Herzog, no necrotério do DOI-CODI do II Exército. As imagens escancaram a suprema infâmia praticada contra um homem por seus semelhantes, embora o termo “semelhantes”, no caso, seja passível de mil questionamentos.

            De todas as vítimas dos abjetos torturadores e seus mandantes do regime militar, Vlado é a que mais me toca. Ele era professor na minha escola, a ECA-USP, embora eu não o tivesse conhecido. Participei dos protestos contra seu bárbaro assassinato, como presidente do Centro Acadêmico.

            Há, no entanto, aspectos específicos no assassinato de Vlado. Se toda tortura é hedionda, ela se torna ainda mais horrível quando incorpora o elemento da cilada. Chamado a depor no II Exército, Vlado lá se apresentou voluntariamente. E de lá nunca mais saiu com vida.

            Penso também na foto fabricada pelos torturadores, e que se tornou a foto oficial durante décadas. A fraude não consegue esconder a realidade, e não me refiro aos detalhes técnicos: Vlado está entregue, Vlado é a imagem da extrema sujeição de um homem entregue a uma matilha de depravados.

            As fotos agora tornado públicas aprofundam essa percepção. De um lado, a sanha maldita dos torturadores, de outro um homem completamente indefeso, vítima que se tornou um símbolo.

            Mas… era isso que ele queria? Era isso que sua família queria? Seus filhos estão felizes com as novos fotos agora estampadas?

            Quase todos os militantes torturados que conheci tinham, e têm, um grande pudor de exibir suas chagas. A tortura não é uma bandeira, embora sempre haverá os que usem essa condição como um passaporte para a eternidade. Imagino que a presidente Dilma tenha os mesmos escrúpulos.

            O acesso a todas as informações por parte de todos os cidadãos é um direito absoluto. Vlado, porém, não merecia esta segunda morte.



*Roberto Salomão é jornalista e um dos coordenadores do Fórum Paranaense pelo Resgate da Verdade, Memória e Justiça

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/07/09/a-segunda-morte-de-vlado/

Fotografias da ditadura são liberadas para consulta

A Lei de Acesso à Informação levou o Arquivo Nacional, em Brasília, a liberar à consulta cerca de 5.000 fotografias do acervo do extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) tiradas por agentes da ditadura militar (1964-1985).Há fotos de centenas de pessoas presas acusadas de subversão e ligação com a luta armada, obrigadas a posar com roupas íntimas; artistas panfletando a favor da Lei da Anistia, em 1979; e eventos religiosos com o bispo d. Helder Câmara. A maioria nunca havia sido divulgada.

 

Galeria – http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/8487-fotos-da-ditadura#foto-164757

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/07/06/fotografias-da-ditadura-sao-liberadas-para-consulta/

Já condenado à perpétua, ex-ditador Videla recebe mais 50 anos de prisão

A Justiça argentina concluiu na quinta-feira,5, um processo emblemático que condenou o ex-ditador Jorge Rafael Videla a 50 anos de prisão pelo roubo sistemático de bebês durante a última ditadura militar do país (1976-1983).

Junto a Videla, primeiro governante do regime militar argentino, se sentaram no banco dos réus Reynaldo Bignone, último presidente da ditadura, condenado a 15 anos, e outros oito repressores sentenciados a penas de até 30 anos.

O tribunal a cargo do caso considerou provada “a prática sistemática e generalizada de subtração, retenção e ocultação de crianças menores de 10 anos”, no contexto de um “plano geral de aniquilação” contra parte da população civil com o argumento de acabar com a “subversão” durante a ditadura militar.

Sentados na primeira fila do tribunal oral Número 6 de Buenos Aires, Videla, de 86 anos, e Bignone, de 84, ouviram em silêncio os gritos de júbilo de vítimas e familiares que abarrotavam a sala após o anúncio da condenação, que se soma às penas de prisão perpétua que já pesam contra ele por crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura.

Nas portas do tribunal, centenas de pessoas acompanharam a leitura da sentença de telões instalados e deram gritos de alegria ao ouvir as sentenças.

O julgamento envolve 34 crimes de apropriação de filhos de mulheres que, em sua maioria, deram à luz nas prisões da Escola de Mecânica da Marinha (Esma), da guarnição militar de Campo de Mayo e do chamado Pozo de Banfield, na periferia de Buenos Aires.

Durante o processo, que começou em fevereiro de 2011 como resultado de uma denúncia apresentada há mais de 15 anos pelas Avós da Praça de Maio, se sucederam os testemunhos de vítimas e repressores, como o próprio Videla.

O ex-ditador negou um plano sistemático de roubo de bebês e chegou a afirmar que as mães “eram militantes ativas das maquinarias do terrorismo e muitas delas usaram seus filhos embrionários como escudos humanos no momento de ser combatentes”. Uma das vítimas é Sara Méndez, detida em 1976 em Buenos Aires por um comando que raptou seu filho de 20 dias na época.

Transferida ilegalmente a Montevidéu, permaneceu presa durante quatro anos e meio e, ao recuperar a liberdade, começou a buscar pelo filho, quem encontrou em 2002 adotado por um ex-policial argentino.

O julgamento se ocupou também do caso de Macarena, a neta do poeta argentino Juan Gelman, que foi localizada em 2000 no Uruguai, onde nasceu enquanto sua mãe estava detida, e que nesta quinta-feira se uniu à celebração das organizações humanitárias em Buenos Aires.

“É uma sentença histórica que confirma o plano sistemático de roubo de bebês e, em meu caso, se reafirmam penas de Videla e Bignone, é muito positivo. Começar a desbaratar os responsáveis é um sinal de que a Justiça avança”, disse Gelman em declarações à Efe.

“Esta causa foi suficiente para demonstrar que havia um plano sistemático. Para mim, é algo muito positivo”, insistiu a jovem.

Também para Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, há motivos para comemorar. “Conseguimos fazer com que se reconheça que foi um plano sistemático, que tiveram essa aberrante ideia que nós não íamos criar nossos netos, mas viajamos por todo o mundo para encontrá-los”.

Junto a Videla e Bignone, foram condenados o ex-almirante Antonio Vañek, sentenciado a 40 anos, o ex-capitão de fragata Jorge Eduardo Acosta, a 30 anos, e o ex-general Omar Riveros, a 20 anos.

O tribunal também condenou o ex-capitão do Exército Víctor Gallo a 15 anos de prisão e sua ex-esposa, Susana Inés Colombo, a cinco anos; o antigo governador regional Juan Antonio Azic, a 14 anos; e o repressor Jorge Magnacco, a 10 anos.

Já o ex-chefe da Armada almirante Rubén Oscar Franco e o ex-agente de Inteligência Eduardo Ruffo foram absolvidos.

Segundo estimativas de organizações humanitárias, 105 crianças roubadas durante a ditadura recuperaram sua identidade, embora ainda haja mais de 400 denúncias pendentes por casos similares e cerca de 300 famílias depositaram dados em bancos de DNA com a esperança de recuperar seus filhos e netos roubados.

Cerca de 30 mil pessoas detidas clandestinamente desapareceram durante a ditadura, segundo estimativas do governo argentino e de organismos humanitários.

Fonte– Agência Efe( Buenos Aires)

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/07/06/ja-condenado-a-perpetua-ex-ditador-videla-recebe-mais-50-anos-de-prisao/

Ato em Maringá pelo fim de ruas com homenagens a ditadores

A Comissão Popular da Verdade Maringá realiza no próximo sábado, 7, um ato  pelo fim de ruas com homenagem à ditadores. Integrantes da Comissão se reunirão com os moradores das ruas Costa e Silva e Castelo Branco( zona 5) sobre a ditadura militar .

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/07/05/ato-em-maringa-pelo-fim-de-ruas-em-homenagens-a-ditadores/

Ruas com nomes de mortos e desaparecidos políticos da ditadura militar

Leia o artigo do Professor Doutor Reginaldo Benedito Dias, do Departamento de História da UEM, que analisa como a disputa pela memória do período daditadura militar brasileira tem incidido no processo de nominação de ruas, homenageando os mortos e desaparecidos políticos. Ele usa o exemplo da cidade de São Carlos(SP), que viveu um intenso debate político pelo fato de uma dar ruas cidade levar o nome do ex-delegado Sérgio Paranhos Fleury. O desfecho desse debate, que mobilizou o Movimento Nacional pelos DireitosHumanos, foi a modificação do nome da rua, aprovada por unanimidade pela Câmara de Vereadores.

Artigo http://www.cedap.assis.unesp.br/patrimonio_e_memoria/patrimonio_e_memoria_v8.n1/artigos/sentidos-politicos-da-toponimia-urbana.pdf

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/07/03/artigosentidos-politicos-da-toponimia-urbana-ruas-com-nomes-de-mortos-e-desaparecidos-politicos-da-ditadura-militar-brasileira/

Albernaz, o capitão que socou o rosto de Dilma Rousseff, em 1970

O capitão Benoni de Arruda Albernaz tinha 37 anos, sobrancelha arqueada, riso de escárnio e fazia juras de amor à pátria enquanto socava e quebrava os dentes da futura presidente do Brasil Dilma Vana Rousseff, na época com 23 anos. Ele era o chefe da equipe A de interrogatório preliminar da Operação Bandeirante (Oban) quando Dilma foi presa, em janeiro de 1970. Em novembro daquele ano, seria registrado o 43º entre os 58 elogios que Albernaz recebeu nos 27 anos de serviços prestados ao Exército.

 

 

“Oficial capaz, disciplinado e leal, sempre demonstrou perfeito sincronismo com a filosofia que rege o funcionamento do Comando do Exército: honestidade, trabalho e respeito ao homem”, escreveu seu comandante na Oban, o tenente-coronel Waldyr Coelho, chamado por Dilma e por colegas de cela de “major Linguinha”, por causa da língua presa que tinha.

Um torturador com diploma do Mérito Policial

 

Quinze anos depois, os caminhos percorridos por Albernaz não o levaram à condição de herói nacional, como ele imaginava. Registro bem diferente foi associado a seu nome na sentença do Conselho de Justiça Militar em que foi condenado a um ano e seis meses de prisão por falsidade ideológica. “Ética, moral, prestígio, apreço, credibilidade e estima são valores que o militar deve desfrutar junto à sociedade e ao povo de seu país. A fé militar e o prestígio moral das instituições militares restaram danificadas pelo comportamento do réu”, concluiu o presidente do conselho, João Baptista Lopes.

A prensa nada tinha a ver com as sessões de tortura comandadas por Albernaz na Oban. Sua agressividade parecia se encaixar como luva na estrutura criada para exterminar opositores do regime. Apenas um ano depois de torturar Dilma e pelo menos outras três dezenas de opositores, ele recebeu das mãos do então governador de São Paulo, Abreu Sodré, o diploma da Cruz do Mérito Policial.

Filho de militar que representou o Brasil na 2 Guerra Mundial, Albernaz nasceu em São Paulo e seguiu a carreira do pai. Classificou-se em 107º lugar na turma de 119 aspirantes a oficial de artilharia em 1956, mesmo ano em que se casou. Serviu no Mato Grosso do Sul antes de ser transferido para Barueri, em São Paulo, no início dos anos 1960.

Tinha fixação pela organização de paradas de Sete de setembro. Estava na guarda do QG do Exército na capital paulista, em fevereiro de 1962, quando o comandante foi alvo de atentado à bala. Conseguiu correr atrás do autor e o espancou. Virou pupilo do general Nelson de Mello, que mais tarde viraria ministro da Guerra no governo de João Goulart.

Estava em férias na noite do golpe militar de 1964 e, ainda assim, apresentou-se espontaneamente para o serviço. Em 1969, representou o comando de sua unidade na posse do secretário de Segurança Pública de SP, o general Olavo Viana Moog, um dos futuros comandantes do grupo que exterminou a Guerrilha do Araguaia.

Neste mesmo ano foi convocado pelo general Aloysio Guedes Pereira para servir na recém-criada Oban, centro de investigações montado pelo Exército para combater a esquerda armada. Foi lá que Dilma o conheceu.

“Quem mandava era o Albernaz, quem interrogava era o Albernaz. O Albernaz batia e dava soco. Começava a te interrogar; se não gostasse das respostas, ele te dava soco. Depois da palmatória, eu fui pro pau de arara”, disse a presidente em depoimento dado, no início dos anos 2000, para o livro “Mulheres que foram à luta armada”, de Luiz Maklouf Carvalho.

Em 2001, em relato à Comissão de Direitos Humanos de Minas Gerais, Dilma afirmou que já tinha levado socos ao ser interrogada em Juiz de Fora (MG), em maio de 1970, e que seu dente “se deslocou e apodreceu”. No mesmo depoimento, ela explicou: “Mais tarde, quando voltei para São Paulo, Albernaz completou o serviço com socos, arrancando meu dente”.

Telefone de magneto era usado para choques elétricos

 

Albernaz era conhecido por se divertir dizendo aos presos que, por ser muito burro, precisava ouvir respostas claras. Tinha na sala um telefone de magneto que era usado para “falar com Fidel Castro”, metáfora para a aplicação de choques elétricos, segundo relato de Elio Gaspari no livro “A Ditadura Escancarada”.

“Quando venho para a Oban, deixo o coração em casa”, explicava às vítimas. Uma delas foi o coordenador do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, primeiro preso a desaparecer após a edição do AI-5.

O mesmo general que convocara Albernaz para a Oban anos depois assinou relatório informando que Jonas “evadiu-se na ocasião em que foi conduzido para indicar um aparelho da ALN”. Trinta anos depois, O GLOBO noticiaria a existência de um relatório em que militares admitem a morte do guerrilheiro em decorrência de “ferimentos recebidos”.

— Albernaz era um homem terrível, o torturador mais famoso da Oban naquela época — confirmou ao GLOBO Carlos Araújo, ex-marido de Dilma, que foi preso alguns meses depois dela e submetido aos mesmos procedimentos da ex-mulher.

Renegado pelo Exército e atolado em dívidas

O trabalho na Operação Oban fez com que Benoni Albernaz caísse em desgraça na própria família. Aposentado e dono de uma fazenda em Catalão, Goiás, o pai se chateava ao saber do comportamento do filho:

— Ele usava o poder que tinha para extorquir as pessoas, e o pai ficava triste. Sempre foi uma família esquisita, muito desunida — conta a dona de casa Maria Lázara, de 60 anos, irmã de criação do capitão.

— Olha, acho que uma vez ele caiu do cavalo numa parada militar, antes da ditadura, e o cavalo pisou na nuca dele. A partir daí, ele não ficou bom da cabeça — supõe a prima Noemia da Gama Albernaz, que hoje vive em Cuiabá.

Albernaz deixou a Oban em fevereiro de 1971, quando o aparelho já havia se transformado no DOI-Codi. Por três vezes tentou fazer o curso de operações na selva, mas teve a matrícula recusada. Foi transferido para o interior do Rio Grande do Sul, passando da caça a comunistas às operações de rotina em estradas de fronteira. O Exército tentava renegá-lo. Em março de 1974, foi internado em Porto Alegre, vítima de envenenamento.

Albernaz tinha problemas com dinheiro. Foi denunciado pelo menos cinco vezes por fazer dívidas com recrutas e não pagá-los, apesar das advertências de seus superiores. Estava lotado no setor medalhístico da Divisão de Finanças do Exército, em Brasília, quando foi declarado inabilitado para promoções, por não satisfazer a dois requisitos: “conceito profissional” e “conceito moral”. Em março de 1977, o presidente Ernesto Geisel o transferiu para a reserva.

Em um escritório no Centro de São Paulo, passou a coagir clientes a comprar terrenos vestido com farda falsificada de coronel — embora tivesse sido transferido para a reserva como major — e dizendo-se integrante do SNI.

— Você é uma estrela de nossa bandeira. Vamos investir juntos, ombro a ombro, peito aberto — dizia aos clientes, segundo registros de reclamação levadas ao Exército, pistas que levariam à sua condenação por falsidade ideológica.

Em 1980, intermediou transações de ouro de baixa qualidade no Pará, vendendo como vantagem seu acesso aos garimpos. Nunca foi responsabilizado pelo espancamento, por encomenda, de um feirante de origem japonesa.

— Se não pagar agora, vai preso para o Dops — ameaçou, já em 1979, quando não mais pertencia ao Exército.

O agredido foi à delegacia prestar queixa e, ao saber disso, Albernaz baixou no local.

— Sou amigo íntimo do presidente da República, foi ele quem me deu isso — falou ao delegado, mostrando a pistola Smith & Wesson. — Na lista de torturadores, sou o número 2.

No fim dos anos 1980, Albernaz estava atolado em dívidas. Não conseguiu pagar a hipoteca e foi acionado pelo menos quatro vezes em ações de execução extrajudicial. Sofreu um infarto quando estava no apartamento da namorada, nos Jardins, em São Paulo, em 1992. Chegou morto ao Hospital do Exército. Deixou três filhos e herança de R$ 8,4 mil para cada, resgatados 15 anos após sua morte, quando fizeram o inventário. Nenhum deles quis falar ao GLOBO.

— Siga em frente com o seu trabalho, que a gente está seguindo em frente aqui também — disse o filho Roberto, dentista, desligando o telefone.

— Isso é coisa do passado, gostaria que não me incomodasse — completou a também dentista Márcia Albernaz.

— Esquece nossa família, vai ser melhor para você — disse Benoni Júnior, médico do Exército.

— Você é uma estrela de nossa bandeira. Vamos investir juntos, ombro a ombro, peito aberto — dizia aos clientes, segundo registros de reclamação levadas ao Exército, pistas que levariam à sua condenação por falsidade ideológica.

Em 1980, intermediou transações de ouro de baixa qualidade no Pará, vendendo como vantagem seu acesso aos garimpos. Nunca foi responsabilizado pelo espancamento, por encomenda, de um feirante de origem japonesa.

— Se não pagar agora, vai preso para o Dops — ameaçou, já em 1979, quando não mais pertencia ao Exército.

O agredido foi à delegacia prestar queixa e, ao saber disso, Albernaz baixou no local.

— Sou amigo íntimo do presidente da República, foi ele quem me deu isso — falou ao delegado, mostrando a pistola Smith & Wesson. — Na lista de torturadores, sou o número 2.

No fim dos anos 1980, Albernaz estava atolado em dívidas. Não conseguiu pagar a hipoteca e foi acionado pelo menos quatro vezes em ações de execução extrajudicial. Sofreu um infarto quando estava no apartamento da namorada, nos Jardins, em São Paulo, em 1992. Chegou morto ao Hospital do Exército. Deixou três filhos e herança de R$ 8,4 mil para cada, resgatados 15 anos após sua morte, quando fizeram o inventário. Nenhum deles quis falar ao GLOBO.

— Siga em frente com o seu trabalho, que a gente está seguindo em frente aqui também — disse o filho Roberto, dentista, desligando o telefone.

— Isso é coisa do passado, gostaria que não me incomodasse — completou a também dentista Márcia Albernaz.

— Esquece nossa família, vai ser melhor para você — disse Benoni Júnior, médico do Exército.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/albernaz-capitao-que-socou-rosto-de-dilma-rousseff-em-1970-5361939#ixzz1zUG60DlU

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/07/02/albernaz-o-capitao-que-socou-o-rosto-de-dilma-rousseff-em-1970/

Representantes da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Estados Unidos participarão de seminário sobre Operação Condor

 

Jornalistas, parlamentares e pesquisadores argentinos, brasileiros, chilenos, paraguaios, uruguaios e estadunidenses participarão do “Seminário Internacional sobre a Operação Condor”. O evento, que ocorrerá entre 4 e 5 de julho, pretende trazer ao Brasil uma perspectiva mais detalhada da ação conjunta organizada pelos governos militares na América do Sul entre as décadas 60 e 80.

O encontro é uma iniciativa das comissões da Memória, Verdade e Justiça (CMVJ) e de Direitos Humanos (CDHM). Nesta sexta-feira(29/6/12), às 10.00, a coordenadora da CMVJ, deputada Luiza Erundina (PSB-SP), ofereceu uma coletiva para pormenorizar o motivo e os objetivos do conjunto de mesas redondas que serão realizadas. Ela estará acompanhada do presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo Abrão Pires Júnior, e do presidente da Fundação João Mangabeira, Carlos Roberto Siqueira de Barros. As duas entidades apoiam o evento.

Entre os convidados, confirmaram participação o ex militante contra a ditadura no Uruguai e atual deputado pelo partido Victoria del Pueblo (PVP), Luiz Puig Cardozo; o juiz federal argentino e autor de várias obras sobre a Operação Condor, Daniel Rafecas; o médico e militante pelos direitos humanos no Paraguai. Alfredo Boccia Paz; a professora e pesquisadora da universidade de Long Island (Nova York, EUA), J. Patrice McSherry, autora de vários livros sobre as ditadoras militares na América do Sul; a jornalista chilena Mónica González, fundadora e diretora da fundação Centro de Investigación Periodística; do ativista brasileiro pela defesa dos direitos humanos no Cone Sul, Jair Krischke.

Fonte- Câmara dos Deputados

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/06/29/representantes-da-argentina-chile-uruguai-paraguai-e-estados-unidos-participarao-de-seminario-sobre-operacao-condor-na-camara-dos-deputados/

Fórum e Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal juntos no resgate da memória do Paraná

Membros do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça se reuniram nesta quinta-feira,28, com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Curitiba para discutir um roteiro de trabalho no qual inclui a vinda da Comissão da Verdade que estará na capital paranaense no segundo semestre. Uma audiência pública será realizada em outubro, para reunir informações e dar divulgação às investigações realizadas pelo grupo de trabalho, que apura casos de violação dos Direitos Humanos acontecidas entre os anos de 1946 e 1988. “A Câmara de Curitiba vai participar deste processo de resgate da verdade sobre a ditadura, pois é sensível à causa”, declarou o vereador Pedro Paulo (PT), presidente da comissão.

Os  integrantes do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça Milton Alves, Norton Nohama e Roberto Salomão também anunciaram a criação de um Observatório de Direitos Humanos no estado, a possibilidade de ser construído um museu dedicado ao tema na cidade e o processo de interiorização do fórum, com a participação de outras cidades do Paraná. Os vereadores Paulo Salamuni (PV), Jorge Yamawaki (PSDB) e Julieta Reis (DEM) acompanharam a reunião.
Memória
Os parlamentares colocaram-se à disposição do fórum e receberam sugestões para ações futuras. Norton Nohama, assessor da reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro do fórum, pediu a participação da comissão no grupo de trabalho criado para definir os parâmetros de criação do Observatório de Direitos Humanos. “Queremos a Câmara de Curitiba junto conosco, para pensar o observatório, que pode receber recursos da Capes para as atividades de pesquisa”, adiantou Nohama. Já integram o grupo de trabalho representantes da Secretaria Estadual de Justiça, da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná, do Ministério Público, dos setores de Ciências Jurídicas e Humanas da UFPR, da Assembleia Legislativa do Paraná e da Unibrasil.

Milton Alves, da coordenação do fórum, reforçou o interesse das 50 entidades que compõem a iniciativa em construir um roteiro de visitação na cidade, que recupere os principais pontos de interesse para a história de resistência à ditadura militar em Curitiba. “A Igreja do Guadalupe, por exemplo, abrigou diversas reuniões clandestinas durante o período. Na Boca Maldita foi realizado um comício das Diretas Já. O fórum não se basta no resgate dessa memória, mas também busca a  construção de uma consciência mais democrática”, argumentou.

Também foi anunciado que terreno que abrigava o antigo presídio do Ahú deverá ser utilizado para a construção de um museu dedicado a esse período da história nacional. Foi sugerido aos vereadores um trabalho de revisão dos nomes de logradouros públicos na cidade, que considerasse novas denominações para ruas e praças que façam referência à torturadores e demais pessoas ligadas a violações dos Direitos Humanos.

Educação
Roberto Salomão, da coordenação do fórum, entende que a missão da sociedade é maior que a condenação dos torturadores, após o trabalho de identificação a ser realizado pela Comissão da Verdade. “No nome do fórum, fizemos questão que houvesse a palavra Justiça. A condenação dessas pessoas é menos importante do que a exacração pública dos crimes que elas cometeram. Com o tempo, elas terão que ir para a cadeia, pois os crimes são inafiançáveis e imprescritíveis. Só que a memória que as pessoas terão desses crimes fica e ajuda a afirmar uma nova cultura de defesa dos Direitos Humanos”,  disse.

O professor de Direito da UFPR, Leandro Franklin, também pediu o apoio da Câmara no processo de documentação da história desse período. “A memória da ditadura militar está muito calcada na oralidade, em depoimentos, e precisa ser transformada em documento e preservada em publicações”, argumentou o acadêmico. Ele sugeriu que o Legislativo participe, e talvez sedie, a realização de uma audiência pública preparatória para a visita da Comissão da Verdade, em outubro. A ideia foi bem aceita pelos vereadores.
Paulo Salamuni citou livro da jornalista Tereza Urban, em que ela descreve o ambiente cultural da época e apresenta documentos nos quais constam a atividade de resistência de vereadores e personalidades. “Eu vivenciei parte destes fatos, pois várias reuniões aconteceram na minha casa. O esforço da Comissão da Verdade não é motivado por um espírito revanchista, só que para dirigir melhor às vezes é preciso olhar no retrovisor, para que se tome a direção correta”, disse o parlamentar, reforçando a importância da defesa dos Direitos Humanos. Jorge Yamawaki destacou que, além do resgate dessa história, a comissão da Câmara de Curitiba tem mais atribuições, como receber denúncias recentes de violação de direitos.

A necessidade de revisar o conteúdo do ensino básico na cidade também foi tema da reunião, levantado pela professora Janeslei Aparecida, do sindicato da categoria. “Para construir uma educação de valores democráticos, temos que revisar a história do Brasil ensinada nas escolas. Ela parece um conto de fadas, onde o rei é bonachão e o fim da escravidão foi uma decisão da princesa. Isto esconde quatro séculos de escravidão. A repressão policial do regime militar tem as suas raízes aí, nessa polícia escravista”, defendeu a educadora. Sérgio Athayde, da Central Única dos Trabalhadores, reforçou o desejo de reverter este quadro. “Eu é que estava lutando pela democracia e não aceito ser chamado de terrorista. Há uma inversão perversa de valores”, afirmou. Em seu breve testemunho, relatou casos de violação aos Direitos Humanos cometidos na época da ditadura militar.

 

Fonte- Fórum e Câmara Municipal

Link permanente para este artigo: https://forumverdade.ufpr.br/blog/2012/06/28/forum-e-comissao-de-direitos-humanos-da-camara-municipal-juntos-no-rsegate-da-memoria-do-parana/

Carregar mais